quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Yes, We can






O que se viu terça/quarta na política americana provavelmente fará parte do conteúdo de História que darei daqui uns 15, 20 anos.
Um cara que a dezenove meses atrás era uma zebra inexpreesiva no Partido Democrata, tornou-se presidente dos Estados Unidos da América. Alguém que foi impulsionado por pequenos apoios via internet de forma inédita, alguém que só tem um mandato como senador, alguém que combateu e venceu um nome de peso como Hillary Clinton, alguém cujo pai era um imigrante queniano que foi embora deixando sua a mãe, uma branca do centro-oeste sulista americano, para criá-lo sozinha, sem seu apoio, alguém que, por sinal, é negro (ou mestiço, em termos brasileiros. Mas, para o americano, cutis escura é negro).
Barack Hussein Obama, analisam os cientistas políticos, ganhou, pragmaticamente, pelo fracasso da Era Bush e pela crise econômica. Mas, como os especialistas reconhecem também, elevou-se por sua habilidade retórica, sua inteligência e bagagem intelectual e suas idéias.
Política nos EUA se faz no gogó ( e no dinheiro). Vota-se mesmo por propostas, ideais e uma boa retórica, não por camiseta, boné e populismo.

Obama é uma voz (linda, por sinal... rs) que há tempos os EUA precisavam. Alguém que defendesse minorias, paz, diplomacia, igualdade, integração, ecologia e ponderação. Infelizmente, o que no mundo daria em torno de 85%, nos EUA deu cerca de 53% na escolha de Obama como presidente. Reflexo dos assustadores "red-neckers" (aquele americano tido como típico, de pouca escolaridade, que trabalha no campo e acha que a arma é sua melhor amiga), militares belicistas e ultra-conservadores e do medo que se cultivou durante a Era Bush quanto ao terrorismo.
Foram 8 anos de Bush com ode ao velho "direito de se defender" tendo escopetas em casa, com o ódio ao árabe, com a crença quase que ingênua de que deixar o mercado se regular é um bom negócio, com a rejeição à culpa humana sobre aquecimento global, com a rejeição à cienticamente comprovada evolução das espécies de Darwin.
Obama não vai fazer magia. E a política, infelizmente, força você a falar coisas que você sabe que não serão bem assim, porque o povo gosta de se iludir. Obama sabe que a crise econômica vai exigir sacrifícos, mas só usou essa palavra em seu discurso de vitória. Se tivesse dito antes, as pessoas não iam gostar, e podia lhe ameaçar votos. Mas a redução de impostos para 95% da população no meio de uma crise, mesmo que ele tenha a intenção de fazer durante o seu mandato, não será rápida. Bush deixou-lhe com um belo buraco nas contas públicas, e ele vai ter que manejar isso, conter a crise e garantir um crescimento pelo menos no final de seu mandato.
Barack usou muito da internet, e acho que ele continuará fazendo isso na presidência. Uma transparência sobre o que ele faz e o que está tentando fazer. Algo inédito, renderá maior aproximação da população com o presidente. Um recurso útil, popular e moderno, devia ser copiado por todos os chefes de Estado.

A empolgação com o Obama pela mundo tem origem clara: o multilateralismo garantido. Um item que esteve sempe presente nas atitudes e palavras dele, que acompanhou sua história de garoto metiço criado por brancos, que viveu boa parte de infância e adolescência na Indonésia e no Havaí, que tem família no Quênia, que estudou duas faculdades, uma delas Direito em Harvard... O currículo de Obama é "inusitado".
Seus ideais progressistas de diálogo e igualdade são um verdadeiro contraste com a Doutrina Bush, arrogante, de olhos apenas em seu umbigo, ignorando opiniões mundiais e a ciência.
Não importa o que Obama faça, não será pior que Bush, e isso é um alivio.
Mas isso até o McCain. Não é nada difícil ser melhor que o Bush.

Espero que não haja desilusão. Não creio nisso. Estou depositando tanta confiança em atitudes decentes do Obama que entraria em depressão se ele fizesse algo horroroso e incompreensível, um quadro quase inimaginável.
Porém, não se pode esquecer: Obama é o presidente americano, não do mundo. E ele tem de - e deve - se focar nos interesses americanos internos, que não atropelam outros países, mas que talvez afaste-o de se comprometer com assuntos dos outros. Não espero que ele melhore comércio com o Brasil, compre etanol ou coisas desse tipo. Não estou interessada se ele tem planos para o Brasil,desde que não sejam ruins (e duvido que haveria). Estou interessada na mensagem que ele dá ao mundo. Me basta.
Ele tem que resolver os abacaxis (uma quitanda) da crise e das guerras no Oriente Médio. No meio disso, saúde, educação e energia limpa. Todos problemas enormes, e que vão atrapalhar as intenções dele.
Ele provavelmente não vai conseguir tirar as tropas do Iraque em 16 meses com segurança e "honra". Será mais lento. E uma estrutura de formação de segurança nacional própria iraquiana é uma obrigação dos EUA. Isso leva tempo para ser sólido. E só é essa solidez daria uma "vitória", sugerida pelo McCain (dentro dos padrões de uma guerra sem razão e altamente destrutiva).
Ele não resolverá a crise de uma hora para a outra, e ela será sua maior pedra no sapato para qualquer ação social ampla que ele planejasse. Ele vai ter, para horror de quem esperava mesmo que ele fosse um socialista (ele é americano e sensato, mesmo que algumas idéias o agradem, ele sabe que não dá para algo radical atualmente), que estimular o mercado e dar impulso para ele acima de tudo, embora ele também deva tentar sustentar um certo consumo pela população, para que a economia gire.

Como disseram uns especialistas, os primeiros 100 dias de Obama devem ser pautados por medidas simbólicas e que ele pode fazer a curto prazo. Como assinar o protocolo de Kyoto, conversar com Cuba e talvez acabar com o embargo, fazer algum discurso de cumplicidade com a ONU (ignorada por Bush na invasão ao Iraque e mantida afastada como orgão influente nas atitudes americanas), iniciar incentivos para projetos de energia limpa (algo que pode ser uma das suas armas contra crise, já que gerará empregos e tem retorno garantido financeiramente para empresas)... Qualquer que coisa que mostre o quão ele é diferente de Bush, que mostre mudança, como ele se vendeu em sua campanha, garantirá um ânimo da população em torno dele enquanto ele tenta dar conta dos processos lentos.

Resta-nos sentar e esperar. Bom, menos os economistas e acionários, que estão loucos para saber quem comporá a equipe econômica, que já atuará antes de Obama ter a posse, dada a gravidade. E o Bush, decrepto, finaliza seu mandato sumido, apagado, rejeitado e sem expressão. Ele, o atual presidente da (ainda) maior potência do mundo. Volte a inspirar esperança, Estados Unidos, é melhor do que esse lixo conservador.

"É a resposta de jovens e idosos, ricos e pobres, democratas e republicanos, negros, brancos, hispânicos, asiáticos, índios, gays, heterossexuais, deficientes e não-deficientes. Americanos que enviaram uma mensagem ao mundo de que nós nunca fomos somente uma coleção de indivíduos ou uma coleção de Estados vermelhos e azuis. Nós somos, e sempre seremos, os Estados Unidos da América."

"E a todos aqueles que nos assistem nesta noite, além das nossas fronteiras, de Parlamentos e palácios, àqueles que se reúnem ao redor de rádios, nas esquinas esquecidas do mundo, as nossas histórias são únicas, mas o nosso destino é partilhado, e uma nova aurora na liderança americana irá surgir"

"Esse é nosso momento de devolver as pessoas ao trabalho e abrir port
as de oportunidade para nossas crianças; de restaurar a prosperidade e promover a paz; de retomar o sonho americano e reafirmar a verdade fundamental de que, entre tantos, nós somos um; que, enquanto respirarmos, nós temos esperança. E onde estamos vai de encontro ao cinismo, às dúvidas e àqueles que dizem que não podemos. Nós responderemos com o brado atemporal que resume o espírito de um povo: Sim, nós podemos. "

Barack Hussein Obama Jr., Grant Park, Chicago, Illinois, 4 de novembro de 2008.


*Of course we can*

1 - Música que está ouvindo? Hurt- Christina Aguilera
2- Último video? Repetidamente, apesar de ter visto ao vivo, o discurso de Obama. Parte I. Parte II. (transcrição em português aqui - não é a mesma coisa sem a voz, as pausas e os gritos, mas...)
3- Livro que está lendo? Visões do Paraíso - Sérgio Buarque de Hollanda. Faculdade consumindo meu divertimento intelectual.
4 - O que devia estar fazendo agora? Dormindo, ou ao menos minha redação de inglês que vai se atrasar.
5 - Reflexão do Dia: Estou cansada de pieguices nacionalistas. O que acontece nos EUA e sua política fazem toda a diferença no mundo. Na verde, em todos os países, mas nos EUA a gente sente com mais força, expansão e mais diretamente.

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