segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A hora de votar

Ontem ocorreram as eleições de segundo turno, que nem houve aqui em Santos, e, ao invés de me dedicar a um trabalho que precisa ser urgentemente feito, fiquei acompanhando as notícias e as análises políticas na Globo News. Como ser que se envolve apartidariamente em política desde as eleições presidenciais de 1998, - obviamente não com o mesmo rigor e senso crítico próprio, afinal uma criança de 8 anos é claramente guiada pelo pais - tive duas sensações. Uma de que não é muito difícil ser cientista político para fazer análises, salvo raras exceções, e outra de que ainda não dá para destinguir, na turva água da diferença entre o que se diz e a realidade, a verdade quando se comenta que o povo brasileiro está se engajando mais no processo político.
Particularmente, por mais que tenha interesse na força e importância da política sobre as nossas vidas, ardor real na defesa de candidatos brasileiros (porque tive outros dois mundo a fora, o já percebido entusiamo pelo Obama e a torcida, de alguém que estava de olho no seu intercâmbio à França, pela Ségoléne Royal, que perdeu do Sarkozy) eu só tive em 3 momentos, sendo que dois eu não podia me expressar:

- O primeiro, muito influenciada pela família, foi a eleição de Lula em 2002, quando o PT e ele ainda significavam mudança e o histórico de lutas sociais contava para alguma coisa, uma ética (rs...). Mas eu só tinha 12 anos, então não precisei chorar as magoas do mensalão, ainda que muito decepcionada.

- O segundo, que é o que mais me orgulho e pude fazer algo, foram nas eleições presidenciais passadas, em 2006, ano que fiz meu título com 16 anos para ajudar a decidir o destino do país. Votei no Cristóvão Buarque, que tinha a plataforma dos sonhos de qualquer um que enxerga a Educação como o grande instrumento de mudança social no Brasil. Por mais que a porcentagem dele não tenha chegado nem aos 3%, e eu sabia que isso aconteceria, eu votei no que acredito, com muita convicção do correto, e não tem coisa mais deliciosa na política do que um momento como esse. Não importam pesquisas, não importa expressividade política. Quando se vota, a gente tem que pensar no que condiz com a nossa ética, nossas ideologias, no que acreditamos que é melhor, seja lá o que você considera melhor. É o que dá a real diversidade, e o que realmente expressa os desejos do povo. Votar por votar dá no que dá: gente incompetente, gente de olho na bufunfa que político ganha, não na importância de seu papel na sociedade, gente mal-caráter, gente perdida que fica criando Dia do não-sei-o-quê só para dizer que fez algo...

- E o outro foi nessas eleições. Mas não foi aqui na minha cidade, onde a reeleição de um prefeito que foi razoável era evidente, e eu mesma acabei votando nele por falta de opções decentes. Afinal, a criatura que tinha o melhor projeto para educação, saúde e cultura, que são minhas prioridades na hora de analisar, e que estava num dos poucos partidos que realmente simpatizo, que é o PSB, tinha um vice-prefeito que mais atrapalhava do que ajudava politicamente. Bom, pelo menos a situação de Santos era melhor do que a pobre São Paulo, que teve que escolher entre DEM ou PT, com duas figuronas de torcer o rosto. Não, o meu terceiro ardor vinha do Rio de Janeiro. Cheguei a brincar que mudaria meu título de eleitor (algo que não dá, para os desinformados) só para votar no Gabeira. Alguém como o Gabeira é um tipo de político que as pessoas almejam no Brasil: ético, transparente, culto, progressista, com trajetória de coerência invejável. Mesmo nas eleições de 2006, eu queria ter alguém como o Gabeira para votar em deputado federal. Votei na sigla do PV, que é um partido pequeno nacionalmente e, de acordo com as emendas de um protótipo de reforma política, podia ter sido cortado da limpa que estavam tentando fazer nas câmaras.
Apesar da vitória apertada do Paes, o simple fato é um índicio que não há maturidade política no Brasil ainda. Um cara que fez o que fez, ainda mais diante de alguém como o Gabeira, ganhar é quase um ultraje a própria população.
Atacou sujamente, usou da máquina governamental para se promover, trocou de partidos com gritantes diferenças ideológicas inúmeras vezes, fez propostas grandiloquentes sem ponderação, boa parte delas imediatista e dificil realização concreta, cabos eleitorais seus praticamente compraram votos... Enquanto o Gabeira manteve sua oposição ao governo (coisa que o Paes energeticamente foi há não muito tempo atrás), não por birra partidária, mas por ideologia, restringiu sua campanha em nome de algo que ele acredita, que é a preservação do meio ambiente, a chamada pelos analistas 'campanha limpa', estudou projetos de outros países para tentar aplicá-los na cidade de acordo com sua realidade, deixou clara as limitações de seu poder - entre o que se quer e o que se pode fazer-, tudo muito moderado, e de foco social. Política como tem que ser no Brasil.

Mas as pessoas ainda votam por carisma, por ilusões, pelo imediato, pela vantagem individual, pelo temor da dúvida envenenada por palavras sujas (sem nem ao menos tentar descobrir se é verdade mesmo, algo que a mídia, ao menos isso, costuma esclarecer), pelo que mais tem seu rosto exposto...
Não sei da onde esses cientistas políticos e o TSE tiram que o eleitor está mais ativo. Eles falam de entusiasmo, mas o entusiasmo que eu vejo não é muito diferente do de antes. E a seletividade do eleitor também, os resultados provam, continua a mesma. Talvez a única coisa que realmente esteja evoluindo é um senso de importância no ato do voto. A atenção que é dada a essa importância é questionável, mas ainda assim a idéia de importância parecer estar mais concreta. O brasileiro sabe que seu voto é um poder, com mais clareza do antigamente, por mais que ainda não honre esse poder.
A diferença da consciência política entre as classes mais baixas e os "mais esclarecidos" diminuiu, não como devia, nem como poderia, mas diminuiu, é fato. E isso é ruim. Não porque o pobre entende melhor, essa é a parte boa. Mas porque mesmo entre a camada e que devia ser "mais esclarecida", a atenção dada ao poder de votar é fraca. Basta ver a abstenção do Rio, mais de 20%. As pessoas preferiram viajar, no lugar de votar (nem especulo teorias da conspiração quanto a intenção do governador de provocar isso). Eu estou do lado de quem acredita que elas poderiam ter mudado o cenário político carioca, afinal, grande parte dos viajantes é da camada que tendia para Gabeira (em números: mais de 900 mil abstenções, sendo que foi por volta de 50 mil a diferença entre Paes e Gabeira). Três dias de sol valem 4 anos na mão de alguém com caráter duvidoso?

Enquanto a atenção não for devida, eu defendo o voto obrigatório. Voto livre é para países em que sua população sabe e sente de verdade o valor de seu voto, pelo menos a sua maioria expressiva. E aqui poderiam até dizer que é uma incoerência minha, afinal, a parte que mais deixaria de votar seriam os pobres, ou seja, aqueles cuja maioria não tem senso crítico, "não sabem votar". Mas meu problema não é nem de longe com o pobre, é até um insulto me dizer isso. Livrar-se do "fardo" do voto despreparado do pobre é elitizar a democracia, deixando-a na posição confortável de ser considerada como tal, por ser para todos, mas essencialmente oligarquica, porque os insatisfeitos com as decisões ignorantes não precisam mais se preocupar em educar o pobre a votar, o que criaria um ciclo vicioso de pobre que ignora seu voto e governo que não está interessado em melhorar sua ignorância.
O crescimento da noção de importância do voto certamente é um ótimo passo. Para um desenvolvimento efetivo, falta a boa e velha Educação.

Mesmo para quem não é pobre, a senso crítico é raquítico. A configuração da Educação no Brasil, voltada para o Vestibular, não exige mais do que um senso crítico suficiente para escrever uma dissertação meia-boca. Aos que já passaram da idade de serem educados formalmente, ou melhor, que já têm seu diploma como tal, um conselho: auto-eduque-se. Leia e veja jornal, acompanhe as coisas, anote acertos e erros dos políticos que vão aparecendo, caso você tenha uma certa dificuldade com a memória. Tudo em nome de um voto decente. Porque um voto não é só a escolha de um(a) carinha, de um partido, de números. Você já está cansado de ouvir isso nas propagandas do governo: ele decide a sua vida prática e de toda uma população nos próximos 4 anos. Ele decide como as crianças na sua cidade serão estimuladas a estudar, como serão as condições dos postos de saúde, como estarão as ruas, como será seu poder de renda...
Os que vão compor a câmara são seus melhores representantes. O poder legislativo tem que ter a mesma atenção que se dá ao executivo. Se você quer uma melhoria específica, é com ele que você falará. É ele também que permite ou não se o executivo fará seus projetos. Se você votar em alguém que segue uma linha lógica e ideológica semelhante a sua, ele de fato será sua voz.
Chega de abafamento, de silêncio, de desafinadade entre política e interesse público. Não fique reclamando da política, o problema dela são os políticos que são eleitos. E sempre tem alguém decente no meio de cobras, mas tem que se dar o trabalho de querer identificar.


*"Que é pro mundo ficar Odara"*
1- O que está ouvindo? Odara- Caetano Veloso
2- O último filme em DVD? - Deu a louca no Mundo, Stanley Kramer, 1963. Pastelão over, mas me prendeu XD
3- Último filme na TV? Lado a Lado, com Julia Roberts e Susan Saradon. Tão bonito! Sou meio suspeita, gosto de personagens maternos. Susan arrasando.
4- O último vídeo? Cirque du sou eu - Charge antiguinha que achei entre uma linha de charges relacionadas às atuais. Ótima e até combina com o tema de hoje.
5 - Reflexão do Dia: Os problemas da política são seus políticos e seu povo.

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