sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Fugindo das padronizações

Teminha cabeludo. Minhas atuais influências para falar sobre isso foram uma entrevista com transgêneros na Oprah, eventuais comentários de alguns amigos homossexuais e uma observação que fiz sobre a retratação da personagem feminina de um filme dos anos 60 (O sétimo mandamento, do George Marshall, se quiser saber). E, claro, velhos clichês sociais que me irritam profundamente.
Primeiramente, vou expor algumas indagações compartilhadas com a minha mãe enquanto viamos a Oprah. Como alguém percebe que está no corpo errado? Como se sabe o que é "uma mente de homem" e uma "de mulher"? Qual é o limite entre gente diferente e gente que faz parte de um padrão, ainda que "deslocado"?
É extremamente delicado dizer o que vou dizer, como ignorante da sensação real de um transgênero ou de um homossexual, já que não sou, mas não consigo ver muita diferença entre um transgênero e um homossexual que age e gosta de se aparentar como uma pessoa do outro sexo. Coragem, talvez. E dinheiro. Mais perseverança e vontade do que dinheiro, quem sabe. O fato é que, essencialmente, soa-me a mesma coisa. Não estar satisfeito com seu corpo, não ter "a mente" do seu sexo biológico, o desejo por pessoas do mesmo sexo...
Porém, o mais complicado nessa história toda é: "como saber?"
Existem homossexuais que estão satisfeitos com seu corpo. Como um amigo me disse: "Não me importo de ser um homem que gosta de homens". Ele se sente homem, mas gosta de homens. No termo do gay-world, ele não é uma bicha. Se veste como homem, age, num geral, como homem...
É verdade que quando homossexuais se reconhecem como tal, eles enxergam gostos e atitudes , além do desejo por pessoas do mesmo sexo, que são tidos como típicos do gênero oposto, e entendem como sinais.
Geralmente, pelo que minhas observações puderam constatar, o reconhecimento dos "sinais" vem antes do reconhecimento do desejo.

Aí vem minha grande questão de hoje: o que é esse sinal? E quando o "sinal" não é um sinal? O que transforma algo num sinal?

É cientificamente comprovado (não que realmente precisasse de uma pesquisa para constatar isso) que homens e mulheres são diferentes.
O problema é que essas diferenças não são tão simples, são tendências, e não compartilhar dessas tendências nem de longe significa que há algo de "errado" com você.
Vamos a alguns esteriótipos.

Homem - gostar de coisas violentas, ser frio, brincadeiras físicas, reações energéticas, pulso firme, pouco sentimental, inflexível, estrategista, objetivo...
Mulher - delicada, sensível, adora um choro, gosta de falar de relacionamentos, branda, precisa ser protegida, mais frívola, entende melhor a mente de terceiros...

Graças aos céus, não se exige mais ter todas essas "qualidades". Mas, se você reparar, pelos menos uma delas tem que ter, se não as pessoas, e você mesmo, passa a se estranhar. E você não está totalmente livre, mesmo que tenha alguma, porque outras formas, ramos, de algumas dessas atitudes são exigidas. É aceitável que você seja uma mulher "independente", mas, uma hora ou outra, você ter uma "recaída", sentindo-se frágil e precisando de alguém, faz você mais mulher, como se ter essa recaída fosse algo de mulheres (não é, bem sabemos).
Não gostar de Barbie e brincar de carrinhos ou bonecos de ação é uma sina para a pobre menina. Não interessa os motivos, a lógica desse gosto, é uma "coisa de menino", portanto, é estranho. Familiares cochicham, pais se preocupam, e crianças fazem seus cruéis comentários impensados.
Mas será que isso é mesmo um índicio de homossexualidade? Ou só uma quebra de expectativa?
Será que fazer coisas ou pensar coisas que se supõe típicas do outro sexo significa o mesmo que homossexualidade?
Como saber um limite? Existe um limite?
E quando a confusão se consolida num sentimento? Quando não se sabe o que se sente ou o se pensa sobre isso? Qual é a influência dos conceitos da sociedade na consolidação? Como saber quando é uma construção da mente e quando é uma naturalidade?

Sinceramente, eu vejo um jogo psicológico enorme nisso. E como bem lhe caracteriza, complexo. Não faço a mínima idéia se existe uma solução formulária para isso. E creio que não, dada minha aversão a fórmulas e suas limitações.
O fato é que às vezes eu entendo essas confusões muito mais como uma contrução da sociedade do que algo fortemente individual. Você se questiona porque está fora de padrões, e quem dá os padrões é a sociedade.
O grande jogo, que dificilmente uma criança pensará, é se perguntar sobre desejo antes de se perguntar sobre os seus hábitos. E saber diferenciar desejo de afeição.
Mas imagine sentimentos que muitas vezes nem adultos conseguem definir sendo (ou tentando ser) identificados por crianças... Qual é a garantia disso?
Espero que esteja claro que quando falo 'criança', é uma referência de que a dúvida começa na infância, mas se sinta à vontade para considerar os adolescentes, com o mesmo potencial de dicernimento e que se perguntam só nessa faixa etária, sem antes, em sua inocência ou mesmo uma ignorância, ter se questionado.

Engraçado que acabei falando de homossexualidade, e não era minha intenção falar só disso. Eu queria falar de rótulos dados aos gêneros. Como no filme citado, em que a mulher desiste de sua briga histérica com seu amante porque este lhe propõe casamento, ela fica toda submissa e idiota, enquanto o cara fica na boa pinta, com seu intelecto malandro e charme dominador, algo muito frequente nos roteiros de filmes antigos (nota número 1: os roteiros dos clássicos são o que mais me atrai para eles, são inteligentes e sagazes, mas esse é um pequeno podre que dependendo do filme é irrelevante; Nota número 2: um dos motivos pelo qual gosto muito de Hitchcock, com seus roteiros geniais e suas inversões durante as tramas da personagem "altamente feminina" para uma "heróina admirável").
A questão é que se vende uma imagem para os sexos, e destoar muito dela é motivo de estranhamento.
No DVD do filme do Tim Burton sobre o Ed Wood, tem meio que uma reportagem sobre homens que gostam de se travestir. E, como Ed Wood, existem homens travestis que são heterossexuais. É muito bizarro pensar nisso num conceito social, porque o gostar de vestidos, maquiagens e roupas femininas é uma ligação direta que se faz com a homossexualidade. Quem se sente muito confuso com a lógica do pensamento de um travesti heterossexual ataca: deve ser gay enrustido.
Ou seja, não se pode gostar de roupas femininas e ser homem ao mesmo tempo. Por quê? Quem disse?
Cai-se numa rede louca de ponderações sobre gostos. Quem gosta de cemitérios é gótico. Quem usa tudo rosa é patricinha. Quem quer "dividir riquezas" é comunista (está acompanhando as acusações do McCain ao Obama para entender essa?)... É?
Se alguém te diz que achou interessante ver, segundo por segundo, uma velhinha desmaiar, o que você pensa? Cruel? Negligente? Assustador? E se você conhecer direito o racicínio de quem te disse isso? Saber que essa pessoa estava num ônibus e não podia fazer nada, saber que essa pessoa tem fascínio por momentos únicos, saber que ela não estava tendo um deleite com o fato de ser uma velhinha desmaiando, e sim com a chance, poderíamos dizer, plástica, de ver alguém num momento de desmaio? Muda de figura?

Bem sabem meus amigos que eu tenho horror a esteriótipos, mesmo porque, como os bons psicólogos que frequentam este blog devem ter presumido, já fui muito vítima deles e ainda sou. Sou vítima até mesmo dos esteriótipos que as pessoas poderíam considerar "bons", tais como a garota que volte-e-meia fala algo inteligente e vira gênio, ou a que sabe de um ou outro filme clássico e um pouquinho de história do cinema e vira perito em cinema. E, claro, os ruins, como a que hora ou outra defende atitudes severas (não importam as razões nem os fins) e vira uma extremista, uma radical, ou a que em certas situações é tímida e acaba virando uma tímida de carteirinha para todos os momentos.

O nó que se tem no julgamento dos gostos, não só no campo dos gêneros, como nos bilhões de tipos sociais é um grande problema. As pessoas falam sem saber, julgam sem medir, condenam os outros a fardos que às vezes eles nem têm.
Não se pode simplemente ser sem que alguém te encaixe em algum padrão. Não se pode bater muito próximo de certos padrões sem que se seja configurado neles.
Não quero me estender na importância de padrões, não a nego. Porém me enraivece a aplicação do padrão, algo genuinamente científico, nas relações do dia-a-dia e no entendimento que a sociedade faz do indivíduo. Se mesmo em termos científicos o padrão não é definido, está sujeito a tranformações e erros, o que dirá a definição de um indivíduo.



*"Açúcar, tempero e tudo que há de bom"*

1- O que está ouvindo? O ventilador do computador.
2- O que está lendo? Frankestein, de Mary Shalley, em sua língua original, no meio das trilhões de leitura para trabalhos universitários.
3- Último filme em DVD? O franco atirador, com o Robert de Niro e a Meryl Streep, que teve a primeira de suas 14 indicações ao oscar por ele. Faz parte da mesopotâmica jornada ensaiada por um amigo e eu de assistir todos os filmes que a Meryl foi indicada até o final do ano.
4- Último filme na tv? Tá que eu não vi inteiro porque estava muito tarde, mas Os pássaros de Hitchcock no TCM.
5- Reflexão do Dia: Cuidado com o que é, pois pode não ser.


ObS: Fiz esse post em dias diferentes, e creio que a mudança de tom é perceptível. Gostaria de lembrar que eu não ligo para o que pode parecer contradições, e que o teor livre e espontâneo é, portanto, algo pessoal.

Nenhum comentário: