Vamos deixar algumas coisas clara:
A minha mãe foi uma criança muito nerd e relativamente solitária. Não que ela não tivesse amigos, mas ela gostava de passar o tempo sozinha lendo. De preferência, coisas que criança não lê, como mitologia grega, História (sim, por conta própria) e Shakespeare, embora tivesse os Monteiro Lobatos da vida (que hoje também já não é muito usual... O que o diga os livros ilustrados da Disney - Nada contra, eu amava!).
Não bastasse isso, toda a família dela, irmãos e mãe, tinha engajamento político e acompanhava as coisas que aconteciam com o país e com o mundo, numa época, como os que não a viram sabem pelas aulas de História (supõe-se), muito dura, ainda mais para os encantados com as esperanças do mundo do socialismo.
A associação, espero, já é óbvia. Não querendo me aproveitar de teorias deterministas, devo dizer que a influência da minha mãe sobre a carga cultural que minha irmã e eu possuímos é evidente. Talvez tenhamos tido sorte na probabilidade genética, ou algumas coisas na nossa vida ajudaram a gente acabar absorvendo um pouco do que a nossa mãe tentou nos educar.
Desse ponto de vista, passo então a contar minha mini historinha, que logo vocês entenderão que não passa de uma auto-defesa ( e fortalecimento) para o que tenho a dizer hoje.
Como toda mãe que anseia para que seu filho leia e tem informação dos procedimentos pedagógicos, minha mãe tinha o hábito de ler na nossa frente, comprar livrinhos coloridos para nós e, ao menos para mim (acabo de perceber que nunca perguntei isso para minha irmã, já que ela é mais velha), ela teve algumas oportunidade de ler os contos dos Grimms (leu mais coisas, mas os Grimms são marcantes na minha infância) quando eu era pequena.
A estratégia funcionou,e a partir dos meus oito anos, eu tentava ler coisas com menos figuras. Com 10, minha mãe viu que eu me empolguei muito com O mágico de Oz que peguei no colégio, que não tinha nenhuma figura, e resolveu me dar um livro que havia saído a um pouco mais de um mês no país e o cara na livraria disse que fazia sucesso na Inglaterra e que, apesar de infanto-juvenil, ele leu e gostou. O meu primeiro livro sem figuras dado pela minha mãe foi um tal de Harry Potter e a Pedra Filosofal, em 2000. Para quem estava começando a se acostumar com livros de 200 páginas sem figura, quatro dias de leitura foi bem rápido (créditos à J.K. Rowling).
Minha relação com a leitura, que já estava crescendo, ficou meio doentia. Não sei quantos livros li aos meus dez anos, mas passaram de 10 com certeza. Quando eu tinha 13, então, que estava passando por uma fase difícil, a leitura foi válvula de escape. Sei lá eu quantos foram.
Ok. Entendeu que li bastante. E nessa tal "fase difícil" eu cacei clássicos, tipo A Megera Domada, A Utopia e Viagem ao centro da Terra. Eu tinha na cabeça uma coisa idiota alimentada pela sociedade que clássicos significam coisa inteligente, ou algo parecido com isso. Sinônimo de qualidade. O problema não está em crer nisso, o problema está na hiper valorização disso.
Segura esse ponto que eu volto a ele depois.
Outro ponto da minha criação relevante para o tema de hoje também tem a ver com leitura. Mas de jornal. Meus pais liam/leêm jornal com muita vontade, e nós assinamos a Folha de São Paulo há mais de uma década. Com meus oito aninhos, eu lia os quadrinhos e o caderno das crianças que saía aos sábados. Mas era um passo para se interessar por jornal. Aliás, algo curioso: eu sabia do tal Harry Potter antes da minha mãe me dar porque a Folhinha tinha feito uma reportagem um mês antes falando do lançamento. Assim como meus interesses foram se 'sofisticando', as partes que eu lia do jornal também. Aos 10 eu lia a capa, o caderno cultural e a Folhinha, claro. Não muito depois eu já estava lendo o caderno de política e internacional.
Esse interesse "sofisticado" veio das conversas de casa. Meus pais não exitavam em falar de política e de explicá-la para nós. Além do mais, minha irmã e eu somos boas observadoras e ouvintes. A gente aprendeu também ouvindo e olhando as reações dos nossos pais. E eu, particularmente, como minha irmã tem quase 8 anos a mais que eu, tive influência consciente dela, que aparentemente sentia prazer em me manter informada ou de expor as opiniões dela (coisa de jornalista? ou é de família mesmo?).
Certo, que mais que falta?
Acho que coisas de personalidade. Não vou contar historinhas, isso já está muito grande. Tenha em mente então que eu era uma aluna muito melhor do que eu sou agora, tinha uma considerável memória (que hoje me dá vontade de chorar em pensar o quanto ela deteriorou), gosto de coisas bizarras e abstratas, sou adepta dos "cults", gosto de coisas nas entrelinhas, gosto de metáforas, gosto do simples que significa algo... Mas passei por um processo que começou há quase 3 anos e que nesse ano atingiu um ponto alto: eu detesto o menosprezo pelo o que é divertido e leve, o que simplesmente é e não tem nenhuma pretensão, pelo que é popular, tem sucesso e não está dentro do meio intelectual.
Pronto, cheguei.
Obviamente que essa explosão da raiva pelo desprezo a essas coisas vem do ambiente que agora eu me encontro. Tem coisa mais hipertônica de intelectuais do que a FFLCH (Faculdade de Filosfia, Letras e Ciências Humanas, na USP)? São mais de 12000 criaturas em, se você dividir as ciências sociais, 7 cursos!
Gente falando complicado algo que é simples; gente tentando politizar algo que não tem nenhuma pretensão de ser politizado; gente quase montando altar para pensadores que são considerados importantes, tentando fazer com que algo só seja válido se a base for neles; gente achando que só usar expressões técnicas tem valor de raciocínio; gente blasé, que diz gostar de coisas 'subversivas', abstratas, com 'mensagens profundas' e dos clássicos como se só eles fossem arte de verdade ou os únicos que trouxessem algo para nossas vidas.
Sério, meus primeiros meses com esse tipo de gente, essecialmente arrogante, foi irritante. Não são os 12000 que são assim, claro, mas a porcentagem irreal faz bem o seu trabalho. Numa comparação que talvez eu obtenha empatia, e que eu gostaria de dizer que não é uma questão de preconceito, já que não é pessoal, e sim de gosto, o modo de alguns intelectuais, ou projeto de intelectuais, falarem, 'inacessível' (eu acompanhava, mas queimava uns neorônios mesmo assim. Fico imaginando alguém com menos bagagem do que eu, que tive oportunidades e sorte, ouvindo algumas coisas) é tão ou mais irritante do que a moleza da fala e a ignorância do português de alguém da favela.
Fora isso, todos os atos, para eles, tem que ter um significado, uma segunda intenção. De preferência, algo interesseiro e corrupto, porque aparentemente para eles a alma é feita só disso. Estou exagerando, claro. Mas é só para deixar minha raiva enfática.
Agora, vamos pretenciosamente desmoronar o ideário desses 'intelectuais'.
Primeiro de tudo, somos humanos. E como humanos, erramos, acertamos, blablabla... Mas, principalmente aqui, tudo que se sabe, tudo que se interpreta, por ter vindo de humanos, por mais qualificados que eles estejam, está sujeito a uma revisão. E assim como algo que foi dito antes deve ser re-examinado, algo que é dito agora, por alguém inicialmente "insignificante", pode ser genial.
Vou me aproveitar das minhas aulas e dos debates que rodam nelas, se me permitem. Se Marx disse alguma coisa, não é regra. Várias vezes ele já foi contrariado, mas ainda há muito gente que põe um pedestal no cara. Não é uma questão de menosprezar o que ele diz, ninguém deve ser menosprezado quando tem uma opinião interessante (é mais difícil não menosprezar opiniões que não tem novidade nem polêmica nenhuma, não concorda? Em qualquer lugar, não me refiro só aos pomposos debates acadêmicos), é só uma questão de atualizar e de ter mente própria. As coisas que são ditas pelos intelectuais e divididas deviam ser usadas para se refletir e você criar seus argumentos, não para você usar o que eles dizem como argumento, como um fato empírico. Como eu peguei Marx para Judas, vamos usá-lo: ele teve a infeliz, mas de acordo com a sua contemporanidade, idéia de chamar os sistemas coloniais ibéricos de "feudais". Eurocentrismo puro, já que as relações de servo e senhor feudal são bem diferentes das relações do escravo com o senhor de engenho. Há quem diga que elas são meio-feudais, só porque a propriedade da terra é que consiste as relações de poder. Rola debates. Eu penso que quem defende é só para não enfraquecer mais o Marx, porque estamos no século XXI e já passou a época de usar termologias antigas para descrever coisas diferentes, por mais que elas tenham algum tipo de relação. Enfim, sem debates historigráficos...
Aqui nós temos outra temática dos erros das ciências humanas 'ocidentais': enquadrar a humanidade em padrões. Tudo bem que sem "classificações" tudo fica muito complicado e confuso de estudar, mas assumir uma posição de fórmulas que devem encaixar em tudo, e aplicá-las como se realmente encaixassem, é um erro muito comum da intelectualidade. Afinal, cadê a humanidade da bagaça? Cadê o livre-arbítrio? Cadê as sensações diferentes? Elas não precisam ser descritas, senão seria um caos. Mas as considerar é imprescindível na hora de julgar.
Um ponto que levantei lá em cima: a hiper valorização dos clássicos e dos renomados, e dos abstratos, dos cults, dos minoritários, dos politizados, das artes com suposta "mensagem profunda" etc... Quando se fala de clássicos, temos obras que ganharam importância, relevância e possuem qualidade dentro de seus meios. Conhecer clássicos é muito valorizado, te dá status, como se só isso fosse suficiente. A questão não é "não leiam/vejam clássicos" a questão é "por que você leu/viu o clássico e por que é importante para VOCÊ?". Putz, aí que pega. Que valor tem em ler, por exemplo, um clássico se ele não significou nada para você? A culpa não é do clássico e às vezes também não é sua. "Às vezes" porque se um clássico é um clássico, tem um motivo, e saber o motivo e entendê-lo muitas vezes faz com que você acabe gostando. Ou seja, não tenha preguiça. Se você não teve preguiça e foi uma questão de gosto, falta de empatia, o que for... Acontece. Eu não gostei de Utopia, apesar que eu achei interessante (não significa que acho certo) a forma governada por filosófos e os grandes sábios da sociedade. Mas em Utopia, como um livro de sua época, posiciona a mulher como objeto, como ser inferior, e tem escravos. Foi o suficiente para eu ficar insatisfeita com a leitura. Fora os inúmeros furos... Enfim.
O que tenho a dizer é que clássicos não são deuses. Eles têm furos, eles não agradam todo mundo, eles não são 100% geniais... Mas parece que é muito mais fácil para um intelectual (ou pseudo-intelectual) não gostar de algo que seja assim e que não é um clássico, do que identificar deslizes ou não achar tão demais um clássico pelo seu motivo de consagração.
Intelectual tem aversão ao que é popular ou ao que é mais divertido do que qualquer outra pretensão. Não que eles não saibam se divertir a seu jeito (cerveja... rs...), mas quando se trata de arte e/ou entrenimento, sim, é bem assim. O que é popular sempre vira, na cabeça deles, apenas um apreveitador, um instrumento do 'capitalismo selvagem', louco para comer e agarrar dinheiro. Perde qualquer tipo de valor. Só o lucro que a coisa obteve por ser popular entra na lista de considerações do pseudo-intelectual. Quero dizer, é óbvio que o que fica popular é explorado em sua forma de arrencadador de capital, mas e o resto?
E, também, qual é o problema de algo ser divertido, e apenas isso?
Existem inúmeras artes, muito expressivamente nas plásticas, que algo é feito só para divertir. Algo de cabeça para baixo pode ter o intuito de apenas querer colocar algo para baixo, porque é devertido, não porque "significa a estrutura corrompida, que é a mesma coisa, mas tornasse outra visualmente com um simples gesto". Se o intelectual não despreza o divertido, ele procura dar uma mensagem inexistente a ela.
Já vi muito distorções acontecerem, tentando intelectualizar algo despretencioso. Tem um episódio muito marcante para mim que aconteceu no começo do ano, na minha faculdade.
Grupos estavam apresentando seus trabalhos de vídeo do ano passado. E um desses grupos fez um vídeo sobre a descoberta do nome real do avô de um dos integrantes. A busca passou por entrevistas com os familiares, a descobeta do envolvimento militar do avô etc... Aí veio um desses pesudo intelectuais, no debate sobre os vídeos, falar o quão foi interessante essa tentativa do vídeo de mostrar um "conflito social" envolta do nome, essa mostra do sufocamento militar (detalhe: o envolvimento militar foi abordado por poucos segundos) e umas outras baboseiras ... Aí o "líder" do grupo virou: "Na verdade, eu só quis mostrar as diferentes versões para o nome do meu avô".
Eu ri muito internamente.
Eu considero essas auto-restrições de gosto e pensamento da intelectualidade são um dos grandes problemas dela se relacionar com a sociedade. Ao mesmo tempo que ela gostaria que seu conhecimento fosse extendido à sociedade (pelo menos em discurso), ela gosta de se isolar. Ela não tem tato para fazer uma média entre suas reflexões e debates e coisas que interessam à sociedade de massa.
Como ela espera ser levada a sério alimentando esteriótopos?
Por que ela insiste em dar a natureza e ao comum um significado que eles muitas vezes não têm? Por que não simplesmente ser?
Para quê fingir que inteligência é racionalidade, literatura e 'profundidade' (ou o que eles julgam ser cada uma das três)?
*Yupie*
1. O que está ouvindo? Like a Prayer - Madonna =D
2. Último filme no cinema? Nem por cima do meu cadáver. Muito divertido.
Mas eu devo dizer que nesse meio-tempo eu vi Ensaio sobre a Cegueira, que entrou no top dos meus filmes favoritos. Fernando Meirelles é demais! Tem dois filmes dele nessa lista agora (O Jardineiro Fiel também está).
3. Último filme na TV? Simplesmente Amor. Sim, eu nunca tinha visto. Gostei, apesar de não ter visto os primeiros 30 min.
4. Último filme em DVD? Ed Wood, do Tim Burton. Esperava um pouco mais, mas eu gostei. Esteja preparado para exageros intencionais, numa tentativa inspirada nos próprios filmes do Ed Wood. Fiquei com vontade de vê-los, por sinal. Deve ser ótimo para rir =D
5. Reflexão do Dia: Ponto de vistas mudam! Uau! ;-D
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Um comentário:
/euri
amiga, sinto que REALMENTE não preciso fazer comentário algum á respeito. aliás, é por essas e muitas outras que nós somos amigas(mas acho que de todas as opiniões de que nós compartilhamos essa é uma das maaaaais profundas XD). só adicionar, q eu sou EXTREMAMENTE mais violenta(como se vc n soubesse) que você e quando o "líder" do grupo que fez o vídeo disse pro aluno que só queria mostrar a história do nome do avô dele, eu teria rido, audivelmente ;D
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