quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Sobre Intolerância Religiosa

Se tem um assunto que me instiga, me deixa em cima do muro e, muita vezes, extremamente irritada com as opiniões de todos os lados da questão, é religião.
Não vou ficar falando aqui do que é certo e errado em cada religião, nem estou a altura - e mesmo nem creio que alguém esteja - de poder falar isso. Mas, como observadora da mistura amarga dessa massa plural, um ímpeto de expressar os problemas que enxergo em todas elas exala dos meus dedos (rs...).
Particularmente, eu não tenho religião, embora acredite num ser maior que nós. Ele não precisa ter forma, nem consciência como a conhecemos, mas esse "ser" mantém as engrenagens desse nosso caos. Já vi ateu dizendo que esse tipo de argumenção é típico de gente que não quer admitir que não existe Deus, ou ser supremo, como for. Eu acho que o ateu que diz isso é daqueles limitados que não consegue tentar enxergar a visão do outro. Crer numa força acima de nós é porque se reflete que seria impossível a falta de algo no meio da nossa bagunça- que, por enquanto, se sustenta - e que as coisas que existem não vieram do nada. É uma visão muito abstrata, que reconhece que o humano - se já por si só não consegue ver a si mesmo - não pode se reconhecer de maneira soberana como humanidade e ser pertencente do universo. Para mim, é quase uma avalanche de prepotência negar convictamente a possibilidade dessa "força superior". Você pode fingir ou achar que não existe, mas negar é um passo tortuoso, e você pode quebrar a perna.
Independente de acreditar ou não, o respeito aos que acreditam é essencial. Em meios acadêmicos e comunidades políticas ou de "papos sérios", é comum ver gente que se acha muito inteligente menosprezando quem acredita. Muitos dos que são ateus creêm que estão "a frente de sua época" nesse quesito, são "desiludios", racionais e científicos e não precisam de religião para agir de maneira decente.
Como pessoa que já pensou que talvez fosse atéia, a superação de pedaço desse pensamento que eu também tinha, especialmente a coisa do "racional", permite-me uma avaliação mais aprofundada.
Primeiro que a idéia de "a frente da época" nunca se confirmará, porque a maneira como a ciência é feita nunca poderá provar, nem negar, conceitos abstratos como esse. Essa idéia de "só acredito no que os meus olhos vêem" é uma limitação dos racionalistas. Delimita visões, criatividade e esperança, coisas que, se não existissem, matariam a humanidade numa estagnação decrepta. O próprio Einstein alega isso.
Além disso, se o ateu acha que tem comportamento decente, ele deve isso a religião. Porque, queria ou não, a moralidade que estrutura as sociedades vem da religião. Certos pensamentos que parecem óbvios, só são óbvios porque foram enraizados nas sociedades através das crenças.
Eu, como filha de família católica, sei muito bem que muitos dos meus valores vêm da religião, por mais que eu não me considere crente dela.
As religiões tiveram papel fundamental para a sustentação da humanidade como população que se organiza em comunidade, e, mais à frente, sociedade. Quando você olha para a História da Humanidade, os humanos podiam ter cedido aos instintos mais selvagens até o fim da espécie, se não fosse a religião. Se você já acha as atrocidades dos conflitos violentos ou mesmo no próprio trato social de um humano para o outro algo bestial e calamitoso, imagine suas atitudes sem as rédeas das religiões.
É verdade que muitas vezes (e, no mundo contemporâneo, acho que pode ser considerado o maior fator), o conflito de crenças é que causam guerras e geram horrores. Mas graças a elas, não se vai até o fim que se poderia ir. Nós desconhecemos a verdadeira falta de limites, algo assustador de se imaginar, talvez impossível.

Religiões também são responsáveis por visões estreitas. Os limites imposto por escritos seculares, ou ensinamentos proféticos/messiâncos, ou até interpretações distorcidas daquilo que não tem objetivo definido são grandes entraves em discussões de moralidade e ética tanto na política quanto na ciência. Aborto, casamento gay e células-troncos são as mais evidentes, mas coisas como regeneração do meio ambiente, doação de órgãos, direito feminino, o trato dado a quem "não é da terra", a noção de fronteira, de nacionalidade, de fatalidade, auto-superação de um problema, definição de caráter, a idéia da essência humana, a psicologia por de trás do conceito de gênese divina... Tudo isso permite e pode gerar atitudes e pensamentos arrogantes, individuais, recheados de uma noção de "Deus julgará depois da morte"- que delibera uma expectativa de quando a coisa ficar preta, Deus virá com sua mão divina nos salvar- e também uma noção de legitimidade, direitos e naturalidade que ninguém realmente disse.
Pessoas religiosas guiam suas vidas, ou a maneira como vêem suas vidas, pelo seu dogma. E essa moeda tem duas faces. A boa é que, preferivelmente, ela tentará um controle sobre si mesma em nome do que a religião prega e também que conseguirá com mais facilidade uma felicidade, uma boa relação consigo mesma e o mundo.
Minha professora de canto adora isso em evangélicos. Ela dá aula para alunos pobres, e os mais comportados, disciplinados e bem-educados, ela constata, são evangélicos. Ela diz que as igrejas evangélicas, pode-se falar o que quiser, salva essas crianças e dá uma perspectiva melhor no meio da violência e do crime organizado.
A ruim é que, estando ligadas ao que sua religião prega, as pessoas -em geral, que isso esteja claro- deixam de abrir espaço para atitudes preventivas, para a criação do que pode salvar vidas, para a liberdade de se seguir o que se acredita, para se assumir suas próprias atitudes, para se reconhecer uma unidade global - uma sociedade não de brasileiros, franceses, quenianos, indianos, americanos, mas de humanos -, para permitir a todos a mesma oportunidade, para que não se espere a previdência dar um rumo a sua vida, e, sim, você mesmo, através das suas ações.

Acreditar numa religião está ligada ao meio social de cada um, e também a certos contextos da sua vida, em que a fé pode ser despertada por algum acontecimento. Como ser sem-religião, eu vejo um quê de ultrapassado na pregação religiosa. Uma religião já existente, provavelmente milenar ou com origem em ensinamentos milenares, sofre com os limites de sua idade e de suas visões. Além do mais,a sua fundamentação espiritual é tão atropelada pela material, não só nessa época, mas sempre, que tudo parece uma grande hipocrisia.
Apesar disso, sei que não é hora de "dar fim" - se isso fosse possível - às religiões. A falta da religião gera incerteza, e nem todos estão preparados para definir por si mesmos o que pode e o que não pode, ou viver sem uma perspectiva de recompensa divina ou sem amparo espiritual sólido (?). Sem religião, alguns podem criar a idéia de tudo-pode, e grande parte das pessoas entrariam numa depressão coletiva, uma tristeza típica dos ateus e dos incertos, por não saber o que é certo ou que se faz aqui nesse mundo, se algum tipo de missão ou se estamos aqui só para compor mais "poeira no universo".
Pedaçinhos das religiões compoem um pouco do que penso, embora minha moralidade esteja muito mais ligada a ideais filtrados na concepção humanista (que tem uma certa origem cristã). Todo mundo tem direito de falar e pode agir livremente desde que não prejudique ninguém (algo que não é tão simples de definir, embora para mim as nuances tenham resposta clara, afinal 'ofensas verbais', por exemplo, podem ser entendidas como muitas coisas); o Estado deve ser totalmente laico e, portanto, decide-se quando começa (e termina, no caso da eutanásia) a vida de acordo com a concepção da família, assim, não se pode proibir divergências; diferenças devem ser respeitadas e decisões importantes não podem ser tomadas sem diálogo entre idéias diferentes; sentimentos ruins tem de ser racionalizados e superados, não podem atingir outrem; a infelicidade do inocente importa e deve ser combatida; o bem comum está acima dos próprios interesses... E assim vai. Não quero ficar listando.
No plano espirtual, é difícil dizer quando algo realmente acontece e quando algo não passa de uma peça da imaginação e da inconsciência; ou quando é um desenvolvimento cerebral ou um poder especial; ou se algo estava programado para acontecer, ou se é (in)fortúnio da vida; se algo é uma vontade divina ou uma dificuldade a ser superada; se energias dão o tom de um ambiente, ou se as sensações são reações cerebrais; se depois da morte há uma uma outra vida, ou se tudo acabou para a pessoa em si... Sob o meu princípio de não negar as possibilidades, em certos momentos posso ficar muito incerta. Mas, numa necessidade de escolha, costumo optar pelo que responsabiliza o meu próprio ser, o que poderia ser chamado de "lado racional", embora para mim seja menos pelo racional do que pela idéia de contra-reação a passividade. Prefiro me sentir cética do que inativa e "fantasiosa".

Nunca vi religião perfeita. E não existe, porque idéias de certo ou errado são muito variadas, variam com a cultura, com a região, com o entendimento que cada um tem de mundo... Nunca se entrará num consenso.
Não tem resposta além de diálogo e tempo. Diálogo para as pessoas restringirem a religião a elas mesmas, porque religião devia ser algo pessoal, e tentar encontrar acordo quando os círculos pessoais se sobrepoem. E tempo para que, gradativamente, a reflexão própria tenha mais força do que o que terceiros dizem, e para a tolerância se sobressair como única solução para diferenças. Mudanças dentro das religiões só vem através de uma consciência interna, não adianta forçar a barra de ninguém atacando o que é insano, o que é mal-formulado, o que é agressivo... Essa percepção vem com um próprio balanceamento do que há e do que se faz. Bastam exemplos. Tentar convencer tende a causar uma reação contrária, pela pura negação.

Religiões e sua capacidade de mover e comover os outros me despertam muito interesse. Eu gosto de ver como várias religiões tratam certos assunstos. Gosto mais ainda das poligâmicas, que são ricas em histórias e ritos.
Fui atiçada a falar desse assunto por causa de um tópico numa comunidade do Obama no Orkut, onde alguém soltou uma teoria de ele ser o anti-cristo e, para meu espanto, a baboseira rendeu e transformou-se num dos tópicos mais comentados da comunidade, com mais de 200 posts. Só que no meio disso, a discussão tinha se transformado, já não falava mais tanto sobre a teoria e sim sobre a validade das religiões, e vi gente muito ignorante falando horrores sobre as religiões.
Além disso, a falta de respeito e o visível desinteresse em entender o outro quando se fala de religião sempre me deixa aborrecida. Como membro da "sociedade judaico-cristã ocidental", sempre ouçou desaforos aos muçulmanos. E como eu gosto de ficar do lado das minorias, ou de entendê-las, eu adoro ler o "lado bom" dos muçulmanos, como contra-ponto ao que se ouve, para formar minha própria opinião. O fascínio cresceu tanto que um dos meus candidatos mais fortes para assunto de pós-graduação é o Oriente Médio.
Para suplementar o caldo de razões que me fazem falar dessa questão, também tem minhas aulas de História da África, que me deram um acesso maior as concepções religiosas africanas, que são ricas e têm muito a nos ensinar.

Isso me faz lembrar... Para os que também são adeptos do, como diria o Orkut, "lado espiritual independente de religiões", leituras e estudos sobre essas religiões menores são ótimos. Sua sopa amálgama ficará muito nutritiva! Bom, para quem gosta de cultura também serve...



* Triunfo Eucarístico (-q?)*

1- O que está ouvindo? At last - Etta James. Na nova fase de estudos musicais, agora com o Blues.
2- Último vídeo? Mi casa, sua casa. Charge sobre a visita do Obama à Casa Branca.
3 - Último filme no cinema? Jogos Mortais V, no Halloween... Hum... Terror não é nem de longe meu gênero favorito, mas eu gosto do suspense e do roteiro inteligente.
4- Última coisa que comeu? Sucrilhos Snow Flakes, a mais de 4 horas atrás XDDDD
5- Reflexão do dia: Diálogo e auto-controle é resposta para tudo, mas não é fácil.

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