Eu fiz o começo desse post uns três dias depois do meu último, mas aí eu tive que parar... E, bom, vocês perceberam que demorei pra terminá-lo (hoje é dia 18 de agosto, apesar de aí mostrar o dia do rascunho). Falta de ânimo, sei lá. Na verdade, isso não é muito controlável. Preparem-se para uma frequência mais do que irregular de postagens.
Li o post de uma amiga ( http://brincos-de-diamante.blogspot.com/) e ele me levou a um assunto que dividi com um outro amigo recentemente. Sobre escolha de profissão.
Eu não sou o exemplo mais representativo de escolha de profissão. Nem do caos que isso pode ser, nem da maneira como a maioria lida com isso.
Antes de escrever História nos formulários da USP, da Unicamp e da Unisantos, eu passei por dúvidas também, como todos, mas História sempre esteve presente, e os argumentos para bater o martelo... Foram coisas muito definitivas, segundo a minha visão de vida.
Eu sempre fui uma criança bem bizarra. Eu tinha 9 anos e queria ser paleontóloga. Claro, falei coisas como veterinária, astronauta, cientista (à la Dexter, claro)... Mas a minha resposta predominante era essa. E fiquei com isso até os meus 11, quando eu descobri a magia da Arqueologia, e queria ser aqueles egiptólogos entrando em tumbas e respirando mofo. Cacei, e descobri que não existia, à época, faculdade de Arqueologia no Brasil. Só História com pós-graduação em Arqueologia. Bom, então era História, para virar arqueóloga. Cheguei a oscilar, mais por medo do fracasso do que qualquer outra coisa, e pensar que seria interessante fazer Medicina... Profissão bonita, ajuda as pessoas, e, se você estiver disposto a entrar no serviço público ( o que seria algo óbvio para mim), nunca estará desempregado. Ainda mais com mãe médica.
Porém, lá pela minha oitava série, eu entrei muito em contato com o outro lado da escola além dos alunos, os docentes, porque havia feito amizade com uma professora minha, e de quebra com alguns outros também, porque eu estava sempre na sala dos professores batendo papo. Ouvir o que eles tinham a dizer, como pessoas, especialmente essa professora, foi muito interessante. Abriu a minha mente. Me fez enxergar muitas coisas de outra maneira. Foi uma época de ápice do processo típico adolescente de amadurecimento. Mas, o mais importante pro tema desse post, foi que eu enxerguei a beleza da profissão professor.
Ele não é só aquele que vai te passar um conhecimento que muitos nem querem saber e estão pouco se lixando para a sua vontade de dividir aquilo. A gente nem percebe, mas nesse meio de explicações, ele pode soltar alguma reflexão, ou algum objeto de reflexão, que vai entrar na sua mente. E você vai levar contigo. Muitas vezes, para sempre.
O professor tem uma capacidade de transformação a ser explorada e apreciada. Não vou fazer um dissertação sobre os professores agora, mas já deu pra entender que eu admiro muito esse poder transformador, essa possibilidade de formar gente melhor. Como eu li e observei bastante sobre isso, não me sinto falando como uma iludida, porque eu sei muito bem que no formato que se dá aula e contando com a grade curricular do MEC atual, essa transformação tende a ser muito mínima. Mas certas coisas são só preguiça do próprio professor de mudar. E, no que estiver ao meu alcance, o ânimo para o novo, para oque atrai numa aula, para o que chama atenção de um aluno, para que eles se empolguem com o que aprendem, é interminável.
Enfim, eu tinha escolhido: vou ser prefessora. Eu cheguei a duvidar de quê. História parecia o mais eclético, o mais divertido... Aquilo que eu gostava sempre, de todas as formas. Mas eu cheguei a pensar em Letras (e Filosofia também, com menos fervor). Na época, em especial, eu estava num estágio (porque humanos digievoluem) - espero que você tenha lido Harry Potter para entender - Hermione advanced.
Eu li uns 46 livros naquele ano, eu não bolava aula nem a pau, eu ia com 39º graus de febre para a escola sem reclamar, eu levantava sozinha sem pestanejar, a minha memória estava no mais alto nível de armazenamento (uma pena que ela tenha decaído bastante, sinto muito falta disso atualmente), eu poderia responder quase qualquer pergunta (Apesar da "nerdice", Matemática e Física ainda não eram muito estimulantes), eu era politizada e um pouco radical demais (sempre fui politizada, mas eu praticamente exalava política, preocupação, sociedade etc etc... E, me orgulho, o radicalismo eu dei um bom tchau, embora às vezes ele me visite). Mas, só para desencargo de consciência (falar isso), eu não tinha pontos para ganhar pela Grinfinória, então eu não eu não era muito adepta do levantar mão para responder pergunta, mesmo que soubesse (insecurity), eu fazia as lições, mas não estudava todo dia... hum... que mais? Ah, claro, eu não recebia Ótimo em todas as minhas matérias, só duas, às vezes (Guess which?).
Enfim, essa enrolação toda para dizer que foi uma época de efervescência mental extrema (apesar de eu sempre ter gostado de escola e conhecimento). E essa efervescência me fez pender para as matérias que, popularmente falando, te trazem "cultura" (quem sabe depois eu não faço um post sobre a minha opinão do que é "cultura"?). Letras era a mais armada contra a História. Especialmente por dois motivos: eu estava disposta a ser uma biblioteca mental ambulante de Literatura e porque a minha professora inspiradora era de Português (Redação e Literatura, na verdade) e ela era demais dando aula, logo, tudo parecia muito legal.
Como eu sai desse impasse, eu não lembro direito. Lembro que pesei o tipo de aula que eu daria. As idéias mais que legais que eu tinha para História, só funcionariam em aulas de Literatura. Mesmo que eu gostasse de Gramática, eu não ia conseguir ser muito inovadora. À exemplo, eu não conseguiria fazer muito teatro com Gramática. Existe um elemento da memória que os professores em geral não exploram, que é da memória fotográfica. Na Gramática, diferente do meu chapéu de soldado de jornal para falar de Napoleão, eu ia ter que explorar a imaginção de um jeito que talvez não fosse acompanhada pelos alunos. E uma coisa que eu não podia contar nessa história toda, era que eu poderia escolher, ao fazer Letras, o que eu daria. Como em História também. Eu não poderia escolher se falaria dos povos da História Antiga, da Idade Média ou da Revolução Francesa. Mas, em História, eu amo tudo. Daria e imaginaria tudo para tudo.
Acho que foi isso. Não lembro de outras coisas que tenham sido fortes o suficiente.
Para falar verdade, foi uma grande desculpa. Eu me sentiria bem dando aula dos dois. E os dois eu tenho certeza que faria as coisas que acho certo, e que é o papel do professor. Eu ainda não descarto depois fazer Letras, quem sabe? Eu amo Línguas. Faria todas as Línguas que a USP oferece se tivesse tempo de vida o suficiente. Nada é definitivo. Fazer uma faculdade não significaria que não posso fazer outra. Aliás, eu tenho muito isso em mente.
Nos dias de hoje, no entanto, eu faria Sociologia antes de Letras. Como complemento ao que eu pretendo. Mas isso é outra história... E chega de aumentar mais ainda esse post, porque eu ainda nem cheguei onde eu queria.
Com o embate entre História vs. Letras deixado para trás, eu passei o primeiro ano do meu Ensino Médio muito convicta do que iria fazer. Quase uma aberração, já que é só nessa hora que o pessoal começa a pensar sobre isso. Só que, ao contrário do que eu imaginava, as coisas "regrediram".
No primeiro ano, eu tinha entrado pro Coral do colégio e logo depois fui fazer aulas de canto. Nada demais. O máximo que eu faria com o canto era cantar em barzinho e receber um extra. Na mesma época, eu estava muito afixionada por musicais. Vi o Fantasma da Ópera no tearto Abril duas vezes, e veria mais se tivesse dinheiro. Tinha visto Les Miserábles em Londres no ano anterior... Ainda sou afixionada por musicais, mas as coisas estava meio que borbulhando. Eu só ouvia musicais e Sarah Brightman. E, no segundo, veio: o Teatro. Era o grupo de Teatro do colégio, mas o nosso professor/diretor é um dos grandes nomes do circuito santista. Ele faz todas as grandes montagens da prefeitura, e as peças que ele dirige são sempre agradáveis e sinceras, nada desses artistas blasés, sem largar a arte.
Já podem imaginar... Me encantei com o teatro, e o fato de eu cantar... E amar musicais... Tudo se uniu numa grande vontade, num grande pendência, e, mais tarde, numa grande tortura... E se eu fizesse Artes Cênicas?
Eu não me importava de viver uma vida simples como sempre usam como argumento contra o Teatro, que é o acontece com os artistas que não fazem grande sucesso. Eu não era/sou ultra-mega talentosa, mas eu tinha algo que podia ser trabalhado se eu quisesse. E a quantidade de musicais lançados aqui no Brasil só vinha aumentando... quem sabe...?
Certamente, o Teatro seria prazeroso de fazer. Divertido. Não estou ignorando os perrengues, mas quem já fez teatro sabe que na hora de atuar a sensação é especial.
E lá fui eu para minha estratégia de quase tudo: ok, vamos pesar Teatro vs. História. Arte vs. Ciência Humana. Sentimento vs. Razão. Corpo vs. Papel.
Bem difícil. Eram meus dois lados, praticamente, brigando. Eram vidas completamente diferentes, que, a seus modos, me seduziam. O lado que ganhou, foi devido a minha personalidade. Mas não diretamente relacionado, por assim dizer.
Lados ruins (pode pular essas partes se acha que não vão te acrescentar nada. Só aviso que poderia te ajudar na sua própria situação):
Para o teatro: possíveis perrengues financeiros, um possível limite para o meu "talento", meus escrúpulos não me permitiram fazer certas coisas para ganhar um papel, a minha falta de talento para auto-promoção, uma certa tortura porque, infelizmente, eu tenho um péssimo hábito de querer ser a melhor, ou me equiparar a tal, pelo menos em alguma coisa (que, aqui, teria de estar dentro do teatro): Fosse o estilo, fosse a voz, fosse a expressão... Em nada disso eu me destacaria. Eu poderia ser boa, mas nunca estaria, em nada, no topo. Sei que é meio arrogante falar isso, mas é uma sensação que eu tenho. Eu poderia lidar com isso, claro. Eu sempre faço isso. Mas eu não poderia me livrar da tristeza. Eu gosto de destaque, sim. Não porque eu sou eu, mas porque eu fiz não-sei-o-que. Eu sou muito sucetível à críticas que eu concordo. E como eu sou bem auto-crítica, isso não é nem um pouco difícil.
Para História: a falta de respeito dos alunos, a exposição alta da sua própria pessoa, o salário baixo para algo que exige muito (eu não realmente ligo, mas é um ponto negativo, afinal), o alto estresse, as frustações, os alunos imaturos, minhas idéias poderiam ser impedidas, de alguma maneira eu descobrir/acontecer que nada funciona...
Lados Bons:
Para Teatro: O prazer de atuar, a vivência de outras vidas, estar em outros mundos por breves horas, o reconhecimento de um público, viver sentimentos diversos, o trabalho para a montagem de personagem, a liberdade excêntrica, um circuito de gente interessante e diferente, intensidade, experiências variadas.
Para História: O prazer de ensinar alguém, ser portadora de conhecimento e trasmití-lo para ao menos 100 pessoas ao ano, estar sempre atualizada com as gerações e o que é novo, a capacidade de transformar diretamente ao menos 5 dessas pessoas, levar os outros à alta reflexão, o contato com mundos diferentes da realidade, ajudar crianças a descobrir o que significa cidadania e espírito crítico, o prazer imenso de ver quem já foi seu aluno se dando bem ou mais, sendo uma pessoa incrível, trazer um visão diferente do que é escola.
(Pode voltar a ler)
Eu cheguei uma conclusão definitiva: Eu poderia ser muito feliz fazendo teatro, mas eu seria só mais uma atriz, não me sentiria completa. Eu poderia ter momentos muito duros sendo professora, mas que seriam esquecidos a todo momento que eu lembrasse, com provas, que eu contribui para formar pessoas melhores. (Além do mais, eu ainda poderia fazer teatro, como hobby. Hehehe)
E dessa conclusão, eu pude tirar uma outra conclusão: eu nunca conseguiria me decidir, se eu não soubesse que tipo de sentido eu queria que a minha vida tomasse. Se eu simplesmente queria ser feliz, se eu queria fazer algo que me agradesse, se eu queria ser famosa... Esse tipo de coisa é muito genérico, para mim, pelo menos.
Entre o começo desse texto, que eu fiz há mais de duas semanas, e o agora, eu dividi essa conclusão com uma amiga. E a reação não foi muito animadora. Não é fácil ter 17, 18 anos e encontrar o que você pretende que tenha na sua vida, como conduzí-la. Aliás, falando como se fosse alguém que não tivesse idade, nem todo mundo que tem 45 anos sabe. E isso que me torna um pouco insuficiente para falar do assunto. Porque, ao meu ver, não tem Orientação Vocacional que resolva de verdade.
A maioria das pessoas decide por conveniência. Porque é bom em não-sei-o-que, porque quer ganhar dinheiro, porque acha legal fazer-isso. Elas são úteis, mas nunca vão satisfazer 100%. Na minha visão, ser bom em algo tem que ganhar um sentido. "Sou bom em algo, então, o que quero fazer com isso? Para quê fazer isso?". O mesmo vale quando se acha legal. Tá, é legal, porque é legal? E se eu achar duas ou mais coisas legais, como eu decido?
Tem gente que é adepta do deixar viver. Mas elas sempre acabam entrando numa fase depressiva quando mais velhas, e se arrependem. A não ser que o próprio "deixar viver" tenha um sentido. "Porque eu quero sentir a intensidade da vida" é muito simples. E se for convicto, é muito válido.
A minha decisão foi porque eu decidi que viver e fazer pelos outros é tipo de coisa que, quando eu me deprimo, ou quando eu me auto-avalio apenas, me salva. É única coisa que me faz sentir bem comigo mesma sempre, em qualquer momento. Então, para garantir para sempre essa sensação de bem-estar interno, eu tomei isso como o sentido da minha vida.
Não acho que todo mundo devia seguí-lo, apesar de que o mundo teria características, no mínimo, interessantes. Eu acho que na hora de se orientar, não é racionalidade que vinga, é sentimento. E tem que ser sincero. A única racionalidade que entra é a de reconhecer o sentimento e criar a chance para que ele seja frequente.
"Ah, eu gosto de desenhar... E adoro ver quando as pessoas o apreciam". Por que não tomar essa sensação algo a ser sempre buscado? Vale a pena? Vai de cada um.
Eu sinto que minha limitações pro assunto são muito grandes. Mesmo supondo que foi difícil ter certeza, talvez para outros eu fiz muito fácil. Mas eu espero atingir algumas reflexões. Por que não?
*Happy Time*
1. Música que estou ouvindo? Nature Boy - David Bowie (Trilha sonora de Moulin Rouge)
2. Último video? Episódio 8 de Salad Fingers, again. (www.fat-pie.com)
3. Último filme? Grandes Esperanças, no Fox Life, do Afonso Cuáron, baseado em Dickens (mas não espere ver Dickens, para variar). Lindo, mas me deixou deprimida.
4. A melhor reflexão que ouviu na USP recentemente: "O 'Ocidente' tem muito o que aprender com a cultura africana. Veja só o Aquecimento Global..." Prof. Dr. Marina, de História da África, a professora mais sensata e incrível que encontrei naquele Departamento, por enquanto.
5. Reflexão do dia:
A - A gente pode partilhar experiência, mas o que os outros podem usar são só cacos. Cada um com sua conjuntura.
B - Mulher dificilmente consegue fugir do conto de fadas. E, quando consegue, é cruel.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
2 comentários:
Cara, li tudo, e foi um prazer, sério. Me deliciei nas suas idéias.
O que me impressiona é que essa questão, tão crucial, tão divina e gigantesca e quimera, é tão banal e indiferente na cabeça de muitos dos nossos iguais. Conheço muitos amigos meus que tratam a decisão da profissão como mais uma provinha de fim de bimestre. Mais uma tarefa de vida, et voilà. Nada de importante. Mas são esses, que não levam a vida com o seu aspecto emocionante e lindo.
Mas você será uma professora maravilhosa, daquelas que os alunos lembram pro resto da vida. <3
Nossa, tia.
A nossa infância, pelo menos, foi parecida XD
Pra mim era CERTO que eu seria paleontólogo, comprava tudo quanto é revista relacionada com o assunto.
Mais tarde, tive a mesma fixação por astronomia, no mesmo tempo em que queria pq queria criar jogos X).
No ensino médio, descobri a informática, que também me maravilhou. E descobri que ela podia me fornecer conhecimento amador sobre dinossauros e astronomia XD
Hoje, decidi optar pela informatica. Vou tentar criar games, e sou astronomo amador.
Ou seja, continuo confuso X)
Postar um comentário