Há uma semana atrás, mais ou menos, estávamos alguns amigos e eu na casa de uma amiga conversando, enquanto ela fazia recortes em revistas para enfeitar sua caixa de lembranças, numa busca puramente estética. Porém, foi inevitável que ela parasse numa página de suas revistas para ler uma reportagem sobre uma análise que dizia que os primogênitos eram mais inteligentes genéticamente.
Só por curiosidade, depois a revista desbancou a análise com outras análises, pois aquela se baseou nos grandes gênios da humanidade (em que 40 e tantos por cento eram primogênitos) e ainda dizia que, de acordo com as pesquisas, o potencial intelectual ia diminuindo para cada filho que nascia. Não que tal afirmação ridícula fosse crível, mas as outras análises deram um ar acadêmico a uma observação óbvia: Primeiro, o percentual dos outros gênios que não eram primogênitos se dividiu entre 2º, 3º, 4º, 10º filho (e, não lembro de isto estar escrito, mas me ocorreu agora: Geralmente os primogênitos tinham prioridade para a Educação formal/hermética). Depois, que, como toda pesquisa, a interpretação de o potencial intelectual ia diminuindo vinha da análise de casos, ou seja: os queridíssimos cientistas observaram famílias numerosas e viram que ali o potencial intelectual, segundo o critério deles para inteligência, não era lá muito extraordinário. Acontece que, como disseram os cientistas da análise que desbancou essa teoria, pessoas mais inteligentes (de novo, segundo o tal critério conveniente) tendem a ter menos filhos. Não é uma questão bizarra e pseudo-Lamarckista de genes que vão diminuindo de capacidade (?), mas de propriedades fixas dos genes.
Bom, dentro dessa reportagem, tinham dois assuntos que já me custaram algumas horas.
1- O que é inteligência?
2- Se uma análise científica é feita e interpretada por humanos, até que ponto se pode dar créditos a ela?
Ambas perguntas não tem respostas definidas, ao meu ver. Mesmo porque, digamos que eu sou historicamente uma relativista e, portanto, recuso-me a dizer/achar algo definitivo, como se fosse a verdade.
1- O que é inteligência?
Na mesma revista, ou numa outra, já nem lembro mais, havia uma pequena reportagem sobre quem era a pessoa mais inteligente do mundo. Pergunta impossível, mas a revista usou-se do teste de Q.I. para dizer que era uma mulher americana com 222 pontos, ou algo assim (Bill Gates teria uns 160, por aí).
No consenso, inteligência é uma suposta capacidade mental de alcançar pensamentos que se sobressaem ao usual. Sejam eles matemáticos, físicos, filosóficos ou qualquer coisa relacionado a ciência (e, consequentemente, análise). Há também um respeito e uma certa pompa a também quem tem memória prodigiosa e consegue se lembrar- e se ultiliza delas em seus argumentos - da produção intelectual de outrem. Seja literária, seja científica. Ah, e também se considera quem consegue interpretar o que os outros dizem (algo muito questionável) e faz isso com elequência (essa parte gera um mar de erros de julgamentos, mas ok).
No teste de Q.I., que eu nunca fiz e não pretendo fazer, se não me engano, as duas últimas partes são as mais exploradas. Não sei bem como eles fazem, mas não creio que fuja muito do questionário com perguntas produzidas por humanos, esperando algum tipo de resposta. Não que ser produzido por humanos tire os créditos do teste de Q.I., a questão não é essa. Não espero que venham alienígenas ou coisa assim. Certamente, ele foi produzido por gente muito, muito inteligente (dentro da definição anterior) e tem seu valor. Mas o fato de ser produzido por humanos significa que ele está sujeito a erros e que, muito provavelmente, a abordagem de inteligência é restrita (porque é muito difícil para o humano correlacionar coisas demais, mesmo o melhor dos escritores). Logo, o teste de Q.I., como eu vejo, não é algo que realmente mede sua inteligência, mas ajuda a avaliar um tipo de inteligência, o mais valorizado no nosso mundo.
Algo muito defendido por diversos neurologistas, e que eu defendo também, é a existência de várias inteligências. A inteligência "intelecutal" (Não sei o verdadeiro termo, mas é aquela que eu tentei definir), a inteligência sensorial (apuro dos sentidos), a inteligência sentimental (compreensão dos sentimentos) etc etc...
Uma pessoa que teve poucas oportunidades e faz churrasco na laje da sua casa pode ser mais inteligente que o intelectual que fica debatendo sobre Marx e Webber no que diz respeito às sensações que o homem em geral tem quando algo acontece. Ela pode entender mais das reações humanas do que o ser acostumado a racionalizar e tentar enfiar os humanos em fórmulas de comportamento.
Eu considero isso inteligência. Inteligência pode estar, numa tentativa porca, diretamente interligada à observação e compreensão do objeto observado. Não é uma definição, mas quando eu penso nas inteligências, esses dois fatores estão presentes. Seja por experiência de vida, seja por acúmulo de conhecimento, quem tem percepção excepcional de alguma coisa, seja ela qual for, poderia ser considera inteligente.
Indo longe, é a percepção um dos maiores limites que separam o homem do animal comum. Perceber o que está fazendo, e não seguir só instinto, é um uso de racionalidade. Perceber o que se passa, compreender uma situação (e assim poder tentar contorná-las ou mesmo a usar em seu favor, ou dos outros), é uma característica que todo humano tem (e alguns animais - no sentido, de "o resto" que acabei, talvez indevidamente, tomando aqui - também, embora um pouco menos sofisticadas). As áreas em que elas são mais sofisticadas, mais complexas, as capacidades já variam. E é o que diferencia, no padrão humano, os humanos, e os inteligentes. Mas, sinceramente, eu duvido que haja alguém que não tenha inteligência (aqui já transformada em percepação que se destaca dentro do grupo humano, observe) em algo. É tão diverso!
E mesmo dentro da inteligência existem graus... Enfim: Muitas inteligências + muitos níveis dentro dessas inteligências = diverdidade.
Dentro da própria inteligência "intelectual" há essa diversidade. O nada excepcional em Matemática pode ser genial em Português, usando termos escolares, e vice-versa.
A importância que se dá para essas inteligências é que na verdade, dentro de um contexto, dá o tom do que é considerado inteligência. O matemático que traz avanços tecnológicos, pode ser considerado um imbecil para entender as relações humanas. O escritor de best-seller é uma negação para fazer contas de algo que é óbvio para os matemáticos.
Eu poderia ficar dissecando os tipos de inteligência, mas acho que seria cansativo e ia deixar esse texto maior do que já está. Então, deixemos assim: Cuidado para não substimar inteligências.
2- Se uma análise científica é feita e interpretada por humanos, até que ponto se pode dar créditos a ela?
Acho que essa parte vai ser mais curta.
Uma coisa que às vezes a maioria se esquece é que a produção científica não é tão factual. Em muitos casos, a evidência é inconstestável, como o vapor d'água que encontra atmosfera, se condensa, transforma-se em nuvem, e chove. Vêm de provas.
No entanto, nem sempre essas "provas" são boas o suficiente. Como no caso da análise exposta na revista, lá em cima. Eles dependem de como os cientistas a estão enxergando, e como eles trataram o assunto. Eles podem ter esquecido um fator, podem ter esquecido de analisar alguma coisa. Essas variedades que causam muita discussão no meio científico. Teorias e mais teorias, e nenhum acordo.
Como hoje eu li, um jornalista se valendo dos dados de um cientista que não concorda com a existência do Aquecimento Global como culpa humana para também defender essa teoria. Como eu, Julia, acho que tem tudo a ver, fiquei bem irritada com o artigo. Mas os dados que o jornalista utilizou até enganam, porque eles falam de aquecimento no começo do século passado e esfriamento na década de 70 do mesmo. Bom, acontece que o tolo, louco para que não seja culpa do humano que ursos polares morrem, furacões aumentam e calotas polares derretem em ritmo desastroso, não percebeu o recorte de contexto que o tal cientista se valeu. À exemplo, que me valho do meu conhecimento histório-geo-político adquirido na escola, o "esfriamento" da década de 70, na verdade, uma redução do nível que já ia aumentando, se deve a crise do petróleo que rolou no começou daquela década, com os países da Opep pedindo mais grana. Houve uma redução no consumo, e uma busca maior por outras commodities energéticas, ou melhor, outras soluções. Solar, Nuclear, Eólica. Eu não li o livro do tal cientista, mas não duvido que ele tenha se "esquecido" de mencionar isso.
Esse caso, além de ilustrar discussões científicas, também adiciona mais um fator que se agrega na hora de pensar nas pesquisas científicas: o fator interesses. Dizer que algo é de um jeito, cientificamente "comprovado", serve para reforçar idéias e vender. Seja pelo governo, seja por empresas, seja pelo próprio gurpo científico que quer dar uma de messias.
Falando particularmente, na História, quem tenta vender idéia é o governo, com a memória coletiva. O uso de momentos da História para criar a imagem de alguém, ou de algo, às vezes (quase sempre) é manipulado para mostrar só o que interessa. Um historiador não consegue fazer pesquisa do que quiser. Ela tem que ter algum interesse para os seus financiadores, que no caso do Brasil, são as universidades, e, portanto, em geral, os governos. À exemplo, tosco, se eu quisesse fazer uma história do botão (de camisa), eu dependeria do interesse do governo, ou de quem assina a permissão. Se eu desse sorte, e encontrasse um afixionado por custura, quem sabe eu não conseguisse?
É uma relação bizarra. Embora em Universidades em que há mais autonomia, pelos menos as pesquisas não são tão dependentes assim do governo, embora não se livrem da reitoria e dos chefões do departamento.
Enfim, a pesquisa está sujeita a muitas coisas. Algumas coisas que a gente aprende em física não são exatamente as mesmas coisas que nossos pais aprenderam, assim (mais ainda, já que, no Brasil, estávamos em ditadura, se você for mais ou menos de 85-95) como História. Está sujeita aos "pensamentos da moda", às interpretções dos cientistas, à variedade de situações na hora de encontrar uma prova científica, como podem não ter sido bem exploradas...
Geralmente, o que se aprende na escola está em dois grupos: aquele que existe prova concreta e sólido e aquele que se trata de um consenso científico.
Consenso científico. Esse é perigoso. Mas é inevitável. Na minha opinião de aspirante a professora, se há um conflito no meio científico ele tem que ser exposto, com o os dois argumentos. Mas eu ainda sou um bolo que não foi pro forno, não sei o que a pedagogia diz. Obviamente, o professor vai defender o que ele acredita, mas a exposição do "outro lado" permite, em termos, que o aluno decida por conta própria.
Esse que é o problema. Quando se trata de discussão científica, o que nos resta é pesar os argumentos e ver qual lhe parece mais convincente. Quem chama religião de subjetiva, não devia dizer que ciência é o extremo oposto. É um jeito diferente de escolher o que parece mais correto, mais ainda assim está mais para escolha (e/ou interpretação) do que necessariamente para objetividade.
Isso, porém, tira a credibilidade? Não creio. A credibilidade está no argumento. É só um pouco mais pessoal do que se pensa.
*Felix articulus*
1. O que está ouvindo? Sorry- Madonna (Ouvindo o repertório inteiro... Sabe como é... Tem que estar afinada pro show!)
2. Último filme visto? Feira das Vaidades (para aliviar, depois de um combo denso de Bergman, com Morangos Silvestres e O sétimo selo).
3. Último vídeo visto na net? Charge da Guerra Russia-Geórgia, com o Putin e o Bush, no charges.com.br
4. Aonde vai depois de escrever isso? Tomar sorvete num dia nublado com amiguinhos enquanto devia estar fazendo os resumos da faculdade.
5. Reflexão do Dia: Desconfie de uma análise científica, mas não despreze.
Ps: Destaque para o mês-aniversário do blog (considerando post). Foi coincidência um post bem no dia numérico que eu fiz o primeiro. XD
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