sexta-feira, 31 de julho de 2009

Ligações entre a confusão no Irã e em Honduras

Atualizando os que estão em outro mundo:

Após as eleições presidenciais deste ano no Irã, que teve suspeitas de fraude nas urnas (o argumento mais grave, na minha opinião, é o de que é o resultado foi dado duas horas depois de fecharem as urnas. Detalhe: urnas com votos de papel de todo o país, que tem cerca de 70 mi de pessoas -a votação pra prefeito de São Paulo no ano passado, com urna eletrônica, demorou quase 4 horas para ser contada), milhares de iranianos - jovens e velhos, homens e mulheres - saíram às ruas pedindo que os resultados fossem revistos. Foram duramente repreendidos pela polícia de Mahmoud Ahmadinejad, presidente supostamente reeleito, o que gerou muitos conflitos e mortes de manifestantes, mas não conseguiu acabar com o movimento.
Aliás, o movimento havia dado uma diminuída (pelos menos na cobertura dos jornais) nas últimas semanas, mas ontem teve uma grande passeata em homenagem as vitimas, havendo conflito com a polícia novamente.

Em Honduras, num imbróglio ainda meio mal explicado, o presidente eleito pela população, Manuel Zelaya, recebeu um golpe por opositores com o apoio do Exército e da Suprema Corte, após ele tentar fazer um consulta nacional sobre a mudança na Constituição. Essa consulta era considerada ilegal segunda a Constituição do país, e Zelaya recebeu uma ação judicial para que não a realizasse. Ele insistiu no assunto, e foi deposto por descumprir ordem judicial.
Ele foi exilado e até agora está tentando entrar no país por meio da fronteira com a Nicarágua. Sinceramente, ele está fazendo o maior show com isso (entrar no país em um caminhão dirigido por ele, com centenas de seguidores e jornalistas junto), e atropelando meios mais adequados de se resolver a questão (como um acordo que os EUA já se disponibilizou a mediar, e que ele aceitou, por sinal).
De uma maneira ou de outra, Zelaya aparentemente tem apoio da maioria da população hondurenha, que se manifesta com o presidente eleito por eles, ou faz suas próprias passeatas na capital Tugucigalpa, e de praticamente toda a comunidade internacional, que não reconhece o governo golpista.


Acho que é meio óbvio o que há de comum entre os dois.
Populações exercendo e lutando pelo seu direito a democracia, mesmo que estas sejam frágeis nos países em que se encontram.

Por motivos bastante subjetivos, o que está acontecendo no Irã me emociona mais do que em Honduras.
A população não se calar diante de um governo opressor, em uma cultura que já por si só contem comportamentos considerados ocidentalmente como conservadores e submissos (devido a maioria xiita dos muçulmanos do país), é um indicador de coragem e transformação que pode estar surgindo no Irã.
Ahmadinejah é um cara bem populista, tem sua base eleitoral nos pobres, e é um político de muita lábia. Seu discurso varia segundo a platéia. Para a comunidade internacional, ele faz uso de palavras próprias de vítima injustiçada, especialmente no que diz respeito ao seu programa nuclear. Internamente, ele bate em todos que se opõem as suas idéias, mas isso não costumava ser um grande problema para ele.
Agora que esse bater está afetando muito diretamente a população (de uma maneira bastante ultrajante, afinal a fraude é bem óbvia) e que até o aiotolá (maior autoridade do país, líder religioso instituído pela Revolução Iraniana), que apoia o presidente, chegou a dizer que talvez fosse melhor rever a contagem da eleição, Ahmadinejah ou aprende a aceitar os apelos da populção, ou no seu próximo escorregão insultante acabará sendo tirado da presidência pela população.
É claro que esta é uma opinião otimista minha. Governos tiranos devem ser retirados com a vontade da população. Sempre há aquela ajuda na surdina (ou na cara dura) de outros países, mas quem faz as coisas acontecerem é a população. É assim que transformações sólidas acontecem, porque se torna algo do qual a população se orgulha, e a lembrança da luta é algo que perdura e se tenta preservar.
Bem diferente da palhaçada que aconteceu no Iraque. Que só foi merda atrás de merda.
Democracias, especialmente no Oriente Médio, tem de ser algo almejado pela a própria população, com pensamentos e modelos vindos dos próprios árabes (claro que, por ser um modelo político bem ocidental, haverá influência. Mas que seja só de idéias, aceitas e bem recebidas pelos árabes). Pode ser muito lento, mas é um processo necessário. Caso contrário, uma intervenção direta de outros países se torna algo que gera ódio e rejeição a essas ideias, sem que elas tenham a oportunidade de serem realmente bem discutidas, sem que elas possam entrar na mente da maioria da população.
O Irã finge que tem democracia. Se diz uma república islâmica. Mas lá, como em todo lugar que a democracia é frágil, manda o poder e as influências. Ainda mais porque essa coisa de aiatolá é uma enganação que faz os muçulmanos se sentirem intimidados a se opor, com medo de estarem desrespeitando a religião.
Mas não é ruim sonhar com um dia em que O Corão receberá a interpretação individual de cada um, e então governos como Irã não poderão abusar da religião para controlar a população. E essa população não permitirá ser governada sem que se considere de maneira consistente a sua vontade.


Sobre Honduras, confesso, não sei muito de sua história. Mas certamente um lugar em pleno século XXI que tem seu presidente deposto por uma desculpa esfarrapada como a que foi dada pelos golpistas não tem uma democracia forte. A própria ação judicial já é absurda. Que Constituição é essa que não permite a voz da população?
Mas, em termo judiciais, ok o presidente ser repreendido... Mas ser deposto é um exagero oportunista.
Só que esse golpe não vai longe. A não ser que sejam reveladas informações muito sórdidas sobre o Zelaya ou o próprio cometa um grande erro que indigne a comunidade internacional (não acho isso totalmente impossível, a julgar pelas atitudes impulsivas e meio wanna-be-herói que ele vem tendo), os golpistas não conseguirão governar.
Honduras iria receber sanções comerciais e a coisa ia ficar bem difícil (e quem sofre mais é a população - que possivelmente se revoltaria ainda mais). Também existiria a possibilidade de uma intervenção da ONU - e se isto acontecesse, ia virar uma situação caótica (Eu esperaria que fosse MUITO melhor planejada do que o que eles fizeram no Haiti... Mas tenho minhas dúvidas).
Em Honduras, uma intervenção internacional é menos grave do que no Irã, já que não se pode por culpa em culturas ou mentalidades. Não tem como o governo hondurenho contra-atacar com uma campanha de insultos ao ocidente e sua incompreensão com relação a uma religião em específica. É um outro contexto.
Não dá para usar a desculpa que os interpostos comerciais são uma repreensão ideológica, como ocorre no Irã. A população sabe bem que seria uma repreensão a um governo que não foi eleito por eles. É uma situação insustentável para o governo golpista.
Eles vão cair.


É meio difícil para mim, como brasileira, ficar falando que esses lugares não tem "democracia forte", sabendo que um americano ou um suíço diriam o mesmo sobre o Brasil.
É claro que são níveis diferentes, e o Brasil, mesmo que mancando, está sim avançando em termos de democracia.
Sim, nós temos de conviver com políticos que não ligam para a opinião pública e ver a maioria que se elege não passar de uma corja endinheirada e influente. Mas, de toda a maneira, é a população que elege. Muito mal, mas é ela.
Mas um americano e um suíço achariam engraçado, quando não patético, que a democracia no Brasil se resuma a eleições do executivo e do legislativo, com poucas consultas populacionais. Lá eles elegem até o juiz principal da cidade. A Suiça consulta a população até para saber se eles aceitam que aviões do Exército utilizem certa área do espaço aéreo. Quase a metade dos estados norte-americanos fizeram um plebiscito junto com as eleições do ano passado para saber se a população aceita o casamento gay.
Pena que os brasileiros andam cada vez mais indiferentes, e mesmo que a mídia fique pressionando para que o Congresso Nacional, no mínimo, envergonhe-se das coisas que acontecem por lá, poucos acham mais importante protestar do que ver seu programa na tv aos domingos.

Que tal se inspirar um poucos nos iranianos e nos hondurenhos?
(ressalvas para as gravidades dos problemas, mas por que não se contagiar?)

Um PS para meus amigos que farão vestibular este ano:

- Estudem a importância geopolítica do Irã e a Revolução Iraniana

Vídeos do Irã:

- Sinta o tamanho das manifestações.
- Confusão com os ataques policiais (note o perfil do iraniano que postou esse vídeo)
- Protesto de ontem no cemitério em que pessoas foram rezar por quem morreu no movimento

Só uma coisa que achei muito curiosa e estava no post de um dos canais desses iranianos protestantes:

"Amercian high school teacher's responce on recent events in Iran that has been posted to one of Persian blogs:

I teach at a NYC high school, and recently one student stood up to our very intimidating principal, (something that almost never happens). When he did not get permission for what he intended another student said Lets go Iranian on him. By that he meant organize a protest. And so now they IRAN anything they want to change. So it has become a verb now and to Iran the situation is to stand up to authority, well at least here in this corner of the universe. And it is a huge bonus for me because I cannot usually get them to even pay attention to another part of the world.

Point being, even these students who get very small amounts of news equate Iranian with bravery and I completely agree, and wish I had that kind of intestinal fortitude.
You have our greatest admiration and respect!"

Tradução:
A resposta de uma professora da high school [equivalente ao Ensino Médio] americana diante dos recentes eventos no Irã que foi postada em blog persa [os Iranianos tem decendência persa, para os que faltaram nessa aula de História, e muitas vezes se utilizam dela para se denominar]:

Eu ensino em uma high school de Nova York e recentemente um(a) estudante contra o(a) muito intimidante diretor(a) (algo que quase nunca acontece). Quando ele/a não conseguiu permissão para o que queria, outro (a) estudante disse "Vamos iraniar nele(a)"!. Ele/a quis dizer organizar um protesto. E agora eles "iraniam" coisas que eles querem mudar. Isso virou um verbo agora e iraniar uma situação é levantar-se contra a autoridade, bom, ao menos nesse canto do universo. E é um grande ganho para mim, porque eu não consiguia nem ao menos fazê-los prestar atenção em outra parte do mundo [NT: ela/e quis dizer que a situação no Irã fez seus alunos prestarem atenção em outros lugares além daqueles comuns a eles]

A dado ponto que até alunos veem poucas notícias entendem Iran como sinônimo de bravura e eu concordo completamente, e queria ter esse tipo de persitência intestinal [traduzi literalmente essa expressão, mas no Brasil se diria, provavelmente, "ter esse estômago". Mas a americana é mais precisa]

*Chocolate quente italiano é pastoso*
1 - O que está ouvindo? Prologue (The book of Secrets) - Loreena Mckennit
2- Último filme no cinema? Inimigos Públicos - Apesar da crítica boa, vale mais pelo Jonnhy Depp e a Marion Cottilard do que pelo diretor.
3 - Última grande leitura (tirando as de trabalhos universitáios): 17 mangás de Fullmetal Alchemist em uma semana.
4 - Último delírio: Achar que podia fazer em 6h o que levei 11h para fazer.
5- Reflexão do Dia: Influencie pelo exemplo, não pela força.

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