A brincadeira para tratar de forma humorada uma situação crônica na usp guarda vários sentidos.
Ela é feita por quem está envolvido nos movimentos de greve, e por quem não aguenta mais e/ou não entende os motivos da greve.
Primeiro de tudo: há um excesso no mecanismo de greve que a desgasta como forma legítima de reinvidicação, ainda, óbvio, que o seja. Antes de haver greve, é necessário que haja um grande esforço de atos para impedir que ela precise ser usada, porque o tamanho do prejuízo financeiro, pessoal e de vez em quando até moral que ela traz para os estudantes, professores e pessoas ligadas à Universidade não é para brincadeira.
Os movimentos sociais centrais envolvidos têm um pouco de dificuldade de entender isso. Como greves de muitos anos trouxeram conquistas importantes, creem que ela é o meio mais eficiente. Portanto, os movimentos acabam tendo preguiça de inovar. E, por consequência, preguiça de convencer. Ficam em seus campos fechados, com as convicções dos seus ideais e de suas informações, esquecem que antes de apresentar proposta, reinvidicações e críticas aos sistemas e mecanismos da USP, precisam informar, dialogar de forma pacífica e não simplesmente forçar os outros a aceitarem suas ideias.
Isolam-se, fazem-se de heróis solitários entre eles, porque muitas das lutas geram conquistas para quem "não está nem aí" pro que está acontecendo. Parte dessas pessoas "nem aí" não é simpática a palavras de ordem impostas e a atitudes que soam apenas agressivas a quem não sabe exatamente o que está acontecendo. Mas não significa que não são sensibilizáveis a causas. Ainda mais na FFLCH, onde estou devidamente introduzida, a abertura para solidariedade e para critica é grande. Porém, quando bem apresentada.
Antes de chegar a greve, deve chegar a mobilização (que às vezes torna a greve desnecessária, em atos e protestos de peso), para chegar à mobilização é preciso convencer, para convencer, é preciso informar.
A fórmula é básica e conhecida. Vez ou outra chacoteada, vez ou outra defendida.
Mas existe uma certa complicação de conceito no que diz respeito a "informar". O melhor do informar é professoral. São dados, fatos, evitando juízos, permitindo - sem pressão - o questionamento.
É muito comum os movimentos acharem que estão informando quando chegam em salas com os discursos do tipo "a Reitoria, de forma opressora, perseguiu n alunos por conta de tais protestos durante as férias... etc.. mecanismos de opressão... a ditadura da USP... sistema de mercantilização do ensino...". E o que os alunos sabem na sala é que no meio dos tais protesto houveram "atos de vandalismo". E ficam com isso, ignoram qualquer possível informação apreensível em meio a palavras de ordem.
Isso não é informar. Não é aproximar. É criar um buraco.
Há um buraco, de ambos os lados, aberto pelas pás do preconceito. Essas pás são geradas por uma trava quando um enxerga o outro e já logo pensa: "iiiih... lá vem". Sem saber do que se tratam aqueles termos, sem se abrir pra ignorância alheia, sem permitir que se entenda o que tem por trás do discurso de cada um.
O que se faz na maioria das relações entre os movimentos e as pessoas à parte dele não é informação. É descomunicação.
O movimento assusta, não se expressa direito, impõe e radicaliza.
As pessoas à parte dificilmente se interessam, são irritadas com a maneira como as coisas funcionam nos mecanismos representativos (muito fechados a "panelas" ideológicas e falta de praticidade), alienam-se e se tornam passivas aos problemas.
É incrível como vez ou outra aparece alguém que entrou no movimento, diz que não se interessava antes porque achava radical, com muito envolvimento partidário e sua politicagem (um fato, que não anula nada de nada nos problemas criticados, só irrita pelo jeito como funcionam), mas depois que entendeu as reinvidicações, acaba agindo da mesma forma que antes a afastava. Fica a sensação de que eles acham mesmo que o problema está só em quem não se envolve. E não é. Se é o movimento que está querendo convencer, ele deve fazer BEM a sua parte.
Repare: não é uma questão de quem carrega a razão, mas de enxergar qual a profilaxia possível para evitar a patologia crônica do buraco comunicativo.
Agora...
Especialmente em relação a Universidade e políticas públicas, os movimentos não inventam coisas das cinzas do cemitério do ultrapassado, apesar de algumas vezes os termos de alguns grupos remeta a isso (E alguns desses grupos tragam pautas aleatórias que causam estranhamento e não têm sentido objetivo e, portanto, não são levadas a sério e dispersam energias mobilizadoras. Aka: apoio à luta Palestina).
Não teria força nem entre eles críticas à Universidade e a políticas estaduais sem nenhum tipo de fundamento. Não existem moinhos de vento coletivo, muito menos que surgem para professores conhecidamente sensatos e alunos que por muito tempo não se envolviam com os movimentos.
As greves crônicas são resultado de problemas crônicos.
Vemos nos debates recentes a fragilidade e os podres do sistema de terceirização de serviços que cerca a USP. A declaração de falência da União, empresa que fazia a limpeza na FFLCH e outras 10 (14, 17?) instituições da USP, é repleta de situações que são constantes nesse sistema. A começar que já houve falência de terceirizadas. E que uma dessas empresas que já faliram é do mesmo dono da União. E que praticamente todas empresas terceirizadas que trabalham na USP, segundo as informações que rondam os debates, estão ligadas a gente com poder na USP - sendo o próprio "poderoso", um conhecido ou parente. Outra: diz que o repasse da USP para empresa era cerca de 2200 por cabeça de funcionário. Os funcionários recebiam um salário mínimo. Trabalhando em péssimas condições, com produtos ruins, sem vale-transporte, tendo de lidar com falta de luvas e outros utensílios, a ponto de às vezes trazerem de casa.
No caso da União, a Reitoria fez 70% do repasse no mês em que a empresa deveria pagar seus funcionários e não o fez. Essa informação em geral é conhecida e faz com que muita gente não entenda porque o movimento pega no pé da Reitoria. E eis algumas informações circulares que respondem a isso: a União já estava com problemas financeiros e jurídicos quando a Reitoria fez o repasse, e portanto sabia que esse dinheiro ficaria preso na Justiça, e a União não receberia. A Reitoria também pôs em um artigo no contrato de recisão com a União assinado em fevereiro que se comprometia a pagar o último salário dos funcionários. Além disso, a Reitoria, como órgão máximo da USP, é a ponte mais direta entre a mobilização para esses funcionários e uma pressão política no Judiciário.
Fora que, inevitavelmente, todo esse caso que ocorre agora, além de já ter acontecido, pode muito bem a voltar a acontecer, devido a forma como funciona a terceirização dentro da Universidade. Isso faz com que o debate sobre a terceirização se revitalize, e saia das cobertas dos milhões de problemas de má administração e privatização que ocorre dentro da USP e outras universidades - mais além, outras instituições - públicas do país.
A terceirização, segundo os métodos atuais, tem um problema crônico de jogos de interesses - é uma forma de roubar dinheiro público usando desculpa de prestação de serviço (precário demais para o dinheiro que se paga e ainda por cima explorador trabalhista). É um serviço que funciona numa lógica mecânica, acabando por desumanizar seus trabalhadores.
E é daí que vem a palavra de ordem de que existe escravidão na USP: gente sem receber, e que estava recebendo muito pouco para o trabalho que faz, além de condições precárias de trabalho e omissão de direitos trabalhista constitucionais. Existe escravidão na USP.
Se a terceirização é o que está mais em voga nos debates, isso não apaga nos movimentos sociais de que ele é mais um de muitos problemas.
Na FFLCH em particular, os prédios estão cheios de problema de infra-estrutura. Há 3 semanas, uma sala na Letras foi interditada por risco de desabamento. É, pois é.
Em 2009, o prédio da História e da Geografia tinha um problema grave no teto que fazia com que muitas salas tivessem goteiras. Para não falar na sala que tinha uma verdadeira cachoeira, cujo lago que formou virou competição de barquinho de papel como forma de protesto. Ou mesmo na chuva torrencial que transformou as rampas de acesso em tobogã em 2007. Depois da greve que teve em 2009, o processo para obras se acelerou. Está finalizado. Sem goteiras.
Hoje não chove nas salas. Mas isso não resolve o superlotamento de salas, a falta de cursos para as disciplinas (e sala para os cursos) e de professores... Ou o fato de que é frequente faltar sabão nos banheiros, de que as paredes das salas estão feias com reformas mal-feitas e de que os professores não recebem o aumento adequado, ou seja, segundo a inflação há mais de 20 anos.
Existem muitas situações (das quais não sou profundamente informada, mas conheço e vejo os efeitos - mesmo porque, eles não estão super escondidos) que apontam para um projeto mercadológico do conhecimento, que acompanham um processo de privatização da USP. Não haverá um leilão, uma ata do governo ou qualquer coisa declarando privatização da USP. Ela é gradual e silenciosa. Feita através de pequenas medidas que inserem empresas privadas no comando econômico e político (entenda por decisório) de certos cursos e que geram um lento abandono (e, portanto, um posterior fechamento) pela perda de excelência por conta do abandono de professores e escassa verba para projetos e grupos de estudo e falta de (ou inferior em relação a outros lugares) condições adequadas para produção em outros cursos.
Esse manejo tem funcionado. As pessoas atribuem a má administração a condição de instituição pública e tomam a privatização como uma forma de salvar. Não se percebe a existência de um sucateamento, no caso de cursos por abandono, que é intencional, porque não tem como não ser intencional - desinteresse e má administração só vem quando não se tem intenção de melhorias, vontade política manda muito em energia produtiva. Toma-se o sucateamento como um fracasso do próprio curso e/ou instituição, ou mesmo culpa-se o estado da conservação em seus usuários. Não negando o lugar-comum que todos devem fazer a sua parte, a precariedade e antiguidade de equipamentos, ferramentas e objetos denunciam sem pudor o abandono administrativo.
Isso porque estou falando daquilo que está mais presente no meu cotidiano e do que sei mais. Existem inúmeras lutas ao longo desses 20 anos que impediram algumas manobras desse processo privatizador.
O Sintusp carrega um jornal que tem o seu histórico de lutas. Quinta-feira passada, dia 14 de abril, estavam na rampa da História/Geografia a Prof. Marlene Suano e o funcionário demetido e sindicalista Claudionor Brandão a discutir sobre esses problemas. A prof. Marlene falava das posturas adotadas pelo movimentos em lutas justas e recomendava ao Brandão uma mudança em sua atitude para que ele fosse de fato ouvido, já que ele possuía muita informação sobre os problemas da Universidade e o histórico de lutas do Sintusp ao longo de mais de 20 anos. Enfim, ela falava, com a eloquência e sagacidade que lhe é inerente e conhecimento de causa, de algo que sempre circula entre os corredores, em vozes que não são reacionárias em si, mas tem uma raiva da maneira como se conduz as políticas entre DCE, Sintusp e, mais raramente, na ADUSP (Associação dos docentes), e como isso afastava especialmente alunos. Ela falava com a perspectiva que eu tinha também, mas, óbvio, muito mais articulada, informada e com propriedade. No fim, dizia: era preciso mudar abordagem, porque as lutas são justas e urgentes, mas precisam de gente convencida a se mobilizar. Convencer, lógico, não significa que fará todos estarem lá nas ações, mas sustenta apoios e aumenta a massa de quem se predispõe a agir. Além, claro, de não dar brecha para o menosprezo a essas lutas e não dar armas para os opositores atacarem e conquistarem apoio da sociedade.
Para quem conhece o Brandão, sabe que a Marlene estava falando com a grande fonte geradora das posturas mais agressivas de protestos que são adotadas pelo Sintusp. Barricadas, palavras de ordens aos gritos, naquele estilo sindicalista iniciado na década de 70, quebra-quebra, ateação de fogo em coisas... Coisas desse tipo deram brecha pra demissão do cara. Não foi à toa, independente de haver processos que foram forjados e dessas atitudes se tratarem de ato político. Nessas, ele foi acusado de crimes contra a liberdade individual, ameaça, lesão corporal, injúria, constrangimento ilegal... Aconteceram, e deram pretexto para demitir alguém que é incômodo.
Minutos depois dessa conversa, o Brandão foi falar na plenária convocada para os alunos do vespetino decidirem sobre a paralização de apoio aos funcionários terceirizados sem salário, e ele falou como lhe foi recomendado: informativo, sereno.
As pessoas que o estavam ouvindo ali eram pessoas que ficaram pra plenária e não foram pra casa, portanto, pessoas já em si mais interessadas e pacientes, quando não do movimento, então ele podia ter falado do jeito que quisesse. Mas a postura que ele adotou será útil para a palestra sobre história de lutas na Usp que foi projetada naquela conversa Brandão-Marlene-alunos que os estavam ouvindo. E, talvez, quem sabe, para as formas de luta do Sintusp esse ano.
No fundo, é preciso perceber que quem faz greve na USP está muito longe de ser vagabundo ou mero baderneiro. O número de pessoas que estão lá só pra "brincar" acho que nem se conta nos dedos de uma mão, e também não duram muito tempo inseridos no movimento. Muitos dos que quebram coisas etc interpretam essa atitude como forma de chamar atenção. E quando os debates são intensificados depois dessas ações, eles têm pra si de que estão certos em pensar dessa maneira.
Eles não têm clareza que na verdade eles afastam quem eles gostariam que estivessem junto com eles. Ou se tem, não estão interessados em transformar isso numa mobilização de todos. O que não faz sentido nenhum. Não acho que é o caso.
Além disso, quando há paralização, greve etc, nossos calendários são ajustados para reposição. E perdemos as férias de julho. É verdade que tem professor que não repõem, ou repõe porcamente, mas os alunos não contam com isso. Quem vota na greve, está votando pela causa, não para ter o seu cronograma todo desregulado, sem saber se terá férias ou não, correndo o risco de ter seu rendimento comprometido e pagando caro pra comer nos dias de greve.
Quem fica em casa geralmente não votou na greve. Está aborrecido porque não se sente representado e vai ser prejudicado. Diz que quer estudar e fica fazendo seus trabalhos em casa, sem ir pra mobilização. Que é esvaziada. Afinal, eles não foram convencidos nem das causas da greve, quanto mais se predispor a estar em atos em que se fazem manifestações das quais eles discordam. E se há alguma pequena parcela que gosta de greve pra fazer nada, geralmente ela nem vai votar, porque não tem paciência de aguentar as mais de 3 horas de assembleia com discursos difusos, pouco práticos ou repetitivos que geralmente precede essa decisão.
As greves, portanto, não se tratam de uma várzea.
Elas são fruto de graves problemas da USP que são abafados ou distorcidos, e de falta de habilidade dos movimentos sociais que tomam consciência desses problemas e lutam contra estes em agregar, aproximar, inovar e repensar suas condutas.
Parece que a simples represália a sua ações é diretamente ligada a um discurso reacionário e/ou um posicionamento ignorante. Em sua maioria, é sim. Mas isso não tira o fato de que não se faz algo por parte deles para fazer ser diferente.
Enquanto os movimentos não se refazem, com iniciativas mais criativas, discursos mais informativos e mobilização mais original, ele só vai conseguindo reter algumas das ações predatórias contra a Universidade. As greves se banalizam, perdem força de apoio, não são ouvidas em sua essência de causas. Reitoria, governo e empresas privadas vão se esgueirando aos poucos, sufocando os incômodos, desfazendo-os com desculpas, conquistando apoio com lógica mercadológica, desumanizando o conhecimento. E assim estamos indo. Aos poucos.
P.S.: Quando falo aqui em "movimentos", falo dele como um bloco. Tem gente que está lá que não se radicaliza, que não concorda com tudo, que não participa de ações que não apoiam. Mas não são maioria, nem tem força de liderança. Portanto, "movimentos" é o bloco que faz a imagem dos movimentos sociais.
________________________
Aqui tem um entrevista da semana passada com o Brandão.
Sim, é do PCO etc, mas a entrevista está muito informativa e pouco simples pregação: