Esse post é uma homenagem a um primo, à "turma das Exatas", aos preguiçosos, aos ignorantes na forma da ingenuidade e da injustiça, aos que se acham burros só por não saber certas coisas, aos aversos a intelectualidade, aos simples.
Quando eu era pequena, estudar e saber parecia uma coisa óbvia a se fazer. Talvez se você me perguntasse naquela idade, eu não soubesse clarificar o porquê, embora soubesse que era importante. Já no meio da minha adolescência, - e não faz tanto tempo assim - eu comecei a questionar a razão de seguir regras ao pé da letra, ensinamentos ao pé da letra, fazer o que se espera fazer na escola ao pé da letra (prestar atenção nas aulas, fazer as lições e amigos, claro)... Acabei me flexibilizando um pouco, mas também compreendi (ou inventei?) que, a medida que eu sabia mais, aprendia mais, eu podia enxergar cada coisa de várias maneiras, entender melhor o mundo, pensar sem copiar, interpretar além do óbvio, questionar com mais sofisticação, raciocinar de várias formas.
Ler, saber e observar mais nos permite fugir de armadilhas da dúvida e da ignorância, nos torna diferentes e produtivos, apura nossos sentidos, expande nossa cabeça. As vantagens do saber são tão grandes que o que é ruim nisso acaba sendo uma consequência que se tem de lidar.
Afinal, a partir do momento que você vê mais , você vê mais coisas ruins, você vê mais dissimulação, mais horror, mais injustiça , mais ganância, enfim, mais maldade. Você também pode encontrar o seu lugar abaixo do ideal, encontrar uma auto-compreensão que machuca, se frustra com mais facilidade, se enterra num buraco sufocante em que o seu saber, pouco conhecido e pouco utilizado, mora em silêncio.
Bom, isso para os que utilizam do conhecimento como algo tanto seu quanto do mundo. Pior aqueles que se aproveitam da sabedoria acumulada para se auto-promover, para entender os outros e lhes passar a perna, os que se perdem dentro do que sabem esquecem que nunca saberão tudo... Como todo poder, o conhecimento precisa de sanidade, escrúpulos e humildade.
Mas o conhecimento não é um cara tão fácil de adquirir, e, com o passar dos anos, ainda mais dentro de um contexto desacostumado a estudar , vai ficando mais difícil dar seu tempo a ele. Uma rotina, o acesso fácil a fontes de conhecimento, o costume de ler , de observar, de ir a lugares para aprender mais (cinema, museu, biblioteca, exposições, palestras...)... Para os preguiçosos , se não há habito, tudo parece demais e impossível de dar uma constância. E é verdade. Sem hábito, tudo isso fica chato de se esforçar, e terrível de se acostumar.
Porém, hoje em dia fontes de conhecimento estão muito, muito além do velho trio livros-escola-museu. Mesmo porque, o próprio conhecimento está muito além de um conceito erudito.
Conhecimento não é só historia da humanidade, pensadores e conceitos científicos. É tão além e tão mais diversificado do que isso que chegar a ser uma afronta a produção humana restringí-la à penelinha acadêmica.
Eu percebi o tamanho da palavra conhecimento por volta dos meus 15, dentro da própria escola. Eu nunca fui muito boa em exatas, mas, mesmo que não tivesse dificuldades sérias, era o suficiente para não curtir muito. Só que, a essa idade, eu entendi que saber pelo menos o básico e o conceitual dessas matérias amplificavam minha maneira de falar e de entender certas coisas, muitas vezes nada a ver com essas matérias. E isso se reforçou nos meus 16 (e para frente), com as minhas amizades e maluquices, nada a ver com coisas eruditas, mas tão úteis como conhecimento quanto.
A banda que toca de certa maneira, a letra de não-sei-o-quê, a maneira como não-sei-quem fala ou age, o filme em que acontece não-sei-o-que, o jogo de video game que tem um barato esquisito, a palavra no rpg que não entendi e fui procurar no dicionário, a própria história e referências mitológicas de um rpg, o vídeo comédia no youtube que vira jargão, os personagens de um desenho animado... Tecnologia e informação em massa. Conhecimento leve, altamente utilizado e que nem se percebe que se aprende.
É verdade que essas coisas aumentam nossa capacidade de se comunicar e entender certos problemas, ações e situações, além de trazer afinidades e um pouco de aprendizado. Mas é verdade também que essas coisas não tornam ninguém seres altamente pensantes, assim como nenhum tipo de conhecimento faz. O hábito é um pedaço que amplia conhecimento, e um ampliado conhecimento permite sim compreensões diferentes. As pessoas tornam-se capazes de boas análises e críticas, mesmo não sendo umas devoradoras de livros e jornal (embora seja meio difícil fazer um bom julgamento de uma situação atual sem jornal... LEIA JORNAL! rs...).
A vontade de ficar filosofando o dia inteiro (olha o exagero), mais do que ensinamento de infância, eu vejo uma considerável parte da genética. Não acho que todo mundo precisa ficar pensando o dia todo... Inclusive, acho que seria um tédio, uma praga. Mas uma imaginação saudável e um razoável poder de análise é um direito e dever de todos.
O humano é muito inconstante, complexo, difícil de padronizar, difícil de formular. Graças aos Céus! Os caros amigos que tem o que eu chamo de "cabeça de exatas" destestam isso, porque têm dificuldade de entender e lidar com isso, e têm um natural ódio do que não é... exato. Eu mesma às vezes fico com raiva, porque seria mais fácil. Mas o mais fácil vem acompanhado do restrito, da mesmice, da tédio.
É por isso que quanto mais a gente sabe, menos a gente sabe. E por isso que tentar saber de coisas diversas pode te tornar interessante e aberto.
A regra número um do conhecimento é curiosidade . E a número dois atenção. Pratique. Rs...
*Rio maravilha...*
1 - O que está ouvindo? Logh - The invitation (Rádio Lastfm - Sigur Rós - palmas ao Kuramito pelo gosto musical)
2 - Último filme no cinema? Rebobine, por favor. MUITO BOM! Comédia, ótimo roteiro, você sai com vontade de copiá-los.
3- Último filme em DVD? E o Vento levou. Sim, nunca tinha visto. É enorme e cheio de clichês românticos, mas belo e surpreendente.
4 - Última burrada? Dar a volta na Lagoa Rodrigo de Freitas das 11h às 13h sem protetor solar.
5 - Reflexão do Dia: Quanto mais você sabe, menos você é feito de trouxa.
P.S.: Sei que este não é um blog abandonado, pois volta-e-meia vem algum amigo ou uma pessoa no orkut dizer que o leu. Meu objetivo de escrever nele também não é ficar fazendo coleção de comentários como um album de figurinhas. Mas, para quem generosamente puder, dê uma espécie de retorno dos posts nos comentários, pelo menos pensando em duas razões: uma, que os comentários pode incitar discussões/conversas, e eu gosto. Dois, e mais importante, porque um blog com comentários atrai quem está fazendo uma passagem rápida por ele a realmente lê-lo, o que, dentro dos meus objetivos, é algo muito desejável.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
O sabor do mal
Esse ano, aproveitando o clima de final, algumas percepções sobre o jeito como as pessoas agem e como elas pensam atravessaram a minha pele como uma espada que acabou de sair do ferreiro (nossa, essa foi péssima). Em vários momentos, senti o quanto eu era/sou ingênua e - por que não reconhecer isso? - boazinha.
A maneira como trato os outros, a maneira como enxergo as coisas, a maneiro como lido com situações difíceis, a maneira como olho para os outros (embora essa, depois de tanta decepção, tenha ficado um pouco mais... "madura" - ou pessimista, como prefiro entender), a maneira como considero as possibilidades e a maneira como evito certos assuntos, às vezes são tão diferentes do jeito que a maioria das pessoas trata que fico confusa, sem saber se estou sendo estúpida, puritana e trouxa, ou se estou um passo a frente como ser humano. Pode ser os dois (?), pode ser um ou outro, dependendo de uma situação.... E isso que é o pior, porque fica muito complicado saber quando é quando, e não tem ninguém para ajudar, nenhuma resposta divina, nem uma luz de sabedoria para elucidar. Aí, a coisa fica mais torturante: porque a tarefa de decidir é minha, e ao mesmo tempo que tenho medo de parecer idiota, tenho medo de me tornar (leia como parecer) medíocre e vulgar.
Mas... Como os pottermaníacos adoram citar a frase de Dumbledore: "São as nossas escolhas que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades". Acho genial. E, óbvio, também acredito nisso.
Às vezes bate aquele terror de ficar para trás, de soar conservadora, e acabo fazendo besteira. Porém, geralmente me atenho ao que acho mais elegante e correto. Pena que isso sou eu, e cada vez que eu vejo o quanto o humano pode ser abaixo da crítica, tenho a triste sensação de que transformação é um tesouro de baixo do arco-íris. Sorte que a sensação é momentânea, porque sem "sonhadores" nós estaríamos na Idade Média ainda. É difícil cobrir o emocional com o racional, mas uma cabeça fresca ajuda muito.
Aos adeptos das atitudes "malvadas" - e nem digo aquele mal da violência, da injustiça e do prazer psicopata, mas o cotidiano, do passar a perna, do não ligar para os sentimentos dos outros, do egoísmo, do divertimento às custas dos outros, do trair, do cheirar sem ligar se está dando dinheiro ao tráfico, do falar merdas ofensivas quando se está bêbado, do se aproveitar da bondade dos outros, do parasitismo, da exploração, da preguiça de se fazer algo pelos outros, das opções financeiras acima do bem-estar alheio, da discriminação por aparências e gostos, do rude, da desonestidade, da falta de educação, do dissimulação, do cinismo, do desprezo... -, a vida só pode ser vivida bem com algumas delas. O deleite do "se dar bem", do "saber viver" é tamanho que corrompe boa parte das pessoas.
A vontade de estar bem e feliz é muito maior do que fazer alguns sacríficios para que todos estejam bem e felizes, talvez sem tanta intensidade. Não é bem assim que se pensa. A parte dos outros, na verdade, é ignorada, não é lembrada. O que é lembrado é o sacrifício de se deixar de fazer algo para que não ocorra (ou ocorra menos) coisas ruins aos outros.
Esse vilanismo é impregnado até (de fato, correntemente) em quem é generalizadamente bom. É muito difícil deixar de olhar para o próprio umbigo quando se age ou pensa. A balança gosta de priorizar e considerar com mais efervescência as vantagens e danos do próprio dono. Entenda, não é sempre, não para todas as situações, não é para todos os tipos de mal, dependendo de cada pessoa. Mas é muito seguro afirmar que para certos momentos, 95% das pessoas não consegue ver uma situação muito além de seu próprio mundo.
Para minha infelecidade, inclusive, eu me encaixo nesse "certos momentos", como a pouco tempo fui acordada para ver. Não é simplesmente porque você não está interessado, mas porque você não está acostumado a enxergar. A ignorância é amiga da maldade. Um bom tratamento de choque e um bom ciclo social ajudam a perceber os outros. Às vezes você até percebe os outros, mas não TODOS os outros, se é que me entendem. No meu caso, disseram-me que eu vejo meus amigos, mas não vejo minha família. Eu considerava que via, mas descobri que pelo jeito não era da maneira que devia. (isso foi meio off)
A maldade dos "bons" é facilmente perdoada por outrem, porque o bom em quantidade considerável remedia escorregões e algumas maldades crônicas.
Apesar disso, eu ando tão sensível a comportamentos e o tipo de sinais que eles transmitem, que mesmo essas "maldades bobinhas/desculpáveis" me deixam muito desanimada. Sinto como se disposições tivessem limite, como se todos fossem fáceis de corromper, como se instinto de sobrevivência fosse maior que decência, como se as pessoas fossem incapazes de entender dor sem sentí-la.
O sabor da maldade parece doce: todos se sentem tolos de não experimentar e tentados a repetir a dose, embora saibam que não faz bem. Às vezes pode até viciar. Tem gente que acha que só pisoteando a vida tem graça. Prefiro achar que graça tem o infame, o deboche próprio e o inusitado.
*Plim*
1 - O que está ouvindo? Visions of Atlantis - Lemuria (Lastfm - rádio Nightwish -> To adorando essa coisa da rádio)
2- Ultimo filme em DVD? Retratos da Vida (Les uns et Les autres). Looooooooooooongo, porém comovente.
3- Último milagre? Fiz uma geral na minha estante de livros.
4- Último azar? Perder, em alguma falcatrua no Sedex, um memory card de GameCube.
5- Reflexão do dia: Manequeísmos só em Hollywood, mas bem que eu queria algumas bondades plenas.
A maneira como trato os outros, a maneira como enxergo as coisas, a maneiro como lido com situações difíceis, a maneira como olho para os outros (embora essa, depois de tanta decepção, tenha ficado um pouco mais... "madura" - ou pessimista, como prefiro entender), a maneira como considero as possibilidades e a maneira como evito certos assuntos, às vezes são tão diferentes do jeito que a maioria das pessoas trata que fico confusa, sem saber se estou sendo estúpida, puritana e trouxa, ou se estou um passo a frente como ser humano. Pode ser os dois (?), pode ser um ou outro, dependendo de uma situação.... E isso que é o pior, porque fica muito complicado saber quando é quando, e não tem ninguém para ajudar, nenhuma resposta divina, nem uma luz de sabedoria para elucidar. Aí, a coisa fica mais torturante: porque a tarefa de decidir é minha, e ao mesmo tempo que tenho medo de parecer idiota, tenho medo de me tornar (leia como parecer) medíocre e vulgar.
Mas... Como os pottermaníacos adoram citar a frase de Dumbledore: "São as nossas escolhas que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades". Acho genial. E, óbvio, também acredito nisso.
Às vezes bate aquele terror de ficar para trás, de soar conservadora, e acabo fazendo besteira. Porém, geralmente me atenho ao que acho mais elegante e correto. Pena que isso sou eu, e cada vez que eu vejo o quanto o humano pode ser abaixo da crítica, tenho a triste sensação de que transformação é um tesouro de baixo do arco-íris. Sorte que a sensação é momentânea, porque sem "sonhadores" nós estaríamos na Idade Média ainda. É difícil cobrir o emocional com o racional, mas uma cabeça fresca ajuda muito.
Aos adeptos das atitudes "malvadas" - e nem digo aquele mal da violência, da injustiça e do prazer psicopata, mas o cotidiano, do passar a perna, do não ligar para os sentimentos dos outros, do egoísmo, do divertimento às custas dos outros, do trair, do cheirar sem ligar se está dando dinheiro ao tráfico, do falar merdas ofensivas quando se está bêbado, do se aproveitar da bondade dos outros, do parasitismo, da exploração, da preguiça de se fazer algo pelos outros, das opções financeiras acima do bem-estar alheio, da discriminação por aparências e gostos, do rude, da desonestidade, da falta de educação, do dissimulação, do cinismo, do desprezo... -, a vida só pode ser vivida bem com algumas delas. O deleite do "se dar bem", do "saber viver" é tamanho que corrompe boa parte das pessoas.
A vontade de estar bem e feliz é muito maior do que fazer alguns sacríficios para que todos estejam bem e felizes, talvez sem tanta intensidade. Não é bem assim que se pensa. A parte dos outros, na verdade, é ignorada, não é lembrada. O que é lembrado é o sacrifício de se deixar de fazer algo para que não ocorra (ou ocorra menos) coisas ruins aos outros.
Esse vilanismo é impregnado até (de fato, correntemente) em quem é generalizadamente bom. É muito difícil deixar de olhar para o próprio umbigo quando se age ou pensa. A balança gosta de priorizar e considerar com mais efervescência as vantagens e danos do próprio dono. Entenda, não é sempre, não para todas as situações, não é para todos os tipos de mal, dependendo de cada pessoa. Mas é muito seguro afirmar que para certos momentos, 95% das pessoas não consegue ver uma situação muito além de seu próprio mundo.
Para minha infelecidade, inclusive, eu me encaixo nesse "certos momentos", como a pouco tempo fui acordada para ver. Não é simplesmente porque você não está interessado, mas porque você não está acostumado a enxergar. A ignorância é amiga da maldade. Um bom tratamento de choque e um bom ciclo social ajudam a perceber os outros. Às vezes você até percebe os outros, mas não TODOS os outros, se é que me entendem. No meu caso, disseram-me que eu vejo meus amigos, mas não vejo minha família. Eu considerava que via, mas descobri que pelo jeito não era da maneira que devia. (isso foi meio off)
A maldade dos "bons" é facilmente perdoada por outrem, porque o bom em quantidade considerável remedia escorregões e algumas maldades crônicas.
Apesar disso, eu ando tão sensível a comportamentos e o tipo de sinais que eles transmitem, que mesmo essas "maldades bobinhas/desculpáveis" me deixam muito desanimada. Sinto como se disposições tivessem limite, como se todos fossem fáceis de corromper, como se instinto de sobrevivência fosse maior que decência, como se as pessoas fossem incapazes de entender dor sem sentí-la.
O sabor da maldade parece doce: todos se sentem tolos de não experimentar e tentados a repetir a dose, embora saibam que não faz bem. Às vezes pode até viciar. Tem gente que acha que só pisoteando a vida tem graça. Prefiro achar que graça tem o infame, o deboche próprio e o inusitado.
*Plim*
1 - O que está ouvindo? Visions of Atlantis - Lemuria (Lastfm - rádio Nightwish -> To adorando essa coisa da rádio)
2- Ultimo filme em DVD? Retratos da Vida (Les uns et Les autres). Looooooooooooongo, porém comovente.
3- Último milagre? Fiz uma geral na minha estante de livros.
4- Último azar? Perder, em alguma falcatrua no Sedex, um memory card de GameCube.
5- Reflexão do dia: Manequeísmos só em Hollywood, mas bem que eu queria algumas bondades plenas.
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domingo, 21 de dezembro de 2008
Ah, tempo, tempo....
Meu amigo e inimigo tempo é o assunto de hoje, já que ele andou de brincadeira comigo essas últimas semanas, enquanto também tive boas constatações de que, sem ele, o mundo seria muito mais sem graça e primitivo.
Não usemos, por favor, de maneira sólida a idéia do tempo científico. Aquele colega metódico que não passa de rotações da terra, com determinados números que o codificam, usado simplesmente para catalogar a história do universo, do mundo e da humanidade.
Não, o tempo também é instrumento filosófico. É o parceiro e complicador de todos nós. Sem ele, não tem velhice, não tem prazo, não tem renovação, não tem desenvolvimento. O tempo é mestre e vilão. O tempo é correnteza e barreira. O tempo é espetáculo e tédio.
O antítico e ambíguo tempo é aquele cara que você corre contra quando precisar ler milhões de coisas num curto espaço que ele dá. Mas é o mesmo que ameniza emoções amargas, que resolve sensações desagradáveis e encontra soluções porque lhe deu experiência ou cabeça fresca. É o camarada que lhe deu sugestões, que lhe engrandeceu com os alto e baixos.
Gosto muito do tempo, apesar de detestá-lo quando ele se mostra tão pequeno perto do que se precisa fazer: acordar, se exercitar, ler jornal, ler feito uma condenada, viajar até São Paulo, assistir aulas, voltar de São Paulo, ler, ler, ler, arranjar espaço para diversão e descontração, dormir, fazer cursos de línguas, estudar música, escrever no blog, se entreter na internet, querer fazer mais aulas e não poder... O tempo te obriga a fazer opções. Não tem vidas em forma de cogumelos verdes, nem relógios que param o mundo, nem viratempos. É tudo na raça, e o que foi, não volta.
Eu sempre gostei de quem me força a ir acima dos meus atuais limites, ou me mostra o quão despreparada e sem talento eu sou e que, portanto, tenho muito o que aprender e nunca alcançarei uma plenitude. Pode soar desanimador, mas como alguém que naturalmente gosta de desafios pessoais, eu não paro, choro e ignoro, nem me posiciono confortavelmente na simples admissão da minha falta de certas características que considero melhores. Eu vou atrás, por mais que algumas coisas eu saiba que nunca serão bem concretas, muito menos perfeitas. Para essas pessoas, que eu posso contar nos dedos, tive momentos de admiração total e outras de pura raiva, pela forma severa como geralmente me tratam/tratavam. Mas, no fim, é essa forma severa que me estimula(va), em tom de desafio. O tempo não é uma pessoa, mas a maneira como o vejo é a mesma maneira como vejo essas pessoas.
Ele está ali me forçando a ir mais além do que eu imagino que posso, e às vezes até consigo, entrando num deleite de superação pessoal. Há os momentos em que não consigo e, por mais que num instante eu pense que foi, nunca será em vão. Pode não vir em forma de uma leve superação fracassada, mas na forma de uma maneira para não se repetir, ou mesmo de uma que deve ser aplicada de outra forma... entre tantos outros ensinamentos.
O tempo existe para ensinar. O castigo e o sucesso são instrumentos de aprendizado.
Todo mundo reclama do tempo. E todo mundo se impressiona com o tempo. No final de ano, é sempre a mesma coisa: "Como esse ano passou rápido!".
Além de professor e médico, pai e mãe, juiz e promotor, o tempo também é astro. Ainda mais hoje em dia (que, na verdade, para mim, membro da geração do computador, trata-se do sempre), em que a gente faz tanta coisa, tem tanta coisa para ver, ouvir e aprender, bem como várias coisas para não fazer nada (leia-se: não usar os neurônios, o que às vezes é muito bem-vindo), parece que o tempo está curto, ou que só atrapalha...
As pessoas estão sempre com o olho no relógio e no calendário, contando horas, dias ou meses para algum acontecimento, ou para entregar algo a tempo. Tudo muito rodeado de unhas ruídas, cabelos brancos, culpas, ataques e colapsos. Esse tipo de associação o tempo não pediu, embora receba como consequência de suas restrições.
O pobre tempo simplesmente existe. Está ali, não pode mudar, não pode flexibilizar, não pode se comover com os seus anseios, não pode durar mais um pouquinho pela sua felicidade. Ele é aquilo e pronto. A não ser que se confirme a relação entre tempo e universos paralelos, acho muito difícil que nós consigamos interferir no tempo, como tanto sonham o misticismo e a ciência.
Sobra para nós, mortais e transformadores, nos adaptarmos ao tempo e seus limites. Quando o tempo pede disciplina, devemos buscar disciplina; quando pede pelo gozo de um momento, devemos saber aproveitar.
É tão fácil dizer uma coisa dessas diante dos obstáculos de se encontrar esse tipo de equilíbrio, que estou até tomando água de coco na cadeira de praia para ver se a ação alcança as palavras. Serve para quem nunca encontrou essa reflexão de psicólogo: não culpe o tempo, culpe você mesmo e se resolva, ou ao menos tente ( E não se sinta tão frustrado se não conseguir. Muito mais corajoso e digno tentar).
Eu ando na corda bamba nessa história. Vou muito cuidadosamente, às vezes faço grandes avanços, às vezes caio na rede lindamente. Quando caio na rede xingo o tempo, mas sei bem que a culpa é minha e me amaldiçoou por alguns erros tão repetidos.
Bom, pelo menos eu fico satisfeita quando faço bom uso do tempo.
*Stick & Sweet*
1 - O que está ouvindo? Ashanti - Don't let them (ouvindo a rádio do lastfm e descobrindo novas cantoras, que segundo o lastfm, seriam parecidas com a Christina Aguilera. Até gostei dessa Ashanti, apesar de que até hoje para mim esse nome era uma etnia africana - deve ter origem)
2 - Último filme na tv? "Uma questão de bolas"... Comédia besteirol com dodgeball e Ben Stiller... Acho que eu estava de muito bom humor hoje, porque consegui achar graça. Bom, melhor que as comédias adolescentes estritamente sexistas americanas.
3 - Primeiro presente de aniversário deste ano? Super Smash Bros Brawl, pro wii, já com muitas horas de jogatina.
4 - Último show que foi? Qual? Qual? Madonna, Stick & Sweet Tour, no dia 18. High tech, lindo, fantástico, Madonna poderosa e enérgica, supreendentemente simpática e comunicativa.
5 - Reflexão do dia: Você é que se adapta às dificuldades, não elas a você.
Não usemos, por favor, de maneira sólida a idéia do tempo científico. Aquele colega metódico que não passa de rotações da terra, com determinados números que o codificam, usado simplesmente para catalogar a história do universo, do mundo e da humanidade.
Não, o tempo também é instrumento filosófico. É o parceiro e complicador de todos nós. Sem ele, não tem velhice, não tem prazo, não tem renovação, não tem desenvolvimento. O tempo é mestre e vilão. O tempo é correnteza e barreira. O tempo é espetáculo e tédio.
O antítico e ambíguo tempo é aquele cara que você corre contra quando precisar ler milhões de coisas num curto espaço que ele dá. Mas é o mesmo que ameniza emoções amargas, que resolve sensações desagradáveis e encontra soluções porque lhe deu experiência ou cabeça fresca. É o camarada que lhe deu sugestões, que lhe engrandeceu com os alto e baixos.
Gosto muito do tempo, apesar de detestá-lo quando ele se mostra tão pequeno perto do que se precisa fazer: acordar, se exercitar, ler jornal, ler feito uma condenada, viajar até São Paulo, assistir aulas, voltar de São Paulo, ler, ler, ler, arranjar espaço para diversão e descontração, dormir, fazer cursos de línguas, estudar música, escrever no blog, se entreter na internet, querer fazer mais aulas e não poder... O tempo te obriga a fazer opções. Não tem vidas em forma de cogumelos verdes, nem relógios que param o mundo, nem viratempos. É tudo na raça, e o que foi, não volta.
Eu sempre gostei de quem me força a ir acima dos meus atuais limites, ou me mostra o quão despreparada e sem talento eu sou e que, portanto, tenho muito o que aprender e nunca alcançarei uma plenitude. Pode soar desanimador, mas como alguém que naturalmente gosta de desafios pessoais, eu não paro, choro e ignoro, nem me posiciono confortavelmente na simples admissão da minha falta de certas características que considero melhores. Eu vou atrás, por mais que algumas coisas eu saiba que nunca serão bem concretas, muito menos perfeitas. Para essas pessoas, que eu posso contar nos dedos, tive momentos de admiração total e outras de pura raiva, pela forma severa como geralmente me tratam/tratavam. Mas, no fim, é essa forma severa que me estimula(va), em tom de desafio. O tempo não é uma pessoa, mas a maneira como o vejo é a mesma maneira como vejo essas pessoas.
Ele está ali me forçando a ir mais além do que eu imagino que posso, e às vezes até consigo, entrando num deleite de superação pessoal. Há os momentos em que não consigo e, por mais que num instante eu pense que foi, nunca será em vão. Pode não vir em forma de uma leve superação fracassada, mas na forma de uma maneira para não se repetir, ou mesmo de uma que deve ser aplicada de outra forma... entre tantos outros ensinamentos.
O tempo existe para ensinar. O castigo e o sucesso são instrumentos de aprendizado.
Todo mundo reclama do tempo. E todo mundo se impressiona com o tempo. No final de ano, é sempre a mesma coisa: "Como esse ano passou rápido!".
Além de professor e médico, pai e mãe, juiz e promotor, o tempo também é astro. Ainda mais hoje em dia (que, na verdade, para mim, membro da geração do computador, trata-se do sempre), em que a gente faz tanta coisa, tem tanta coisa para ver, ouvir e aprender, bem como várias coisas para não fazer nada (leia-se: não usar os neurônios, o que às vezes é muito bem-vindo), parece que o tempo está curto, ou que só atrapalha...
As pessoas estão sempre com o olho no relógio e no calendário, contando horas, dias ou meses para algum acontecimento, ou para entregar algo a tempo. Tudo muito rodeado de unhas ruídas, cabelos brancos, culpas, ataques e colapsos. Esse tipo de associação o tempo não pediu, embora receba como consequência de suas restrições.
O pobre tempo simplesmente existe. Está ali, não pode mudar, não pode flexibilizar, não pode se comover com os seus anseios, não pode durar mais um pouquinho pela sua felicidade. Ele é aquilo e pronto. A não ser que se confirme a relação entre tempo e universos paralelos, acho muito difícil que nós consigamos interferir no tempo, como tanto sonham o misticismo e a ciência.
Sobra para nós, mortais e transformadores, nos adaptarmos ao tempo e seus limites. Quando o tempo pede disciplina, devemos buscar disciplina; quando pede pelo gozo de um momento, devemos saber aproveitar.
É tão fácil dizer uma coisa dessas diante dos obstáculos de se encontrar esse tipo de equilíbrio, que estou até tomando água de coco na cadeira de praia para ver se a ação alcança as palavras. Serve para quem nunca encontrou essa reflexão de psicólogo: não culpe o tempo, culpe você mesmo e se resolva, ou ao menos tente ( E não se sinta tão frustrado se não conseguir. Muito mais corajoso e digno tentar).
Eu ando na corda bamba nessa história. Vou muito cuidadosamente, às vezes faço grandes avanços, às vezes caio na rede lindamente. Quando caio na rede xingo o tempo, mas sei bem que a culpa é minha e me amaldiçoou por alguns erros tão repetidos.
Bom, pelo menos eu fico satisfeita quando faço bom uso do tempo.
*Stick & Sweet*
1 - O que está ouvindo? Ashanti - Don't let them (ouvindo a rádio do lastfm e descobrindo novas cantoras, que segundo o lastfm, seriam parecidas com a Christina Aguilera. Até gostei dessa Ashanti, apesar de que até hoje para mim esse nome era uma etnia africana - deve ter origem)
2 - Último filme na tv? "Uma questão de bolas"... Comédia besteirol com dodgeball e Ben Stiller... Acho que eu estava de muito bom humor hoje, porque consegui achar graça. Bom, melhor que as comédias adolescentes estritamente sexistas americanas.
3 - Primeiro presente de aniversário deste ano? Super Smash Bros Brawl, pro wii, já com muitas horas de jogatina.
4 - Último show que foi? Qual? Qual? Madonna, Stick & Sweet Tour, no dia 18. High tech, lindo, fantástico, Madonna poderosa e enérgica, supreendentemente simpática e comunicativa.
5 - Reflexão do dia: Você é que se adapta às dificuldades, não elas a você.
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quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Sobre Intolerância Religiosa
Se tem um assunto que me instiga, me deixa em cima do muro e, muita vezes, extremamente irritada com as opiniões de todos os lados da questão, é religião.
Não vou ficar falando aqui do que é certo e errado em cada religião, nem estou a altura - e mesmo nem creio que alguém esteja - de poder falar isso. Mas, como observadora da mistura amarga dessa massa plural, um ímpeto de expressar os problemas que enxergo em todas elas exala dos meus dedos (rs...).
Particularmente, eu não tenho religião, embora acredite num ser maior que nós. Ele não precisa ter forma, nem consciência como a conhecemos, mas esse "ser" mantém as engrenagens desse nosso caos. Já vi ateu dizendo que esse tipo de argumenção é típico de gente que não quer admitir que não existe Deus, ou ser supremo, como for. Eu acho que o ateu que diz isso é daqueles limitados que não consegue tentar enxergar a visão do outro. Crer numa força acima de nós é porque se reflete que seria impossível a falta de algo no meio da nossa bagunça- que, por enquanto, se sustenta - e que as coisas que existem não vieram do nada. É uma visão muito abstrata, que reconhece que o humano - se já por si só não consegue ver a si mesmo - não pode se reconhecer de maneira soberana como humanidade e ser pertencente do universo. Para mim, é quase uma avalanche de prepotência negar convictamente a possibilidade dessa "força superior". Você pode fingir ou achar que não existe, mas negar é um passo tortuoso, e você pode quebrar a perna.
Independente de acreditar ou não, o respeito aos que acreditam é essencial. Em meios acadêmicos e comunidades políticas ou de "papos sérios", é comum ver gente que se acha muito inteligente menosprezando quem acredita. Muitos dos que são ateus creêm que estão "a frente de sua época" nesse quesito, são "desiludios", racionais e científicos e não precisam de religião para agir de maneira decente.
Como pessoa que já pensou que talvez fosse atéia, a superação de pedaço desse pensamento que eu também tinha, especialmente a coisa do "racional", permite-me uma avaliação mais aprofundada.
Primeiro que a idéia de "a frente da época" nunca se confirmará, porque a maneira como a ciência é feita nunca poderá provar, nem negar, conceitos abstratos como esse. Essa idéia de "só acredito no que os meus olhos vêem" é uma limitação dos racionalistas. Delimita visões, criatividade e esperança, coisas que, se não existissem, matariam a humanidade numa estagnação decrepta. O próprio Einstein alega isso.
Além disso, se o ateu acha que tem comportamento decente, ele deve isso a religião. Porque, queria ou não, a moralidade que estrutura as sociedades vem da religião. Certos pensamentos que parecem óbvios, só são óbvios porque foram enraizados nas sociedades através das crenças.
Eu, como filha de família católica, sei muito bem que muitos dos meus valores vêm da religião, por mais que eu não me considere crente dela.
As religiões tiveram papel fundamental para a sustentação da humanidade como população que se organiza em comunidade, e, mais à frente, sociedade. Quando você olha para a História da Humanidade, os humanos podiam ter cedido aos instintos mais selvagens até o fim da espécie, se não fosse a religião. Se você já acha as atrocidades dos conflitos violentos ou mesmo no próprio trato social de um humano para o outro algo bestial e calamitoso, imagine suas atitudes sem as rédeas das religiões.
É verdade que muitas vezes (e, no mundo contemporâneo, acho que pode ser considerado o maior fator), o conflito de crenças é que causam guerras e geram horrores. Mas graças a elas, não se vai até o fim que se poderia ir. Nós desconhecemos a verdadeira falta de limites, algo assustador de se imaginar, talvez impossível.
Religiões também são responsáveis por visões estreitas. Os limites imposto por escritos seculares, ou ensinamentos proféticos/messiâncos, ou até interpretações distorcidas daquilo que não tem objetivo definido são grandes entraves em discussões de moralidade e ética tanto na política quanto na ciência. Aborto, casamento gay e células-troncos são as mais evidentes, mas coisas como regeneração do meio ambiente, doação de órgãos, direito feminino, o trato dado a quem "não é da terra", a noção de fronteira, de nacionalidade, de fatalidade, auto-superação de um problema, definição de caráter, a idéia da essência humana, a psicologia por de trás do conceito de gênese divina... Tudo isso permite e pode gerar atitudes e pensamentos arrogantes, individuais, recheados de uma noção de "Deus julgará depois da morte"- que delibera uma expectativa de quando a coisa ficar preta, Deus virá com sua mão divina nos salvar- e também uma noção de legitimidade, direitos e naturalidade que ninguém realmente disse.
Pessoas religiosas guiam suas vidas, ou a maneira como vêem suas vidas, pelo seu dogma. E essa moeda tem duas faces. A boa é que, preferivelmente, ela tentará um controle sobre si mesma em nome do que a religião prega e também que conseguirá com mais facilidade uma felicidade, uma boa relação consigo mesma e o mundo.
Minha professora de canto adora isso em evangélicos. Ela dá aula para alunos pobres, e os mais comportados, disciplinados e bem-educados, ela constata, são evangélicos. Ela diz que as igrejas evangélicas, pode-se falar o que quiser, salva essas crianças e dá uma perspectiva melhor no meio da violência e do crime organizado.
A ruim é que, estando ligadas ao que sua religião prega, as pessoas -em geral, que isso esteja claro- deixam de abrir espaço para atitudes preventivas, para a criação do que pode salvar vidas, para a liberdade de se seguir o que se acredita, para se assumir suas próprias atitudes, para se reconhecer uma unidade global - uma sociedade não de brasileiros, franceses, quenianos, indianos, americanos, mas de humanos -, para permitir a todos a mesma oportunidade, para que não se espere a previdência dar um rumo a sua vida, e, sim, você mesmo, através das suas ações.
Acreditar numa religião está ligada ao meio social de cada um, e também a certos contextos da sua vida, em que a fé pode ser despertada por algum acontecimento. Como ser sem-religião, eu vejo um quê de ultrapassado na pregação religiosa. Uma religião já existente, provavelmente milenar ou com origem em ensinamentos milenares, sofre com os limites de sua idade e de suas visões. Além do mais,a sua fundamentação espiritual é tão atropelada pela material, não só nessa época, mas sempre, que tudo parece uma grande hipocrisia.
Apesar disso, sei que não é hora de "dar fim" - se isso fosse possível - às religiões. A falta da religião gera incerteza, e nem todos estão preparados para definir por si mesmos o que pode e o que não pode, ou viver sem uma perspectiva de recompensa divina ou sem amparo espiritual sólido (?). Sem religião, alguns podem criar a idéia de tudo-pode, e grande parte das pessoas entrariam numa depressão coletiva, uma tristeza típica dos ateus e dos incertos, por não saber o que é certo ou que se faz aqui nesse mundo, se algum tipo de missão ou se estamos aqui só para compor mais "poeira no universo".
Pedaçinhos das religiões compoem um pouco do que penso, embora minha moralidade esteja muito mais ligada a ideais filtrados na concepção humanista (que tem uma certa origem cristã). Todo mundo tem direito de falar e pode agir livremente desde que não prejudique ninguém (algo que não é tão simples de definir, embora para mim as nuances tenham resposta clara, afinal 'ofensas verbais', por exemplo, podem ser entendidas como muitas coisas); o Estado deve ser totalmente laico e, portanto, decide-se quando começa (e termina, no caso da eutanásia) a vida de acordo com a concepção da família, assim, não se pode proibir divergências; diferenças devem ser respeitadas e decisões importantes não podem ser tomadas sem diálogo entre idéias diferentes; sentimentos ruins tem de ser racionalizados e superados, não podem atingir outrem; a infelicidade do inocente importa e deve ser combatida; o bem comum está acima dos próprios interesses... E assim vai. Não quero ficar listando.
No plano espirtual, é difícil dizer quando algo realmente acontece e quando algo não passa de uma peça da imaginação e da inconsciência; ou quando é um desenvolvimento cerebral ou um poder especial; ou se algo estava programado para acontecer, ou se é (in)fortúnio da vida; se algo é uma vontade divina ou uma dificuldade a ser superada; se energias dão o tom de um ambiente, ou se as sensações são reações cerebrais; se depois da morte há uma uma outra vida, ou se tudo acabou para a pessoa em si... Sob o meu princípio de não negar as possibilidades, em certos momentos posso ficar muito incerta. Mas, numa necessidade de escolha, costumo optar pelo que responsabiliza o meu próprio ser, o que poderia ser chamado de "lado racional", embora para mim seja menos pelo racional do que pela idéia de contra-reação a passividade. Prefiro me sentir cética do que inativa e "fantasiosa".
Nunca vi religião perfeita. E não existe, porque idéias de certo ou errado são muito variadas, variam com a cultura, com a região, com o entendimento que cada um tem de mundo... Nunca se entrará num consenso.
Não tem resposta além de diálogo e tempo. Diálogo para as pessoas restringirem a religião a elas mesmas, porque religião devia ser algo pessoal, e tentar encontrar acordo quando os círculos pessoais se sobrepoem. E tempo para que, gradativamente, a reflexão própria tenha mais força do que o que terceiros dizem, e para a tolerância se sobressair como única solução para diferenças. Mudanças dentro das religiões só vem através de uma consciência interna, não adianta forçar a barra de ninguém atacando o que é insano, o que é mal-formulado, o que é agressivo... Essa percepção vem com um próprio balanceamento do que há e do que se faz. Bastam exemplos. Tentar convencer tende a causar uma reação contrária, pela pura negação.
Religiões e sua capacidade de mover e comover os outros me despertam muito interesse. Eu gosto de ver como várias religiões tratam certos assunstos. Gosto mais ainda das poligâmicas, que são ricas em histórias e ritos.
Fui atiçada a falar desse assunto por causa de um tópico numa comunidade do Obama no Orkut, onde alguém soltou uma teoria de ele ser o anti-cristo e, para meu espanto, a baboseira rendeu e transformou-se num dos tópicos mais comentados da comunidade, com mais de 200 posts. Só que no meio disso, a discussão tinha se transformado, já não falava mais tanto sobre a teoria e sim sobre a validade das religiões, e vi gente muito ignorante falando horrores sobre as religiões.
Além disso, a falta de respeito e o visível desinteresse em entender o outro quando se fala de religião sempre me deixa aborrecida. Como membro da "sociedade judaico-cristã ocidental", sempre ouçou desaforos aos muçulmanos. E como eu gosto de ficar do lado das minorias, ou de entendê-las, eu adoro ler o "lado bom" dos muçulmanos, como contra-ponto ao que se ouve, para formar minha própria opinião. O fascínio cresceu tanto que um dos meus candidatos mais fortes para assunto de pós-graduação é o Oriente Médio.
Para suplementar o caldo de razões que me fazem falar dessa questão, também tem minhas aulas de História da África, que me deram um acesso maior as concepções religiosas africanas, que são ricas e têm muito a nos ensinar.
Isso me faz lembrar... Para os que também são adeptos do, como diria o Orkut, "lado espiritual independente de religiões", leituras e estudos sobre essas religiões menores são ótimos. Sua sopa amálgama ficará muito nutritiva! Bom, para quem gosta de cultura também serve...
* Triunfo Eucarístico (-q?)*
1- O que está ouvindo? At last - Etta James. Na nova fase de estudos musicais, agora com o Blues.
2- Último vídeo? Mi casa, sua casa. Charge sobre a visita do Obama à Casa Branca.
3 - Último filme no cinema? Jogos Mortais V, no Halloween... Hum... Terror não é nem de longe meu gênero favorito, mas eu gosto do suspense e do roteiro inteligente.
4- Última coisa que comeu? Sucrilhos Snow Flakes, a mais de 4 horas atrás XDDDD
5- Reflexão do dia: Diálogo e auto-controle é resposta para tudo, mas não é fácil.
Não vou ficar falando aqui do que é certo e errado em cada religião, nem estou a altura - e mesmo nem creio que alguém esteja - de poder falar isso. Mas, como observadora da mistura amarga dessa massa plural, um ímpeto de expressar os problemas que enxergo em todas elas exala dos meus dedos (rs...).
Particularmente, eu não tenho religião, embora acredite num ser maior que nós. Ele não precisa ter forma, nem consciência como a conhecemos, mas esse "ser" mantém as engrenagens desse nosso caos. Já vi ateu dizendo que esse tipo de argumenção é típico de gente que não quer admitir que não existe Deus, ou ser supremo, como for. Eu acho que o ateu que diz isso é daqueles limitados que não consegue tentar enxergar a visão do outro. Crer numa força acima de nós é porque se reflete que seria impossível a falta de algo no meio da nossa bagunça- que, por enquanto, se sustenta - e que as coisas que existem não vieram do nada. É uma visão muito abstrata, que reconhece que o humano - se já por si só não consegue ver a si mesmo - não pode se reconhecer de maneira soberana como humanidade e ser pertencente do universo. Para mim, é quase uma avalanche de prepotência negar convictamente a possibilidade dessa "força superior". Você pode fingir ou achar que não existe, mas negar é um passo tortuoso, e você pode quebrar a perna.
Independente de acreditar ou não, o respeito aos que acreditam é essencial. Em meios acadêmicos e comunidades políticas ou de "papos sérios", é comum ver gente que se acha muito inteligente menosprezando quem acredita. Muitos dos que são ateus creêm que estão "a frente de sua época" nesse quesito, são "desiludios", racionais e científicos e não precisam de religião para agir de maneira decente.
Como pessoa que já pensou que talvez fosse atéia, a superação de pedaço desse pensamento que eu também tinha, especialmente a coisa do "racional", permite-me uma avaliação mais aprofundada.
Primeiro que a idéia de "a frente da época" nunca se confirmará, porque a maneira como a ciência é feita nunca poderá provar, nem negar, conceitos abstratos como esse. Essa idéia de "só acredito no que os meus olhos vêem" é uma limitação dos racionalistas. Delimita visões, criatividade e esperança, coisas que, se não existissem, matariam a humanidade numa estagnação decrepta. O próprio Einstein alega isso.
Além disso, se o ateu acha que tem comportamento decente, ele deve isso a religião. Porque, queria ou não, a moralidade que estrutura as sociedades vem da religião. Certos pensamentos que parecem óbvios, só são óbvios porque foram enraizados nas sociedades através das crenças.
Eu, como filha de família católica, sei muito bem que muitos dos meus valores vêm da religião, por mais que eu não me considere crente dela.
As religiões tiveram papel fundamental para a sustentação da humanidade como população que se organiza em comunidade, e, mais à frente, sociedade. Quando você olha para a História da Humanidade, os humanos podiam ter cedido aos instintos mais selvagens até o fim da espécie, se não fosse a religião. Se você já acha as atrocidades dos conflitos violentos ou mesmo no próprio trato social de um humano para o outro algo bestial e calamitoso, imagine suas atitudes sem as rédeas das religiões.
É verdade que muitas vezes (e, no mundo contemporâneo, acho que pode ser considerado o maior fator), o conflito de crenças é que causam guerras e geram horrores. Mas graças a elas, não se vai até o fim que se poderia ir. Nós desconhecemos a verdadeira falta de limites, algo assustador de se imaginar, talvez impossível.
Religiões também são responsáveis por visões estreitas. Os limites imposto por escritos seculares, ou ensinamentos proféticos/messiâncos, ou até interpretações distorcidas daquilo que não tem objetivo definido são grandes entraves em discussões de moralidade e ética tanto na política quanto na ciência. Aborto, casamento gay e células-troncos são as mais evidentes, mas coisas como regeneração do meio ambiente, doação de órgãos, direito feminino, o trato dado a quem "não é da terra", a noção de fronteira, de nacionalidade, de fatalidade, auto-superação de um problema, definição de caráter, a idéia da essência humana, a psicologia por de trás do conceito de gênese divina... Tudo isso permite e pode gerar atitudes e pensamentos arrogantes, individuais, recheados de uma noção de "Deus julgará depois da morte"- que delibera uma expectativa de quando a coisa ficar preta, Deus virá com sua mão divina nos salvar- e também uma noção de legitimidade, direitos e naturalidade que ninguém realmente disse.
Pessoas religiosas guiam suas vidas, ou a maneira como vêem suas vidas, pelo seu dogma. E essa moeda tem duas faces. A boa é que, preferivelmente, ela tentará um controle sobre si mesma em nome do que a religião prega e também que conseguirá com mais facilidade uma felicidade, uma boa relação consigo mesma e o mundo.
Minha professora de canto adora isso em evangélicos. Ela dá aula para alunos pobres, e os mais comportados, disciplinados e bem-educados, ela constata, são evangélicos. Ela diz que as igrejas evangélicas, pode-se falar o que quiser, salva essas crianças e dá uma perspectiva melhor no meio da violência e do crime organizado.
A ruim é que, estando ligadas ao que sua religião prega, as pessoas -em geral, que isso esteja claro- deixam de abrir espaço para atitudes preventivas, para a criação do que pode salvar vidas, para a liberdade de se seguir o que se acredita, para se assumir suas próprias atitudes, para se reconhecer uma unidade global - uma sociedade não de brasileiros, franceses, quenianos, indianos, americanos, mas de humanos -, para permitir a todos a mesma oportunidade, para que não se espere a previdência dar um rumo a sua vida, e, sim, você mesmo, através das suas ações.
Acreditar numa religião está ligada ao meio social de cada um, e também a certos contextos da sua vida, em que a fé pode ser despertada por algum acontecimento. Como ser sem-religião, eu vejo um quê de ultrapassado na pregação religiosa. Uma religião já existente, provavelmente milenar ou com origem em ensinamentos milenares, sofre com os limites de sua idade e de suas visões. Além do mais,a sua fundamentação espiritual é tão atropelada pela material, não só nessa época, mas sempre, que tudo parece uma grande hipocrisia.
Apesar disso, sei que não é hora de "dar fim" - se isso fosse possível - às religiões. A falta da religião gera incerteza, e nem todos estão preparados para definir por si mesmos o que pode e o que não pode, ou viver sem uma perspectiva de recompensa divina ou sem amparo espiritual sólido (?). Sem religião, alguns podem criar a idéia de tudo-pode, e grande parte das pessoas entrariam numa depressão coletiva, uma tristeza típica dos ateus e dos incertos, por não saber o que é certo ou que se faz aqui nesse mundo, se algum tipo de missão ou se estamos aqui só para compor mais "poeira no universo".
Pedaçinhos das religiões compoem um pouco do que penso, embora minha moralidade esteja muito mais ligada a ideais filtrados na concepção humanista (que tem uma certa origem cristã). Todo mundo tem direito de falar e pode agir livremente desde que não prejudique ninguém (algo que não é tão simples de definir, embora para mim as nuances tenham resposta clara, afinal 'ofensas verbais', por exemplo, podem ser entendidas como muitas coisas); o Estado deve ser totalmente laico e, portanto, decide-se quando começa (e termina, no caso da eutanásia) a vida de acordo com a concepção da família, assim, não se pode proibir divergências; diferenças devem ser respeitadas e decisões importantes não podem ser tomadas sem diálogo entre idéias diferentes; sentimentos ruins tem de ser racionalizados e superados, não podem atingir outrem; a infelicidade do inocente importa e deve ser combatida; o bem comum está acima dos próprios interesses... E assim vai. Não quero ficar listando.
No plano espirtual, é difícil dizer quando algo realmente acontece e quando algo não passa de uma peça da imaginação e da inconsciência; ou quando é um desenvolvimento cerebral ou um poder especial; ou se algo estava programado para acontecer, ou se é (in)fortúnio da vida; se algo é uma vontade divina ou uma dificuldade a ser superada; se energias dão o tom de um ambiente, ou se as sensações são reações cerebrais; se depois da morte há uma uma outra vida, ou se tudo acabou para a pessoa em si... Sob o meu princípio de não negar as possibilidades, em certos momentos posso ficar muito incerta. Mas, numa necessidade de escolha, costumo optar pelo que responsabiliza o meu próprio ser, o que poderia ser chamado de "lado racional", embora para mim seja menos pelo racional do que pela idéia de contra-reação a passividade. Prefiro me sentir cética do que inativa e "fantasiosa".
Nunca vi religião perfeita. E não existe, porque idéias de certo ou errado são muito variadas, variam com a cultura, com a região, com o entendimento que cada um tem de mundo... Nunca se entrará num consenso.
Não tem resposta além de diálogo e tempo. Diálogo para as pessoas restringirem a religião a elas mesmas, porque religião devia ser algo pessoal, e tentar encontrar acordo quando os círculos pessoais se sobrepoem. E tempo para que, gradativamente, a reflexão própria tenha mais força do que o que terceiros dizem, e para a tolerância se sobressair como única solução para diferenças. Mudanças dentro das religiões só vem através de uma consciência interna, não adianta forçar a barra de ninguém atacando o que é insano, o que é mal-formulado, o que é agressivo... Essa percepção vem com um próprio balanceamento do que há e do que se faz. Bastam exemplos. Tentar convencer tende a causar uma reação contrária, pela pura negação.
Religiões e sua capacidade de mover e comover os outros me despertam muito interesse. Eu gosto de ver como várias religiões tratam certos assunstos. Gosto mais ainda das poligâmicas, que são ricas em histórias e ritos.
Fui atiçada a falar desse assunto por causa de um tópico numa comunidade do Obama no Orkut, onde alguém soltou uma teoria de ele ser o anti-cristo e, para meu espanto, a baboseira rendeu e transformou-se num dos tópicos mais comentados da comunidade, com mais de 200 posts. Só que no meio disso, a discussão tinha se transformado, já não falava mais tanto sobre a teoria e sim sobre a validade das religiões, e vi gente muito ignorante falando horrores sobre as religiões.
Além disso, a falta de respeito e o visível desinteresse em entender o outro quando se fala de religião sempre me deixa aborrecida. Como membro da "sociedade judaico-cristã ocidental", sempre ouçou desaforos aos muçulmanos. E como eu gosto de ficar do lado das minorias, ou de entendê-las, eu adoro ler o "lado bom" dos muçulmanos, como contra-ponto ao que se ouve, para formar minha própria opinião. O fascínio cresceu tanto que um dos meus candidatos mais fortes para assunto de pós-graduação é o Oriente Médio.
Para suplementar o caldo de razões que me fazem falar dessa questão, também tem minhas aulas de História da África, que me deram um acesso maior as concepções religiosas africanas, que são ricas e têm muito a nos ensinar.
Isso me faz lembrar... Para os que também são adeptos do, como diria o Orkut, "lado espiritual independente de religiões", leituras e estudos sobre essas religiões menores são ótimos. Sua sopa amálgama ficará muito nutritiva! Bom, para quem gosta de cultura também serve...
* Triunfo Eucarístico (-q?)*
1- O que está ouvindo? At last - Etta James. Na nova fase de estudos musicais, agora com o Blues.
2- Último vídeo? Mi casa, sua casa. Charge sobre a visita do Obama à Casa Branca.
3 - Último filme no cinema? Jogos Mortais V, no Halloween... Hum... Terror não é nem de longe meu gênero favorito, mas eu gosto do suspense e do roteiro inteligente.
4- Última coisa que comeu? Sucrilhos Snow Flakes, a mais de 4 horas atrás XDDDD
5- Reflexão do dia: Diálogo e auto-controle é resposta para tudo, mas não é fácil.
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quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Yes, We can

O que se viu terça/quarta na política americana provavelmente fará parte do conteúdo de História que darei daqui uns 15, 20 anos.
Um cara que a dezenove meses atrás era uma zebra inexpreesiva no Partido Democrata, tornou-se presidente dos Estados Unidos da América. Alguém que foi impulsionado por pequenos apoios via internet de forma inédita, alguém que só tem um mandato como senador, alguém que combateu e venceu um nome de peso como Hillary Clinton, alguém cujo pai era um imigrante queniano que foi embora deixando sua a mãe, uma branca do centro-oeste sulista americano, para criá-lo sozinha, sem seu apoio, alguém que, por sinal, é negro (ou mestiço, em termos brasileiros. Mas, para o americano, cutis escura é negro).
Barack Hussein Obama, analisam os cientistas políticos, ganhou, pragmaticamente, pelo fracasso da Era Bush e pela crise econômica. Mas, como os especialistas reconhecem também, elevou-se por sua habilidade retórica, sua inteligência e bagagem intelectual e suas idéias.
Política nos EUA se faz no gogó ( e no dinheiro). Vota-se mesmo por propostas, ideais e uma boa retórica, não por camiseta, boné e populismo.

Obama é uma voz (linda, por sinal... rs) que há tempos os EUA precisavam. Alguém que defendesse minorias, paz, diplomacia, igualdade, integração, ecologia e ponderação. Infelizmente, o que no mundo daria em torno de 85%, nos EUA deu cerca de 53% na escolha de Obama como presidente. Reflexo dos assustadores "red-neckers" (aquele americano tido como típico, de pouca escolaridade, que trabalha no campo e acha que a arma é sua melhor amiga), militares belicistas e ultra-conservadores e do medo que se cultivou durante a Era Bush quanto ao terrorismo.
Foram 8 anos de Bush com ode ao velho "direito de se defender" tendo escopetas em casa, com o ódio ao árabe, com a crença quase que ingênua de que deixar o mercado se regular é um bom negócio, com a rejeição à culpa humana sobre aquecimento global, com a rejeição à cienticamente comprovada evolução das espécies de Darwin.
Obama não vai fazer magia. E a política, infelizmente, força você a falar coisas que você sabe que não serão bem assim, porque o povo gosta de se iludir. Obama sabe que a crise econômica vai exigir sacrifícos, mas só usou essa palavra em seu discurso de vitória. Se tivesse dito antes, as pessoas não iam gostar, e podia lhe ameaçar votos. Mas a redução de impostos para 95% da população no meio de uma crise, mesmo que ele tenha a intenção de fazer durante o seu mandato, não será rápida. Bush deixou-lhe com um belo buraco nas contas públicas, e ele vai ter que manejar isso, conter a crise e garantir um crescimento pelo menos no final de seu mandato.
Barack usou muito da internet, e acho que ele continuará fazendo isso na presidência. Uma transparência sobre o que ele faz e o que está tentando fazer. Algo inédito, renderá maior aproximação da população com o presidente. Um recurso útil, popular e moderno, devia ser copiado por todos os chefes de Estado.A empolgação com o Obama pela mundo tem origem clara: o multilateralismo garantido. Um item que esteve sempe presente nas atitudes e palavras dele, que acompanhou sua história de garoto metiço criado por brancos, que viveu boa parte de infância e adolescência na Indonésia e no Havaí, que tem família no Quênia, que estudou duas faculdades, uma delas Direito em Harvard... O currículo de Obama é "inusitado".
Seus ideais progressistas de diálogo e igualdade são um verdadeiro contraste com a Doutrina Bush, arrogante, de olhos apenas em seu umbigo, ignorando opiniões mundiais e a ciência.
Não importa o que Obama faça, não será pior que Bush, e isso é um alivio.
Mas isso até o McCain. Não é nada difícil ser melhor que o Bush.
Espero que não haja desilusão. Não creio nisso.
Estou depositando tanta confiança em atitudes decentes do Obama que entraria em depressão se ele fizesse algo horroroso e incompreensível, um quadro quase inimaginável.Porém, não se pode esquecer: Obama é o presidente americano, não do mundo. E ele tem de - e deve - se focar nos interesses americanos internos, que não atropelam outros países, mas que talvez afaste-o de se comprometer com assuntos dos outros. Não espero que ele melhore comércio com o Brasil, compre etanol ou coisas desse tipo. Não estou interessada se ele tem planos para o Brasil,desde que não sejam ruins (e duvido que haveria). Estou interessada na mensagem que ele dá ao mundo. Me basta.
Ele tem que resolver os abacaxis (uma quitanda) da crise e das guerras no Oriente Médio. No meio disso, saúde, educação e energia limpa. Todos problemas enormes, e que vão atrapalhar as intenções dele.
Ele provavelmente não vai conseguir tirar as tropas do Iraque em 16 meses com segurança e "honra". Será mais lento. E uma estrutura de formação de segurança nacional própria iraquiana é uma obrigação dos EUA. Isso leva tempo para ser sólido. E só é essa solidez daria uma "vitória", sugerida pelo McCain (dentro dos padrões de uma guerra sem razão e altamente destrutiva).
Ele não resolverá a crise de uma hora para a outra, e ela será sua maior pedra no sapato para qualquer ação social ampla que ele planejasse. Ele vai ter, para horror de quem esperava mesmo que ele fosse um socialista (ele é americano e sensato, mesmo que algumas idéias o agradem, ele sabe que não dá para algo radical atualmente), que estimular o mercado e dar impulso para ele acima de tudo, embora ele também deva tentar sustentar um certo consumo pela população, para que a economia gire.
Como disseram uns especialistas, os primeiros 100 dias de Obama devem ser pautados por medidas simbólicas e que ele pode fazer a curto prazo. Como assinar o protocolo de Kyoto, conversar com Cuba e talvez acabar com o embargo, fazer algum discurso de cumplicidade com a ONU (ignorada por Bush na invasão ao Iraque e mantida afastada como orgão influente nas atitudes americanas), iniciar incentivos para projetos de energia limpa (algo que pode ser uma das suas armas contra crise, já que gerará empregos e tem retorno garantido financeiramente para empresas)... Qualquer que coisa que mostre o quão ele é diferente de Bush, que mostre mudança, como ele se vendeu em sua campanha, garantirá um ânimo da população em torno dele enquanto ele tenta dar conta dos processos lentos.Resta-nos sentar e esperar. Bom, menos os economistas e acionários, que estão loucos para saber quem comporá a equipe econômica, que já atuará antes de Obama ter a posse, dada a gravidade. E o Bush, decrepto, finaliza seu mandato sumido, apagado, rejeitado e sem expressão. Ele, o atual presidente da (ainda) maior potência do mundo. Volte a inspirar esperança, Estados Unidos, é melhor do que esse lixo conservador.
"É a resposta de jovens e idosos, ricos e pobres, democratas e republicanos, negros, brancos, hispânicos, asiáticos, índios, gays, heterossexuais, deficientes e não-deficientes. Americanos que enviaram uma mensagem ao mundo de que nós nunca fomos somente uma coleção de indivíduos ou uma coleção de Estados vermelhos e azuis. Nós somos, e sempre seremos, os Estados Unidos da América."
"E a todos aqueles que nos assistem nesta noite, além das nossas fronteiras, de Parlamentos e palácios, àqueles que se reúnem ao redor de rádios, nas esquinas esquecidas do mundo, as nossas histórias são únicas, mas o nosso destino é partilhado, e uma nova aurora na liderança americana irá surgir"
"Esse é nosso momento de devolver as pessoas ao trabalho e abrir portas de oportunidade para nossas crianças; de restaurar a prosperidade e promover a paz; de retomar o sonho americano e reafirmar a verdade fundamental de que, entre tantos, nós somos um; que, enquanto respirarmos, nós temos esperança. E onde estamos vai de encontro ao cinismo, às dúvidas e àqueles que dizem que não podemos. Nós responderemos com o brado atemporal que resume o espírito de um povo: Sim, nós podemos. "
Barack Hussein Obama Jr., Grant Park, Chicago, Illinois, 4 de novembro de 2008.

*Of course we can*
1 - Música que está ouvindo? Hurt- Christina Aguilera
2- Último video? Repetidamente, apesar de ter visto ao vivo, o discurso de Obama. Parte I. Parte II. (transcrição em português aqui - não é a mesma coisa sem a voz, as pausas e os gritos, mas...)
3- Livro que está lendo? Visões do Paraíso - Sérgio Buarque de Hollanda. Faculdade consumindo meu divertimento intelectual.
4 - O que devia estar fazendo agora? Dormindo, ou ao menos minha redação de inglês que vai se atrasar.
5 - Reflexão do Dia: Estou cansada de pieguices nacionalistas. O que acontece nos EUA e sua política fazem toda a diferença no mundo. Na verde, em todos os países, mas nos EUA a gente sente com mais força, expansão e mais diretamente.
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008
A hora de votar
Ontem ocorreram as eleições de segundo turno, que nem houve aqui em Santos, e, ao invés de me dedicar a um trabalho que precisa ser urgentemente feito, fiquei acompanhando as notícias e as análises políticas na Globo News. Como ser que se envolve apartidariamente em política desde as eleições presidenciais de 1998, - obviamente não com o mesmo rigor e senso crítico próprio, afinal uma criança de 8 anos é claramente guiada pelo pais - tive duas sensações. Uma de que não é muito difícil ser cientista político para fazer análises, salvo raras exceções, e outra de que ainda não dá para destinguir, na turva água da diferença entre o que se diz e a realidade, a verdade quando se comenta que o povo brasileiro está se engajando mais no processo político.
Particularmente, por mais que tenha interesse na força e importância da política sobre as nossas vidas, ardor real na defesa de candidatos brasileiros (porque tive outros dois mundo a fora, o já percebido entusiamo pelo Obama e a torcida, de alguém que estava de olho no seu intercâmbio à França, pela Ségoléne Royal, que perdeu do Sarkozy) eu só tive em 3 momentos, sendo que dois eu não podia me expressar:
- O primeiro, muito influenciada pela família, foi a eleição de Lula em 2002, quando o PT e ele ainda significavam mudança e o histórico de lutas sociais contava para alguma coisa, uma ética (rs...). Mas eu só tinha 12 anos, então não precisei chorar as magoas do mensalão, ainda que muito decepcionada.
- O segundo, que é o que mais me orgulho e pude fazer algo, foram nas eleições presidenciais passadas, em 2006, ano que fiz meu título com 16 anos para ajudar a decidir o destino do país. Votei no Cristóvão Buarque, que tinha a plataforma dos sonhos de qualquer um que enxerga a Educação como o grande instrumento de mudança social no Brasil. Por mais que a porcentagem dele não tenha chegado nem aos 3%, e eu sabia que isso aconteceria, eu votei no que acredito, com muita convicção do correto, e não tem coisa mais deliciosa na política do que um momento como esse. Não importam pesquisas, não importa expressividade política. Quando se vota, a gente tem que pensar no que condiz com a nossa ética, nossas ideologias, no que acreditamos que é melhor, seja lá o que você considera melhor. É o que dá a real diversidade, e o que realmente expressa os desejos do povo. Votar por votar dá no que dá: gente incompetente, gente de olho na bufunfa que político ganha, não na importância de seu papel na sociedade, gente mal-caráter, gente perdida que fica criando Dia do não-sei-o-quê só para dizer que fez algo...
- E o outro foi nessas eleições. Mas não foi aqui na minha cidade, onde a reeleição de um prefeito que foi razoável era evidente, e eu mesma acabei votando nele por falta de opções decentes. Afinal, a criatura que tinha o melhor projeto para educação, saúde e cultura, que são minhas prioridades na hora de analisar, e que estava num dos poucos partidos que realmente simpatizo, que é o PSB, tinha um vice-prefeito que mais atrapalhava do que ajudava politicamente. Bom, pelo menos a situação de Santos era melhor do que a pobre São Paulo, que teve que escolher entre DEM ou PT, com duas figuronas de torcer o rosto. Não, o meu terceiro ardor vinha do Rio de Janeiro. Cheguei a brincar que mudaria meu título de eleitor (algo que não dá, para os desinformados) só para votar no Gabeira. Alguém como o Gabeira é um tipo de político que as pessoas almejam no Brasil: ético, transparente, culto, progressista, com trajetória de coerência invejável. Mesmo nas eleições de 2006, eu queria ter alguém como o Gabeira para votar em deputado federal. Votei na sigla do PV, que é um partido pequeno nacionalmente e, de acordo com as emendas de um protótipo de reforma política, podia ter sido cortado da limpa que estavam tentando fazer nas câmaras.
Apesar da vitória apertada do Paes, o simple fato é um índicio que não há maturidade política no Brasil ainda. Um cara que fez o que fez, ainda mais diante de alguém como o Gabeira, ganhar é quase um ultraje a própria população.
Atacou sujamente, usou da máquina governamental para se promover, trocou de partidos com gritantes diferenças ideológicas inúmeras vezes, fez propostas grandiloquentes sem ponderação, boa parte delas imediatista e dificil realização concreta, cabos eleitorais seus praticamente compraram votos... Enquanto o Gabeira manteve sua oposição ao governo (coisa que o Paes energeticamente foi há não muito tempo atrás), não por birra partidária, mas por ideologia, restringiu sua campanha em nome de algo que ele acredita, que é a preservação do meio ambiente, a chamada pelos analistas 'campanha limpa', estudou projetos de outros países para tentar aplicá-los na cidade de acordo com sua realidade, deixou clara as limitações de seu poder - entre o que se quer e o que se pode fazer-, tudo muito moderado, e de foco social. Política como tem que ser no Brasil.
Mas as pessoas ainda votam por carisma, por ilusões, pelo imediato, pela vantagem individual, pelo temor da dúvida envenenada por palavras sujas (sem nem ao menos tentar descobrir se é verdade mesmo, algo que a mídia, ao menos isso, costuma esclarecer), pelo que mais tem seu rosto exposto...
Não sei da onde esses cientistas políticos e o TSE tiram que o eleitor está mais ativo. Eles falam de entusiasmo, mas o entusiasmo que eu vejo não é muito diferente do de antes. E a seletividade do eleitor também, os resultados provam, continua a mesma. Talvez a única coisa que realmente esteja evoluindo é um senso de importância no ato do voto. A atenção que é dada a essa importância é questionável, mas ainda assim a idéia de importância parecer estar mais concreta. O brasileiro sabe que seu voto é um poder, com mais clareza do antigamente, por mais que ainda não honre esse poder.
A diferença da consciência política entre as classes mais baixas e os "mais esclarecidos" diminuiu, não como devia, nem como poderia, mas diminuiu, é fato. E isso é ruim. Não porque o pobre entende melhor, essa é a parte boa. Mas porque mesmo entre a camada e que devia ser "mais esclarecida", a atenção dada ao poder de votar é fraca. Basta ver a abstenção do Rio, mais de 20%. As pessoas preferiram viajar, no lugar de votar (nem especulo teorias da conspiração quanto a intenção do governador de provocar isso). Eu estou do lado de quem acredita que elas poderiam ter mudado o cenário político carioca, afinal, grande parte dos viajantes é da camada que tendia para Gabeira (em números: mais de 900 mil abstenções, sendo que foi por volta de 50 mil a diferença entre Paes e Gabeira). Três dias de sol valem 4 anos na mão de alguém com caráter duvidoso?
Enquanto a atenção não for devida, eu defendo o voto obrigatório. Voto livre é para países em que sua população sabe e sente de verdade o valor de seu voto, pelo menos a sua maioria expressiva. E aqui poderiam até dizer que é uma incoerência minha, afinal, a parte que mais deixaria de votar seriam os pobres, ou seja, aqueles cuja maioria não tem senso crítico, "não sabem votar". Mas meu problema não é nem de longe com o pobre, é até um insulto me dizer isso. Livrar-se do "fardo" do voto despreparado do pobre é elitizar a democracia, deixando-a na posição confortável de ser considerada como tal, por ser para todos, mas essencialmente oligarquica, porque os insatisfeitos com as decisões ignorantes não precisam mais se preocupar em educar o pobre a votar, o que criaria um ciclo vicioso de pobre que ignora seu voto e governo que não está interessado em melhorar sua ignorância.
O crescimento da noção de importância do voto certamente é um ótimo passo. Para um desenvolvimento efetivo, falta a boa e velha Educação.
Mesmo para quem não é pobre, a senso crítico é raquítico. A configuração da Educação no Brasil, voltada para o Vestibular, não exige mais do que um senso crítico suficiente para escrever uma dissertação meia-boca. Aos que já passaram da idade de serem educados formalmente, ou melhor, que já têm seu diploma como tal, um conselho: auto-eduque-se. Leia e veja jornal, acompanhe as coisas, anote acertos e erros dos políticos que vão aparecendo, caso você tenha uma certa dificuldade com a memória. Tudo em nome de um voto decente. Porque um voto não é só a escolha de um(a) carinha, de um partido, de números. Você já está cansado de ouvir isso nas propagandas do governo: ele decide a sua vida prática e de toda uma população nos próximos 4 anos. Ele decide como as crianças na sua cidade serão estimuladas a estudar, como serão as condições dos postos de saúde, como estarão as ruas, como será seu poder de renda...
Os que vão compor a câmara são seus melhores representantes. O poder legislativo tem que ter a mesma atenção que se dá ao executivo. Se você quer uma melhoria específica, é com ele que você falará. É ele também que permite ou não se o executivo fará seus projetos. Se você votar em alguém que segue uma linha lógica e ideológica semelhante a sua, ele de fato será sua voz.
Chega de abafamento, de silêncio, de desafinadade entre política e interesse público. Não fique reclamando da política, o problema dela são os políticos que são eleitos. E sempre tem alguém decente no meio de cobras, mas tem que se dar o trabalho de querer identificar.
*"Que é pro mundo ficar Odara"*
1- O que está ouvindo? Odara- Caetano Veloso
2- O último filme em DVD? - Deu a louca no Mundo, Stanley Kramer, 1963. Pastelão over, mas me prendeu XD
3- Último filme na TV? Lado a Lado, com Julia Roberts e Susan Saradon. Tão bonito! Sou meio suspeita, gosto de personagens maternos. Susan arrasando.
4- O último vídeo? Cirque du sou eu - Charge antiguinha que achei entre uma linha de charges relacionadas às atuais. Ótima e até combina com o tema de hoje.
5 - Reflexão do Dia: Os problemas da política são seus políticos e seu povo.
Particularmente, por mais que tenha interesse na força e importância da política sobre as nossas vidas, ardor real na defesa de candidatos brasileiros (porque tive outros dois mundo a fora, o já percebido entusiamo pelo Obama e a torcida, de alguém que estava de olho no seu intercâmbio à França, pela Ségoléne Royal, que perdeu do Sarkozy) eu só tive em 3 momentos, sendo que dois eu não podia me expressar:
- O primeiro, muito influenciada pela família, foi a eleição de Lula em 2002, quando o PT e ele ainda significavam mudança e o histórico de lutas sociais contava para alguma coisa, uma ética (rs...). Mas eu só tinha 12 anos, então não precisei chorar as magoas do mensalão, ainda que muito decepcionada.
- O segundo, que é o que mais me orgulho e pude fazer algo, foram nas eleições presidenciais passadas, em 2006, ano que fiz meu título com 16 anos para ajudar a decidir o destino do país. Votei no Cristóvão Buarque, que tinha a plataforma dos sonhos de qualquer um que enxerga a Educação como o grande instrumento de mudança social no Brasil. Por mais que a porcentagem dele não tenha chegado nem aos 3%, e eu sabia que isso aconteceria, eu votei no que acredito, com muita convicção do correto, e não tem coisa mais deliciosa na política do que um momento como esse. Não importam pesquisas, não importa expressividade política. Quando se vota, a gente tem que pensar no que condiz com a nossa ética, nossas ideologias, no que acreditamos que é melhor, seja lá o que você considera melhor. É o que dá a real diversidade, e o que realmente expressa os desejos do povo. Votar por votar dá no que dá: gente incompetente, gente de olho na bufunfa que político ganha, não na importância de seu papel na sociedade, gente mal-caráter, gente perdida que fica criando Dia do não-sei-o-quê só para dizer que fez algo...
- E o outro foi nessas eleições. Mas não foi aqui na minha cidade, onde a reeleição de um prefeito que foi razoável era evidente, e eu mesma acabei votando nele por falta de opções decentes. Afinal, a criatura que tinha o melhor projeto para educação, saúde e cultura, que são minhas prioridades na hora de analisar, e que estava num dos poucos partidos que realmente simpatizo, que é o PSB, tinha um vice-prefeito que mais atrapalhava do que ajudava politicamente. Bom, pelo menos a situação de Santos era melhor do que a pobre São Paulo, que teve que escolher entre DEM ou PT, com duas figuronas de torcer o rosto. Não, o meu terceiro ardor vinha do Rio de Janeiro. Cheguei a brincar que mudaria meu título de eleitor (algo que não dá, para os desinformados) só para votar no Gabeira. Alguém como o Gabeira é um tipo de político que as pessoas almejam no Brasil: ético, transparente, culto, progressista, com trajetória de coerência invejável. Mesmo nas eleições de 2006, eu queria ter alguém como o Gabeira para votar em deputado federal. Votei na sigla do PV, que é um partido pequeno nacionalmente e, de acordo com as emendas de um protótipo de reforma política, podia ter sido cortado da limpa que estavam tentando fazer nas câmaras.
Apesar da vitória apertada do Paes, o simple fato é um índicio que não há maturidade política no Brasil ainda. Um cara que fez o que fez, ainda mais diante de alguém como o Gabeira, ganhar é quase um ultraje a própria população.
Atacou sujamente, usou da máquina governamental para se promover, trocou de partidos com gritantes diferenças ideológicas inúmeras vezes, fez propostas grandiloquentes sem ponderação, boa parte delas imediatista e dificil realização concreta, cabos eleitorais seus praticamente compraram votos... Enquanto o Gabeira manteve sua oposição ao governo (coisa que o Paes energeticamente foi há não muito tempo atrás), não por birra partidária, mas por ideologia, restringiu sua campanha em nome de algo que ele acredita, que é a preservação do meio ambiente, a chamada pelos analistas 'campanha limpa', estudou projetos de outros países para tentar aplicá-los na cidade de acordo com sua realidade, deixou clara as limitações de seu poder - entre o que se quer e o que se pode fazer-, tudo muito moderado, e de foco social. Política como tem que ser no Brasil.
Mas as pessoas ainda votam por carisma, por ilusões, pelo imediato, pela vantagem individual, pelo temor da dúvida envenenada por palavras sujas (sem nem ao menos tentar descobrir se é verdade mesmo, algo que a mídia, ao menos isso, costuma esclarecer), pelo que mais tem seu rosto exposto...
Não sei da onde esses cientistas políticos e o TSE tiram que o eleitor está mais ativo. Eles falam de entusiasmo, mas o entusiasmo que eu vejo não é muito diferente do de antes. E a seletividade do eleitor também, os resultados provam, continua a mesma. Talvez a única coisa que realmente esteja evoluindo é um senso de importância no ato do voto. A atenção que é dada a essa importância é questionável, mas ainda assim a idéia de importância parecer estar mais concreta. O brasileiro sabe que seu voto é um poder, com mais clareza do antigamente, por mais que ainda não honre esse poder.
A diferença da consciência política entre as classes mais baixas e os "mais esclarecidos" diminuiu, não como devia, nem como poderia, mas diminuiu, é fato. E isso é ruim. Não porque o pobre entende melhor, essa é a parte boa. Mas porque mesmo entre a camada e que devia ser "mais esclarecida", a atenção dada ao poder de votar é fraca. Basta ver a abstenção do Rio, mais de 20%. As pessoas preferiram viajar, no lugar de votar (nem especulo teorias da conspiração quanto a intenção do governador de provocar isso). Eu estou do lado de quem acredita que elas poderiam ter mudado o cenário político carioca, afinal, grande parte dos viajantes é da camada que tendia para Gabeira (em números: mais de 900 mil abstenções, sendo que foi por volta de 50 mil a diferença entre Paes e Gabeira). Três dias de sol valem 4 anos na mão de alguém com caráter duvidoso?
Enquanto a atenção não for devida, eu defendo o voto obrigatório. Voto livre é para países em que sua população sabe e sente de verdade o valor de seu voto, pelo menos a sua maioria expressiva. E aqui poderiam até dizer que é uma incoerência minha, afinal, a parte que mais deixaria de votar seriam os pobres, ou seja, aqueles cuja maioria não tem senso crítico, "não sabem votar". Mas meu problema não é nem de longe com o pobre, é até um insulto me dizer isso. Livrar-se do "fardo" do voto despreparado do pobre é elitizar a democracia, deixando-a na posição confortável de ser considerada como tal, por ser para todos, mas essencialmente oligarquica, porque os insatisfeitos com as decisões ignorantes não precisam mais se preocupar em educar o pobre a votar, o que criaria um ciclo vicioso de pobre que ignora seu voto e governo que não está interessado em melhorar sua ignorância.
O crescimento da noção de importância do voto certamente é um ótimo passo. Para um desenvolvimento efetivo, falta a boa e velha Educação.
Mesmo para quem não é pobre, a senso crítico é raquítico. A configuração da Educação no Brasil, voltada para o Vestibular, não exige mais do que um senso crítico suficiente para escrever uma dissertação meia-boca. Aos que já passaram da idade de serem educados formalmente, ou melhor, que já têm seu diploma como tal, um conselho: auto-eduque-se. Leia e veja jornal, acompanhe as coisas, anote acertos e erros dos políticos que vão aparecendo, caso você tenha uma certa dificuldade com a memória. Tudo em nome de um voto decente. Porque um voto não é só a escolha de um(a) carinha, de um partido, de números. Você já está cansado de ouvir isso nas propagandas do governo: ele decide a sua vida prática e de toda uma população nos próximos 4 anos. Ele decide como as crianças na sua cidade serão estimuladas a estudar, como serão as condições dos postos de saúde, como estarão as ruas, como será seu poder de renda...
Os que vão compor a câmara são seus melhores representantes. O poder legislativo tem que ter a mesma atenção que se dá ao executivo. Se você quer uma melhoria específica, é com ele que você falará. É ele também que permite ou não se o executivo fará seus projetos. Se você votar em alguém que segue uma linha lógica e ideológica semelhante a sua, ele de fato será sua voz.
Chega de abafamento, de silêncio, de desafinadade entre política e interesse público. Não fique reclamando da política, o problema dela são os políticos que são eleitos. E sempre tem alguém decente no meio de cobras, mas tem que se dar o trabalho de querer identificar.
*"Que é pro mundo ficar Odara"*
1- O que está ouvindo? Odara- Caetano Veloso
2- O último filme em DVD? - Deu a louca no Mundo, Stanley Kramer, 1963. Pastelão over, mas me prendeu XD
3- Último filme na TV? Lado a Lado, com Julia Roberts e Susan Saradon. Tão bonito! Sou meio suspeita, gosto de personagens maternos. Susan arrasando.
4- O último vídeo? Cirque du sou eu - Charge antiguinha que achei entre uma linha de charges relacionadas às atuais. Ótima e até combina com o tema de hoje.
5 - Reflexão do Dia: Os problemas da política são seus políticos e seu povo.
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sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Fugindo das padronizações
Teminha cabeludo. Minhas atuais influências para falar sobre isso foram uma entrevista com transgêneros na Oprah, eventuais comentários de alguns amigos homossexuais e uma observação que fiz sobre a retratação da personagem feminina de um filme dos anos 60 (O sétimo mandamento, do George Marshall, se quiser saber). E, claro, velhos clichês sociais que me irritam profundamente.
Primeiramente, vou expor algumas indagações compartilhadas com a minha mãe enquanto viamos a Oprah. Como alguém percebe que está no corpo errado? Como se sabe o que é "uma mente de homem" e uma "de mulher"? Qual é o limite entre gente diferente e gente que faz parte de um padrão, ainda que "deslocado"?
É extremamente delicado dizer o que vou dizer, como ignorante da sensação real de um transgênero ou de um homossexual, já que não sou, mas não consigo ver muita diferença entre um transgênero e um homossexual que age e gosta de se aparentar como uma pessoa do outro sexo. Coragem, talvez. E dinheiro. Mais perseverança e vontade do que dinheiro, quem sabe. O fato é que, essencialmente, soa-me a mesma coisa. Não estar satisfeito com seu corpo, não ter "a mente" do seu sexo biológico, o desejo por pessoas do mesmo sexo...
Porém, o mais complicado nessa história toda é: "como saber?"
Existem homossexuais que estão satisfeitos com seu corpo. Como um amigo me disse: "Não me importo de ser um homem que gosta de homens". Ele se sente homem, mas gosta de homens. No termo do gay-world, ele não é uma bicha. Se veste como homem, age, num geral, como homem...
É verdade que quando homossexuais se reconhecem como tal, eles enxergam gostos e atitudes , além do desejo por pessoas do mesmo sexo, que são tidos como típicos do gênero oposto, e entendem como sinais.
Geralmente, pelo que minhas observações puderam constatar, o reconhecimento dos "sinais" vem antes do reconhecimento do desejo.
Aí vem minha grande questão de hoje: o que é esse sinal? E quando o "sinal" não é um sinal? O que transforma algo num sinal?
É cientificamente comprovado (não que realmente precisasse de uma pesquisa para constatar isso) que homens e mulheres são diferentes.
O problema é que essas diferenças não são tão simples, são tendências, e não compartilhar dessas tendências nem de longe significa que há algo de "errado" com você.
Vamos a alguns esteriótipos.
Homem - gostar de coisas violentas, ser frio, brincadeiras físicas, reações energéticas, pulso firme, pouco sentimental, inflexível, estrategista, objetivo...
Mulher - delicada, sensível, adora um choro, gosta de falar de relacionamentos, branda, precisa ser protegida, mais frívola, entende melhor a mente de terceiros...
Graças aos céus, não se exige mais ter todas essas "qualidades". Mas, se você reparar, pelos menos uma delas tem que ter, se não as pessoas, e você mesmo, passa a se estranhar. E você não está totalmente livre, mesmo que tenha alguma, porque outras formas, ramos, de algumas dessas atitudes são exigidas. É aceitável que você seja uma mulher "independente", mas, uma hora ou outra, você ter uma "recaída", sentindo-se frágil e precisando de alguém, faz você mais mulher, como se ter essa recaída fosse algo de mulheres (não é, bem sabemos).
Não gostar de Barbie e brincar de carrinhos ou bonecos de ação é uma sina para a pobre menina. Não interessa os motivos, a lógica desse gosto, é uma "coisa de menino", portanto, é estranho. Familiares cochicham, pais se preocupam, e crianças fazem seus cruéis comentários impensados.
Mas será que isso é mesmo um índicio de homossexualidade? Ou só uma quebra de expectativa?
Será que fazer coisas ou pensar coisas que se supõe típicas do outro sexo significa o mesmo que homossexualidade?
Como saber um limite? Existe um limite?
E quando a confusão se consolida num sentimento? Quando não se sabe o que se sente ou o se pensa sobre isso? Qual é a influência dos conceitos da sociedade na consolidação? Como saber quando é uma construção da mente e quando é uma naturalidade?
Sinceramente, eu vejo um jogo psicológico enorme nisso. E como bem lhe caracteriza, complexo. Não faço a mínima idéia se existe uma solução formulária para isso. E creio que não, dada minha aversão a fórmulas e suas limitações.
O fato é que às vezes eu entendo essas confusões muito mais como uma contrução da sociedade do que algo fortemente individual. Você se questiona porque está fora de padrões, e quem dá os padrões é a sociedade.
O grande jogo, que dificilmente uma criança pensará, é se perguntar sobre desejo antes de se perguntar sobre os seus hábitos. E saber diferenciar desejo de afeição.
Mas imagine sentimentos que muitas vezes nem adultos conseguem definir sendo (ou tentando ser) identificados por crianças... Qual é a garantia disso?
Espero que esteja claro que quando falo 'criança', é uma referência de que a dúvida começa na infância, mas se sinta à vontade para considerar os adolescentes, com o mesmo potencial de dicernimento e que se perguntam só nessa faixa etária, sem antes, em sua inocência ou mesmo uma ignorância, ter se questionado.
Engraçado que acabei falando de homossexualidade, e não era minha intenção falar só disso. Eu queria falar de rótulos dados aos gêneros. Como no filme citado, em que a mulher desiste de sua briga histérica com seu amante porque este lhe propõe casamento, ela fica toda submissa e idiota, enquanto o cara fica na boa pinta, com seu intelecto malandro e charme dominador, algo muito frequente nos roteiros de filmes antigos (nota número 1: os roteiros dos clássicos são o que mais me atrai para eles, são inteligentes e sagazes, mas esse é um pequeno podre que dependendo do filme é irrelevante; Nota número 2: um dos motivos pelo qual gosto muito de Hitchcock, com seus roteiros geniais e suas inversões durante as tramas da personagem "altamente feminina" para uma "heróina admirável").
A questão é que se vende uma imagem para os sexos, e destoar muito dela é motivo de estranhamento.
No DVD do filme do Tim Burton sobre o Ed Wood, tem meio que uma reportagem sobre homens que gostam de se travestir. E, como Ed Wood, existem homens travestis que são heterossexuais. É muito bizarro pensar nisso num conceito social, porque o gostar de vestidos, maquiagens e roupas femininas é uma ligação direta que se faz com a homossexualidade. Quem se sente muito confuso com a lógica do pensamento de um travesti heterossexual ataca: deve ser gay enrustido.
Ou seja, não se pode gostar de roupas femininas e ser homem ao mesmo tempo. Por quê? Quem disse?
Cai-se numa rede louca de ponderações sobre gostos. Quem gosta de cemitérios é gótico. Quem usa tudo rosa é patricinha. Quem quer "dividir riquezas" é comunista (está acompanhando as acusações do McCain ao Obama para entender essa?)... É?
Se alguém te diz que achou interessante ver, segundo por segundo, uma velhinha desmaiar, o que você pensa? Cruel? Negligente? Assustador? E se você conhecer direito o racicínio de quem te disse isso? Saber que essa pessoa estava num ônibus e não podia fazer nada, saber que essa pessoa tem fascínio por momentos únicos, saber que ela não estava tendo um deleite com o fato de ser uma velhinha desmaiando, e sim com a chance, poderíamos dizer, plástica, de ver alguém num momento de desmaio? Muda de figura?
Bem sabem meus amigos que eu tenho horror a esteriótipos, mesmo porque, como os bons psicólogos que frequentam este blog devem ter presumido, já fui muito vítima deles e ainda sou. Sou vítima até mesmo dos esteriótipos que as pessoas poderíam considerar "bons", tais como a garota que volte-e-meia fala algo inteligente e vira gênio, ou a que sabe de um ou outro filme clássico e um pouquinho de história do cinema e vira perito em cinema. E, claro, os ruins, como a que hora ou outra defende atitudes severas (não importam as razões nem os fins) e vira uma extremista, uma radical, ou a que em certas situações é tímida e acaba virando uma tímida de carteirinha para todos os momentos.
O nó que se tem no julgamento dos gostos, não só no campo dos gêneros, como nos bilhões de tipos sociais é um grande problema. As pessoas falam sem saber, julgam sem medir, condenam os outros a fardos que às vezes eles nem têm.
Não se pode simplemente ser sem que alguém te encaixe em algum padrão. Não se pode bater muito próximo de certos padrões sem que se seja configurado neles.
Não quero me estender na importância de padrões, não a nego. Porém me enraivece a aplicação do padrão, algo genuinamente científico, nas relações do dia-a-dia e no entendimento que a sociedade faz do indivíduo. Se mesmo em termos científicos o padrão não é definido, está sujeito a tranformações e erros, o que dirá a definição de um indivíduo.
*"Açúcar, tempero e tudo que há de bom"*
1- O que está ouvindo? O ventilador do computador.
2- O que está lendo? Frankestein, de Mary Shalley, em sua língua original, no meio das trilhões de leitura para trabalhos universitários.
3- Último filme em DVD? O franco atirador, com o Robert de Niro e a Meryl Streep, que teve a primeira de suas 14 indicações ao oscar por ele. Faz parte da mesopotâmica jornada ensaiada por um amigo e eu de assistir todos os filmes que a Meryl foi indicada até o final do ano.
4- Último filme na tv? Tá que eu não vi inteiro porque estava muito tarde, mas Os pássaros de Hitchcock no TCM.
5- Reflexão do Dia: Cuidado com o que é, pois pode não ser.
ObS: Fiz esse post em dias diferentes, e creio que a mudança de tom é perceptível. Gostaria de lembrar que eu não ligo para o que pode parecer contradições, e que o teor livre e espontâneo é, portanto, algo pessoal.
Primeiramente, vou expor algumas indagações compartilhadas com a minha mãe enquanto viamos a Oprah. Como alguém percebe que está no corpo errado? Como se sabe o que é "uma mente de homem" e uma "de mulher"? Qual é o limite entre gente diferente e gente que faz parte de um padrão, ainda que "deslocado"?
É extremamente delicado dizer o que vou dizer, como ignorante da sensação real de um transgênero ou de um homossexual, já que não sou, mas não consigo ver muita diferença entre um transgênero e um homossexual que age e gosta de se aparentar como uma pessoa do outro sexo. Coragem, talvez. E dinheiro. Mais perseverança e vontade do que dinheiro, quem sabe. O fato é que, essencialmente, soa-me a mesma coisa. Não estar satisfeito com seu corpo, não ter "a mente" do seu sexo biológico, o desejo por pessoas do mesmo sexo...
Porém, o mais complicado nessa história toda é: "como saber?"
Existem homossexuais que estão satisfeitos com seu corpo. Como um amigo me disse: "Não me importo de ser um homem que gosta de homens". Ele se sente homem, mas gosta de homens. No termo do gay-world, ele não é uma bicha. Se veste como homem, age, num geral, como homem...
É verdade que quando homossexuais se reconhecem como tal, eles enxergam gostos e atitudes , além do desejo por pessoas do mesmo sexo, que são tidos como típicos do gênero oposto, e entendem como sinais.
Geralmente, pelo que minhas observações puderam constatar, o reconhecimento dos "sinais" vem antes do reconhecimento do desejo.
Aí vem minha grande questão de hoje: o que é esse sinal? E quando o "sinal" não é um sinal? O que transforma algo num sinal?
É cientificamente comprovado (não que realmente precisasse de uma pesquisa para constatar isso) que homens e mulheres são diferentes.
O problema é que essas diferenças não são tão simples, são tendências, e não compartilhar dessas tendências nem de longe significa que há algo de "errado" com você.
Vamos a alguns esteriótipos.
Homem - gostar de coisas violentas, ser frio, brincadeiras físicas, reações energéticas, pulso firme, pouco sentimental, inflexível, estrategista, objetivo...
Mulher - delicada, sensível, adora um choro, gosta de falar de relacionamentos, branda, precisa ser protegida, mais frívola, entende melhor a mente de terceiros...
Graças aos céus, não se exige mais ter todas essas "qualidades". Mas, se você reparar, pelos menos uma delas tem que ter, se não as pessoas, e você mesmo, passa a se estranhar. E você não está totalmente livre, mesmo que tenha alguma, porque outras formas, ramos, de algumas dessas atitudes são exigidas. É aceitável que você seja uma mulher "independente", mas, uma hora ou outra, você ter uma "recaída", sentindo-se frágil e precisando de alguém, faz você mais mulher, como se ter essa recaída fosse algo de mulheres (não é, bem sabemos).
Não gostar de Barbie e brincar de carrinhos ou bonecos de ação é uma sina para a pobre menina. Não interessa os motivos, a lógica desse gosto, é uma "coisa de menino", portanto, é estranho. Familiares cochicham, pais se preocupam, e crianças fazem seus cruéis comentários impensados.
Mas será que isso é mesmo um índicio de homossexualidade? Ou só uma quebra de expectativa?
Será que fazer coisas ou pensar coisas que se supõe típicas do outro sexo significa o mesmo que homossexualidade?
Como saber um limite? Existe um limite?
E quando a confusão se consolida num sentimento? Quando não se sabe o que se sente ou o se pensa sobre isso? Qual é a influência dos conceitos da sociedade na consolidação? Como saber quando é uma construção da mente e quando é uma naturalidade?
Sinceramente, eu vejo um jogo psicológico enorme nisso. E como bem lhe caracteriza, complexo. Não faço a mínima idéia se existe uma solução formulária para isso. E creio que não, dada minha aversão a fórmulas e suas limitações.
O fato é que às vezes eu entendo essas confusões muito mais como uma contrução da sociedade do que algo fortemente individual. Você se questiona porque está fora de padrões, e quem dá os padrões é a sociedade.
O grande jogo, que dificilmente uma criança pensará, é se perguntar sobre desejo antes de se perguntar sobre os seus hábitos. E saber diferenciar desejo de afeição.
Mas imagine sentimentos que muitas vezes nem adultos conseguem definir sendo (ou tentando ser) identificados por crianças... Qual é a garantia disso?
Espero que esteja claro que quando falo 'criança', é uma referência de que a dúvida começa na infância, mas se sinta à vontade para considerar os adolescentes, com o mesmo potencial de dicernimento e que se perguntam só nessa faixa etária, sem antes, em sua inocência ou mesmo uma ignorância, ter se questionado.
Engraçado que acabei falando de homossexualidade, e não era minha intenção falar só disso. Eu queria falar de rótulos dados aos gêneros. Como no filme citado, em que a mulher desiste de sua briga histérica com seu amante porque este lhe propõe casamento, ela fica toda submissa e idiota, enquanto o cara fica na boa pinta, com seu intelecto malandro e charme dominador, algo muito frequente nos roteiros de filmes antigos (nota número 1: os roteiros dos clássicos são o que mais me atrai para eles, são inteligentes e sagazes, mas esse é um pequeno podre que dependendo do filme é irrelevante; Nota número 2: um dos motivos pelo qual gosto muito de Hitchcock, com seus roteiros geniais e suas inversões durante as tramas da personagem "altamente feminina" para uma "heróina admirável").
A questão é que se vende uma imagem para os sexos, e destoar muito dela é motivo de estranhamento.
No DVD do filme do Tim Burton sobre o Ed Wood, tem meio que uma reportagem sobre homens que gostam de se travestir. E, como Ed Wood, existem homens travestis que são heterossexuais. É muito bizarro pensar nisso num conceito social, porque o gostar de vestidos, maquiagens e roupas femininas é uma ligação direta que se faz com a homossexualidade. Quem se sente muito confuso com a lógica do pensamento de um travesti heterossexual ataca: deve ser gay enrustido.
Ou seja, não se pode gostar de roupas femininas e ser homem ao mesmo tempo. Por quê? Quem disse?
Cai-se numa rede louca de ponderações sobre gostos. Quem gosta de cemitérios é gótico. Quem usa tudo rosa é patricinha. Quem quer "dividir riquezas" é comunista (está acompanhando as acusações do McCain ao Obama para entender essa?)... É?
Se alguém te diz que achou interessante ver, segundo por segundo, uma velhinha desmaiar, o que você pensa? Cruel? Negligente? Assustador? E se você conhecer direito o racicínio de quem te disse isso? Saber que essa pessoa estava num ônibus e não podia fazer nada, saber que essa pessoa tem fascínio por momentos únicos, saber que ela não estava tendo um deleite com o fato de ser uma velhinha desmaiando, e sim com a chance, poderíamos dizer, plástica, de ver alguém num momento de desmaio? Muda de figura?
Bem sabem meus amigos que eu tenho horror a esteriótipos, mesmo porque, como os bons psicólogos que frequentam este blog devem ter presumido, já fui muito vítima deles e ainda sou. Sou vítima até mesmo dos esteriótipos que as pessoas poderíam considerar "bons", tais como a garota que volte-e-meia fala algo inteligente e vira gênio, ou a que sabe de um ou outro filme clássico e um pouquinho de história do cinema e vira perito em cinema. E, claro, os ruins, como a que hora ou outra defende atitudes severas (não importam as razões nem os fins) e vira uma extremista, uma radical, ou a que em certas situações é tímida e acaba virando uma tímida de carteirinha para todos os momentos.
O nó que se tem no julgamento dos gostos, não só no campo dos gêneros, como nos bilhões de tipos sociais é um grande problema. As pessoas falam sem saber, julgam sem medir, condenam os outros a fardos que às vezes eles nem têm.
Não se pode simplemente ser sem que alguém te encaixe em algum padrão. Não se pode bater muito próximo de certos padrões sem que se seja configurado neles.
Não quero me estender na importância de padrões, não a nego. Porém me enraivece a aplicação do padrão, algo genuinamente científico, nas relações do dia-a-dia e no entendimento que a sociedade faz do indivíduo. Se mesmo em termos científicos o padrão não é definido, está sujeito a tranformações e erros, o que dirá a definição de um indivíduo.
*"Açúcar, tempero e tudo que há de bom"*
1- O que está ouvindo? O ventilador do computador.
2- O que está lendo? Frankestein, de Mary Shalley, em sua língua original, no meio das trilhões de leitura para trabalhos universitários.
3- Último filme em DVD? O franco atirador, com o Robert de Niro e a Meryl Streep, que teve a primeira de suas 14 indicações ao oscar por ele. Faz parte da mesopotâmica jornada ensaiada por um amigo e eu de assistir todos os filmes que a Meryl foi indicada até o final do ano.
4- Último filme na tv? Tá que eu não vi inteiro porque estava muito tarde, mas Os pássaros de Hitchcock no TCM.
5- Reflexão do Dia: Cuidado com o que é, pois pode não ser.
ObS: Fiz esse post em dias diferentes, e creio que a mudança de tom é perceptível. Gostaria de lembrar que eu não ligo para o que pode parecer contradições, e que o teor livre e espontâneo é, portanto, algo pessoal.
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quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Quando as coisas viram retrô
Na minha aula de inglês passada, a discussão proposta era sobre objetos tecnológicos que no início de suas criações foram rejeitas por gente importante. O dono da Warner Bros, em 1927, comentando que as pessoas não queriam ouvir os atores falando, em referência ao cinema falado. O gerente da IBM, em 1943, ironizando que no mercado só haveria espaço para talvez 5 computadores. Algum jornalista do New York Times, em 1939, falando que a televisão não substituiria o rádio, porque ela exigia que as pessoas mantivessem seus olhos na tela...
A discussão foi divertida, se você me perguntar, e depois evoluiu para a história do cinema, e de Hollywood. Mas para este blog (porque ela também me rendeu outra idéia que talvez eu aplique no Camaleão de Armário) vou me reter a um pensamento que eu tive, e que foi alimentado por aquele vídeo do McCain que comentei, uma reportagem na Superinteressante sobre a neo-Ku-klux-klan e um artigo sobre um livro com cartas em que José de Alencar mostra apoio a escravidão, além do debate de ontem entre os presidenciáveis americanos e uma pequena parte de um filme que vi recentemente (Invasores, com a Nicole Kidman e o Daniel Craig, na cena do jantar, se você está interessado).
O retrô do título é muito menos sobre modas, e mais sobre pensamentos, embora eles estejam ligados,e , portanto, sim, modas estão dentro da discussão.
Para ser mais clara, permita-me usar um exemplo clichê: a mulherada vai gradativamente se rebelando sobre sua posiçaõ na sociedade, e à medida que ela queria igualdade em direitos, ela foi criando liberdade para se vestir de maneira mais prática, ou como homens, se preferir. Além disso, como moda não é só roupa, o crescimento desse pensamento libertário tornou a idéia popular, algo que consolidou o movimento como uma tendência, como uma coisa revolucionária, e que a situação não seria mais como antes. Se um pensamento se populariza, ele ganha expressão, que dificilmente se reverterá. O máximo que acontecerá é que as idéias velhas permaneçam, mas dificilmente serão a maioria novamente.
Não sei como é para vocês, mas eu sinto uma frustaração quando algo que em parece muito óbvio se torna centro de uma discussão que gasta várias palavras, mas acaba ficando na mesma, e essa mesma significa que as pessoas que pensavam coisas que eu considero absurdo continuam crendo em seus absurdos.
Algo que com certeza aconteceria se eu encontrasse um desses neo-Ku-Klunx-Klan. Eles querem tirar mulheres de cargos importantes e aplicar restrições aos negros em pleno século XXI. Eles têm um partido independente nos EUA (sim, o sistema lá não impede outros partidos, mas, como você pode presumir, não têm expressão nenhuma) para defender suas idéias. Imagino como seria se eles tivessem um presidenciável, e ele fosse convidado para um debate. Se eu já fico horrorizada com o McCain falando que precisa perfurar o oeste americano para resolver o problema energético deles, imagina se me sobraria cabelos ouvindo um cara desses falar...
No filme que vi, a personagem da Nicole Kidman está discutindo com um russo sobre a natureza humana, e o russo é bem pessimista. Ela fala sobre a evolução de consciência, e que os humanos não são os mesmo de cinco séculos atrás, que estão melhores, e que ela acredita que a tendência seja o aperfeiçoamento, num processo lento. Ela basicamente falou o que penso. Não somos os mesmos, e isso é bom. Não é um desprezo ao passado, sem ele não seriamos o que somos hoje, para bem ou para o mal. No caso do assunto de hoje, julgo que é para o bem.
Agora, tende-se a pensar duas vezes antes de fazer uma guerra. Legalmente, todo humano é igual. Genocídios são condenados no senso popular. Temos uma organização mundial, que não é perfeita, mas que une os países para discussões e ajudas.
Nada disso funciona 100%, mas só de tentar, só de haver regras, só de ter quem reprima, só de ser um senso da maioria, é uma evolução. Isso tudo é muito gradativo. Claro que há recaídas, e eles costumam ser medonhas, como o EUA que atacou o Iraque sem permissão da ONU. Mas eu acredito que eles terão troco. Na verdade, eu já vejo o troco. Suas políticias externas são impopulares, poucos confiam neles, o Iraque é um caos e eles não têm controle total, as suas desculpas foram desmascaradas e só alguém muito iludido para não associar o petróleo a coisa toda... E pode haver coisas piores, que não quero imaginar.
O que quero dizer é que eu vejo desenvolvimento, mas desenvolvimento não significa ruptura com pensamentos antigos. Eles resistem, eles ainda agem, ainda fazem estragos, ainda cativam pessoas. Mas eu sonho com um dia, que talvez eu não veja, em que certas coisas nunca mais serão ditas.
O problema é mesmo para quem concorda com o que nós poderíamos chamar de pensamentos "desenvolvidos", há linhas tênues de diferença. Lembrando dos ditos da Revolução Francesa: Liberdade, o que é? Igualdade, o que é? Fraternidade, o que é?
Aí também se instauram diferenças que podem ser graves. Liberdade é deixar todo mundo fazer o que quiser? Igualdade é tratar todo mundo do mesmo jeito? Até que ponto isso é bom? Fraternidade é pensamento coletivo? Quem está de acordo?
Interpretações bizarras sobre isso causaram cortes de cabeça, queima de livros, festa no mercado especulativo com dinheiro do contribuinte...
Não vou me estender nas minhas definições sobre cada um, mas espero que você tenha captado meu ponto. O que parece bonito pode ser na prática algo grotesco, ou ineficiente, ou repressivo, ou estúpido...
Bom, visualizando isso tudo, fica uma pergunta: como saber o que é "retrô"?
Eu vejo como algo que é inferior a uma idéia melhor, mais condizente com valores atuais. O problema para mim está em dizer o que significa "idéia melhor" e "valores atuais" com essa pluralidade de pensamentos. Está tudo relacionado com minhas visões de mundo, como sempre.
Para mim, é retrô falar em diferença de "raças". É todo mundo homo sapiens sapiens, e o que talvez diferencie são circunstâncias do meios e algumas variedade genéticas que não estão restritas a "raças".
Para mim, é retrô falar em serviço de gêneros. Homens e mulheres de fato não são iguais, mas não existe tarefa que um deles não possa fazer. Tendencialmente, existe um jeito diferente de executá-las para cada um, mas não significa que isso os impede de fazer.
Para mim, é retrô falar em repressão aos homossexuais. Eles não escolheram, sua condição não os diminui como seres humanos, eles têm direito de amar quem quiserem. A simples repressão do amor é uma agressão. Anti-natural é impedir os sentimentos homossexuais, não a homossexualidade. E não me venha com Biblia, primeiro porque os estados ocidentais são laicos, segundo, não está escritos explicitamente algo contra homossexuais, logo, mil interpretações podem ser ditas, terceiro, ela defende o amor, reprimir amor é anti-cristão.
Para mim, é retrô falar de crescimento industrial sem se preocupar com o meio ambiente. Emissão de CO2 adoidado, lixo nos rios, queimadas em nome do progesso, duvidar que o efeito estufa tenha como principal culpado o humano... Tudo isso é ridículo. Já temos provas empíricas demais para continuar não se importando com os danos à natureza. É o governador do Mato Grosso defendendo que a produção de soja é mais importante do que a "mata" (Amazônia), é a Dilma Roussef criticando a Marina Silva porque as restrições aos agricultores "impediam o progresso", é a chapa McCain/Palin defendo mais queima de fósseis como fonte de energia.
Vai ter uma hora em que o óbvio (meu óbvio) será maioria, espero. Hoje estou mais ousada. Não estou tomando cuidado para não parecer arrogante ou prepotente. Esse assunto me cansa, me entristece, me deixa frustrada. Estou pouco me importando se alguém concorda ou não. Retrô é o que condiciona os outros aos dogmas de um outro grupo, sendo que teoricamente a vida desses "outros" deveria depender apenas deles, como os homossexuais ou as grávidas que querem abortar. Retrô é cair na agressividade sem a devida reflexão e a discussão elegante. Retrô é sustentar julgamentos por aparência. Retrô é reprimir o que não pode ser reprimido. Retrô é fazer predições que ignoram capacidade de transformação. Retrô é tentar impor algo a alguém sem as devidas razões. Retrô é associar identidade com insígnias materiais. Retrô é tudo ignora a força do livre-arbítrio.
Todas as coisas que se encaixam nisso irão cair algum dia.
Sei que esse post talvez tenha sido a coisa mais inútil de todo blog. Possivelmente, não diz nada se você não concorda. E mesmo quem concorda diz "Tá. E...?". Essencialmente, minha intenção é que se reflita, em todas as idéias de cada um que lê ou do mundo ao redor de quem lê, sobre o potencial de alguma opinião ser perecível, o tipo de influência que ela tem, o que dentro de seu contexto a leva a ser daquele jeito, e como e porquê ela poderia ser diferente. Analisar se ela pode ser retrô, ou tem chances de ser. Foi o que nós fizemos na aula de inglês, mas é muito mais fácil falar de tecnologia do que ideologia.
*Entusiamo programado*
1. Música? El Paso - Marty Robbins. Country dos bons.
2. Último DVD? A espiã, filme alemão/holandês, durante a segunda guerra. Visão pessimista da humanidade, mas não é manequeísta.
3. Ultimo filme na Tv? Paradise Now, acho que pauistanês. Homem-bomba que tem seus planos frustrados. Olhar interessante. Concorreu ao Oscar, se não me engano.
4. Onde deveria ter ido? À faculdade, mas estou enjoada, com dor de cabeça, mal-humor, está chovendo e minha professora é meio canastrona...
5. Reflexão do dia: Não espera para repensar a vida quando fizer besteira.
Ps: Eu provavelmente me arrependerei deste post, já que eu não tomei os devidos cuidados com as construções de frase e não quis me estender para esclarecer melhor. Considere apenas o último parágrafo e esqueça o resto, já que seus buracos podem causar terrível mal entendido. Ele só está aqui porque quis me expressar.
A discussão foi divertida, se você me perguntar, e depois evoluiu para a história do cinema, e de Hollywood. Mas para este blog (porque ela também me rendeu outra idéia que talvez eu aplique no Camaleão de Armário) vou me reter a um pensamento que eu tive, e que foi alimentado por aquele vídeo do McCain que comentei, uma reportagem na Superinteressante sobre a neo-Ku-klux-klan e um artigo sobre um livro com cartas em que José de Alencar mostra apoio a escravidão, além do debate de ontem entre os presidenciáveis americanos e uma pequena parte de um filme que vi recentemente (Invasores, com a Nicole Kidman e o Daniel Craig, na cena do jantar, se você está interessado).
O retrô do título é muito menos sobre modas, e mais sobre pensamentos, embora eles estejam ligados,e , portanto, sim, modas estão dentro da discussão.
Para ser mais clara, permita-me usar um exemplo clichê: a mulherada vai gradativamente se rebelando sobre sua posiçaõ na sociedade, e à medida que ela queria igualdade em direitos, ela foi criando liberdade para se vestir de maneira mais prática, ou como homens, se preferir. Além disso, como moda não é só roupa, o crescimento desse pensamento libertário tornou a idéia popular, algo que consolidou o movimento como uma tendência, como uma coisa revolucionária, e que a situação não seria mais como antes. Se um pensamento se populariza, ele ganha expressão, que dificilmente se reverterá. O máximo que acontecerá é que as idéias velhas permaneçam, mas dificilmente serão a maioria novamente.
Não sei como é para vocês, mas eu sinto uma frustaração quando algo que em parece muito óbvio se torna centro de uma discussão que gasta várias palavras, mas acaba ficando na mesma, e essa mesma significa que as pessoas que pensavam coisas que eu considero absurdo continuam crendo em seus absurdos.
Algo que com certeza aconteceria se eu encontrasse um desses neo-Ku-Klunx-Klan. Eles querem tirar mulheres de cargos importantes e aplicar restrições aos negros em pleno século XXI. Eles têm um partido independente nos EUA (sim, o sistema lá não impede outros partidos, mas, como você pode presumir, não têm expressão nenhuma) para defender suas idéias. Imagino como seria se eles tivessem um presidenciável, e ele fosse convidado para um debate. Se eu já fico horrorizada com o McCain falando que precisa perfurar o oeste americano para resolver o problema energético deles, imagina se me sobraria cabelos ouvindo um cara desses falar...
No filme que vi, a personagem da Nicole Kidman está discutindo com um russo sobre a natureza humana, e o russo é bem pessimista. Ela fala sobre a evolução de consciência, e que os humanos não são os mesmo de cinco séculos atrás, que estão melhores, e que ela acredita que a tendência seja o aperfeiçoamento, num processo lento. Ela basicamente falou o que penso. Não somos os mesmos, e isso é bom. Não é um desprezo ao passado, sem ele não seriamos o que somos hoje, para bem ou para o mal. No caso do assunto de hoje, julgo que é para o bem.
Agora, tende-se a pensar duas vezes antes de fazer uma guerra. Legalmente, todo humano é igual. Genocídios são condenados no senso popular. Temos uma organização mundial, que não é perfeita, mas que une os países para discussões e ajudas.
Nada disso funciona 100%, mas só de tentar, só de haver regras, só de ter quem reprima, só de ser um senso da maioria, é uma evolução. Isso tudo é muito gradativo. Claro que há recaídas, e eles costumam ser medonhas, como o EUA que atacou o Iraque sem permissão da ONU. Mas eu acredito que eles terão troco. Na verdade, eu já vejo o troco. Suas políticias externas são impopulares, poucos confiam neles, o Iraque é um caos e eles não têm controle total, as suas desculpas foram desmascaradas e só alguém muito iludido para não associar o petróleo a coisa toda... E pode haver coisas piores, que não quero imaginar.
O que quero dizer é que eu vejo desenvolvimento, mas desenvolvimento não significa ruptura com pensamentos antigos. Eles resistem, eles ainda agem, ainda fazem estragos, ainda cativam pessoas. Mas eu sonho com um dia, que talvez eu não veja, em que certas coisas nunca mais serão ditas.
O problema é mesmo para quem concorda com o que nós poderíamos chamar de pensamentos "desenvolvidos", há linhas tênues de diferença. Lembrando dos ditos da Revolução Francesa: Liberdade, o que é? Igualdade, o que é? Fraternidade, o que é?
Aí também se instauram diferenças que podem ser graves. Liberdade é deixar todo mundo fazer o que quiser? Igualdade é tratar todo mundo do mesmo jeito? Até que ponto isso é bom? Fraternidade é pensamento coletivo? Quem está de acordo?
Interpretações bizarras sobre isso causaram cortes de cabeça, queima de livros, festa no mercado especulativo com dinheiro do contribuinte...
Não vou me estender nas minhas definições sobre cada um, mas espero que você tenha captado meu ponto. O que parece bonito pode ser na prática algo grotesco, ou ineficiente, ou repressivo, ou estúpido...
Bom, visualizando isso tudo, fica uma pergunta: como saber o que é "retrô"?
Eu vejo como algo que é inferior a uma idéia melhor, mais condizente com valores atuais. O problema para mim está em dizer o que significa "idéia melhor" e "valores atuais" com essa pluralidade de pensamentos. Está tudo relacionado com minhas visões de mundo, como sempre.
Para mim, é retrô falar em diferença de "raças". É todo mundo homo sapiens sapiens, e o que talvez diferencie são circunstâncias do meios e algumas variedade genéticas que não estão restritas a "raças".
Para mim, é retrô falar em serviço de gêneros. Homens e mulheres de fato não são iguais, mas não existe tarefa que um deles não possa fazer. Tendencialmente, existe um jeito diferente de executá-las para cada um, mas não significa que isso os impede de fazer.
Para mim, é retrô falar em repressão aos homossexuais. Eles não escolheram, sua condição não os diminui como seres humanos, eles têm direito de amar quem quiserem. A simples repressão do amor é uma agressão. Anti-natural é impedir os sentimentos homossexuais, não a homossexualidade. E não me venha com Biblia, primeiro porque os estados ocidentais são laicos, segundo, não está escritos explicitamente algo contra homossexuais, logo, mil interpretações podem ser ditas, terceiro, ela defende o amor, reprimir amor é anti-cristão.
Para mim, é retrô falar de crescimento industrial sem se preocupar com o meio ambiente. Emissão de CO2 adoidado, lixo nos rios, queimadas em nome do progesso, duvidar que o efeito estufa tenha como principal culpado o humano... Tudo isso é ridículo. Já temos provas empíricas demais para continuar não se importando com os danos à natureza. É o governador do Mato Grosso defendendo que a produção de soja é mais importante do que a "mata" (Amazônia), é a Dilma Roussef criticando a Marina Silva porque as restrições aos agricultores "impediam o progresso", é a chapa McCain/Palin defendo mais queima de fósseis como fonte de energia.
Vai ter uma hora em que o óbvio (meu óbvio) será maioria, espero. Hoje estou mais ousada. Não estou tomando cuidado para não parecer arrogante ou prepotente. Esse assunto me cansa, me entristece, me deixa frustrada. Estou pouco me importando se alguém concorda ou não. Retrô é o que condiciona os outros aos dogmas de um outro grupo, sendo que teoricamente a vida desses "outros" deveria depender apenas deles, como os homossexuais ou as grávidas que querem abortar. Retrô é cair na agressividade sem a devida reflexão e a discussão elegante. Retrô é sustentar julgamentos por aparência. Retrô é reprimir o que não pode ser reprimido. Retrô é fazer predições que ignoram capacidade de transformação. Retrô é tentar impor algo a alguém sem as devidas razões. Retrô é associar identidade com insígnias materiais. Retrô é tudo ignora a força do livre-arbítrio.
Todas as coisas que se encaixam nisso irão cair algum dia.
Sei que esse post talvez tenha sido a coisa mais inútil de todo blog. Possivelmente, não diz nada se você não concorda. E mesmo quem concorda diz "Tá. E...?". Essencialmente, minha intenção é que se reflita, em todas as idéias de cada um que lê ou do mundo ao redor de quem lê, sobre o potencial de alguma opinião ser perecível, o tipo de influência que ela tem, o que dentro de seu contexto a leva a ser daquele jeito, e como e porquê ela poderia ser diferente. Analisar se ela pode ser retrô, ou tem chances de ser. Foi o que nós fizemos na aula de inglês, mas é muito mais fácil falar de tecnologia do que ideologia.
*Entusiamo programado*
1. Música? El Paso - Marty Robbins. Country dos bons.
2. Último DVD? A espiã, filme alemão/holandês, durante a segunda guerra. Visão pessimista da humanidade, mas não é manequeísta.
3. Ultimo filme na Tv? Paradise Now, acho que pauistanês. Homem-bomba que tem seus planos frustrados. Olhar interessante. Concorreu ao Oscar, se não me engano.
4. Onde deveria ter ido? À faculdade, mas estou enjoada, com dor de cabeça, mal-humor, está chovendo e minha professora é meio canastrona...
5. Reflexão do dia: Não espera para repensar a vida quando fizer besteira.
Ps: Eu provavelmente me arrependerei deste post, já que eu não tomei os devidos cuidados com as construções de frase e não quis me estender para esclarecer melhor. Considere apenas o último parágrafo e esqueça o resto, já que seus buracos podem causar terrível mal entendido. Ele só está aqui porque quis me expressar.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Como ler um jornal
Mais um post presunçoso para a coleção.
Quem sou eu para falar em "Como ler um jornal"?
Bom, aos que leram "a farsa da intelectualidade" e me acharam muito... sei lá... hipócrita, limitada... Qualquer coisa dessas... Nem leia esse. E devo dizer que não discordo tanto dessa opinião... Talvez dissesse com outras palavras.
"Hipócrita" eu chamaria de "relapsa" por não ressaltar momentos em que se acha que a intelectualização vem implicita, ou seja, quando algo aparentemente pede-se por uma reflexão numa obra, como Guernica, por exemplo, ou quando o popular é grudento, mal-feito e brega não-intencionalmente, e por isso causa aversão, ou seja, quando o popular não tem nenhum mérito ( e fica a pergunta no ar sobre gostos e méritos).
"Limitada" eu chamaria de... Limitada. De fato. Eu não devo ter visto nem um terço do que se pode ver e ouvir de um intelectual blasé. Mas como já estão se repetindo experiências, ao menos um pouco de visão eu tenho. E, sinceramente...? De besteiras a internet está cheia. Minha inexperiência é reconhecida, e eu não espero que ninguém leia nada aqui como a verdade absoluta. Portanto, me sinto livre para falar o que quiser. O filtro fica por sua conta. Aliás, isso tem a ver com o assunto de hoje...
Eu tenho muitos amigos que não têm o hábito de ler jornal. Por n motivos. Seja porque os pais não assinam, ou porque não criaram o hábito, ou porque não gostam mesmo.
Eu não tenho nenhuma fórmula mágica para eles. Adoraria ter, porque hoje em dia é tão importante... Mas creio que depende apenas de uma vontade própria. E não é uma vontadizinha...
Vontadizinhas não criam disciplina. É uma verdadeira percepção da necessidade. E a necessidade, o que é?
Algumas coisas sobre necessidade são muito pessoais minhas ( e de muita gente). Eu tenho necessidade de não parecer fora do mundo. Se eu não sei o que se passa no meu presente ao redor do mundo ou do país, eu me sinto envergonhada. Particularmente, tenho horror a parecer ignorante (embora seja em MUITA coisa). Além do mais, saber as notícias do presente são uma forma de deixar as conversas do dia-a-dia atualizadas. É melhor do que falar da vida dos outros, ou estancar no papo de escola/faculdade/trabalho.
Eu também gosto de ser fonte de informação. Às vezes alguém não está entendendo muito o que está acontecendo e só sabe por cima, e é muito gostoso explicar, ainda mais porque leio diariamente, e acompanhei a evolução da coisa.
Uma necessidade que não é pessoal e é importantíssima é que a leitura diária permite você acompanhar o tom das coisas, ou pescar informações que não serão lembradas e fazem toda diferença na sua compreensão sobre aquilo. Um bom exemplo recente disso foi a invasão russa á Ossétia do Sul. No dia seguinte à invasão, a Folha explicou um pouco do que aconteceu. Menos de uma semana da invasão a Russia e a Geórgia tinham feito um acordo sobre a segurança os cidadãos russos que estão na Ossétia. E logo depois a Geórgia invadiu militarmente o território ossetiano, contrariando o acordo. Mas o Mikhail Saakashvili, presidente georgiano, não estava contando com a força russa preparada, que contra-atacou muito mais rápido e agressivamente do que o imbecil jamais imaginaria.
Não estou defendendo a Russia, que assustadoramente desrespeitosa ignorou os acordos que ela fez com a ONU e a União Européia para retirada. Mas poucas vezes depois vi alguém falando que a guerra começara pela Georgia. Os americanos articularam e jogaram toda culpa na Russia, e pelo jeito os jornais Ocidentais compraram o pensamento. Fiquei feliz quando o Obama, o candidato democrata, falou de uma repreensão aos dois. Ele não ignorou que a Geórgia começou. Mas a mídia caiu em cima, porque inimigo para os EUA é só país que não está aos seus serviços, e ele acabou se voltando para críticas à Russia.
Não prestar atenção te faz uma grande marionete da mídia.
Ainda sobre necessidades, jornal permite que o acúmulo de informação se torne uma arma de crédito e qualidade para sua argumentação em muitos assuntos, não necessariamente ligados a reportagem direta do jornal. Citar algo do presente traz familiarização. Falar do acelerador de particulas para falar de coisas assustadoras que a ciência faz, ou dos Nardoni na hora de falar em limites da exposição de crianças a assuntos cabeludos que saem na mídia, fica muito mais interessante.
Tem muitas vantagens, estou com preguiça de inumerar todas porque não era essa a intenção do post.
Ao mesmo tempo que ler jornal é importante, deve-se tomar muito cuidado com o que se lê.
Jornal foi feito por gente que tem sua própria mente, e quando não está sob sua mente, está sob a mente dos dirigentes do jornal.
Cada palavra escolhida tem uma intenção, cada construção de frase pretende te passar algo. E nem sempre (quase nunca) busca-se uma imparcialidade no que é dito.
Eu nem de longe sou partidária da Marta Suplicy, mas outro dia, na capa da Folha, eles colocaram uma machete parecida com essa: "Metrô deixa de ser promessa para Marta". E depois, na página onde tinha a noticia inteira, eles explicam melhor: A extensão do metrô não é algo garantido porque depende do governo do estado. Para quem não sabe, isso é óbvio. O metrô está sobre controle do estado de São Paulo, o máximo que o prefeito da capital pode fazer é pressão para que seus projetos sejam aceitos. O jornal se aproveitou que ela esclareceu isso e fez com que a declaração dela parecesse uma incompetência. Sujo? Muito sujo.
Mas quem é um bom leitor da Folha sabe que eles não gostam nem um pouquinho do PT, e não medem parcialidade para falar deles. Você percebe pelos destaques a algumas coisas e até mesmo o tom com que são escritas as reportagens. Eles têm todos os motivos para não gostar do PT, mas, como jornal respeitado, a Folha é um meio de comunicação que deveria prezar pelo justo. Tem sujeira, pode, DEVE falar. Mas fale de TODAS as sujeitas.
Quem lê só a capa fica com uma impressão errada do que está acontecendo. E esse ao menos é um meio fácil de encontrar manipulação, pior quando sua única fonte de informação sobre o assunto é o jornal. É muito difícil saber o que é verdade e o que está distorcido. Às vezes você só pode contar com a sua memória (ou com a dos seus familiares e amigos, se for algo que você não sabe). Ou a partir para informações adicionais na internet, que é a coisa mais anárquica e livre que já se pôde inventar. Você encontra mídia independente (geralmente são todas de esquerda e inexpressivas, muito alternativas, mas ao menos são outros pontos de vistas que você pode fundir com o que você leu na mídia de massa e encontrar uma média própria sobre o assunto), blogs (oi!), vídeos, sites sobre o assunto...
Dificilmente você encontrará algo imparcial, mas ver os vários lados permite que você tenha sua própria opinião. E permite que você seja bem mais informado.
Eu sei bem que é muito dificil você se interessar tanto por um assunto a ponto de ler muito a mais sobre ele.
Mas a grande recomendação é que seja lá o que você ler, não tome como verdade, desconfie. Até mesmo o que parece tão certo pode ter uma informação escondida que muda todo o ponto de vista sobre o assunto.
Tome cuidado não só com os textos, mas com as fotos. A Folha adora fazer isso. As fotos querem passar uma mensagem. Às vezes são engraçadinhas, artísticas, assustadoras. Outras vezes são puramente manipuladoras. Políticos fazendo cara de safados, cansados de um discurso que devia ser importante, rindo numa noticia que deveria ser triste... Esse tipo de coisa. Para não me ater só à política, muçulmanos com caras furiosas segurando armas. Sempre. A não ser quando é para falar de morte, quando as fotos entristecedoras. Mães jogadas, chorando a morte de seus filhos. Crianças ensanguentadas, sem braço, perdidas.
A exposição a uma noção repetida, uma informação, ou várias informações que contem uma mesma noção, é o melhor jeito de cair na rede mídia. O que você pensa sobre o Oriente Médio? Ou da Russia? Ou do nosso governo?
O quanto isso tem a ver com o que você lê? O quanto isso tem a ver com a verdade?
É muito difícil escapar da rede. E nem sempre a rede está errada. Mas eu aposto minha perna que ela nunca estará 100% certa. Ela está sempre cheia de interesses. Alguns apenas do jornal, outras de governos, ou de empresas. Resta-nos a difícil tarefa de filtrar. Não acredite em tudo o que lê.
*EEEEEEE*
1. Último filme no cinema? Ao entardecer, com a Meryl Streep e sua filha no elenco. Lindo filme. Drama feminino, talvez, apesar de o tema principal ser razões da vida. No mesmo dia eu vi o documentário Mistérios do Samba, conduzido pela Marisa Monte, sobre a velha guarda da Portela. Cativante, para quem gosta de samba de raiz.
2. Último filme em DvD? Orgulho e Preconceito, com a Keira Knightly. Outro lindo filme (palmas para a trilha sonora! E o elenco masculino também... XD), mais drama feminino ainda, porque esse é puro amor. Não que homens não possam gostar, mas é uma tendência...
3. Que livro está lendo? Milhares para trabalhos trabalhosos, mas um em particular apenas para aprofundamento: A Manilha e o Libambo - Alberto Costa e Silva, africanista.
4. Último vídeo no Youtube? O McCain na Ellen, falando sobre casamento gay. Admiro a coerência e coragem dele de manter suas posições num ambiente que é hostil a elas, mas que são posições ultrapassadas, isso são. Acabei vendo esse porque vi a entrevista do Obama com ela (esse é um pedaço dela, não acho inteira em um vídeo só), muito mais divertida, de fato.
5. Reflexão do Dia: Estamos todo dia sujeitos às opiniões dos outros. Ouça, leia e faça a sua própria. É um favor a você mesmo. Tenha em mente que nada é simples.
Quem sou eu para falar em "Como ler um jornal"?
Bom, aos que leram "a farsa da intelectualidade" e me acharam muito... sei lá... hipócrita, limitada... Qualquer coisa dessas... Nem leia esse. E devo dizer que não discordo tanto dessa opinião... Talvez dissesse com outras palavras.
"Hipócrita" eu chamaria de "relapsa" por não ressaltar momentos em que se acha que a intelectualização vem implicita, ou seja, quando algo aparentemente pede-se por uma reflexão numa obra, como Guernica, por exemplo, ou quando o popular é grudento, mal-feito e brega não-intencionalmente, e por isso causa aversão, ou seja, quando o popular não tem nenhum mérito ( e fica a pergunta no ar sobre gostos e méritos).
"Limitada" eu chamaria de... Limitada. De fato. Eu não devo ter visto nem um terço do que se pode ver e ouvir de um intelectual blasé. Mas como já estão se repetindo experiências, ao menos um pouco de visão eu tenho. E, sinceramente...? De besteiras a internet está cheia. Minha inexperiência é reconhecida, e eu não espero que ninguém leia nada aqui como a verdade absoluta. Portanto, me sinto livre para falar o que quiser. O filtro fica por sua conta. Aliás, isso tem a ver com o assunto de hoje...
Eu tenho muitos amigos que não têm o hábito de ler jornal. Por n motivos. Seja porque os pais não assinam, ou porque não criaram o hábito, ou porque não gostam mesmo.
Eu não tenho nenhuma fórmula mágica para eles. Adoraria ter, porque hoje em dia é tão importante... Mas creio que depende apenas de uma vontade própria. E não é uma vontadizinha...
Vontadizinhas não criam disciplina. É uma verdadeira percepção da necessidade. E a necessidade, o que é?
Algumas coisas sobre necessidade são muito pessoais minhas ( e de muita gente). Eu tenho necessidade de não parecer fora do mundo. Se eu não sei o que se passa no meu presente ao redor do mundo ou do país, eu me sinto envergonhada. Particularmente, tenho horror a parecer ignorante (embora seja em MUITA coisa). Além do mais, saber as notícias do presente são uma forma de deixar as conversas do dia-a-dia atualizadas. É melhor do que falar da vida dos outros, ou estancar no papo de escola/faculdade/trabalho.
Eu também gosto de ser fonte de informação. Às vezes alguém não está entendendo muito o que está acontecendo e só sabe por cima, e é muito gostoso explicar, ainda mais porque leio diariamente, e acompanhei a evolução da coisa.
Uma necessidade que não é pessoal e é importantíssima é que a leitura diária permite você acompanhar o tom das coisas, ou pescar informações que não serão lembradas e fazem toda diferença na sua compreensão sobre aquilo. Um bom exemplo recente disso foi a invasão russa á Ossétia do Sul. No dia seguinte à invasão, a Folha explicou um pouco do que aconteceu. Menos de uma semana da invasão a Russia e a Geórgia tinham feito um acordo sobre a segurança os cidadãos russos que estão na Ossétia. E logo depois a Geórgia invadiu militarmente o território ossetiano, contrariando o acordo. Mas o Mikhail Saakashvili, presidente georgiano, não estava contando com a força russa preparada, que contra-atacou muito mais rápido e agressivamente do que o imbecil jamais imaginaria.
Não estou defendendo a Russia, que assustadoramente desrespeitosa ignorou os acordos que ela fez com a ONU e a União Européia para retirada. Mas poucas vezes depois vi alguém falando que a guerra começara pela Georgia. Os americanos articularam e jogaram toda culpa na Russia, e pelo jeito os jornais Ocidentais compraram o pensamento. Fiquei feliz quando o Obama, o candidato democrata, falou de uma repreensão aos dois. Ele não ignorou que a Geórgia começou. Mas a mídia caiu em cima, porque inimigo para os EUA é só país que não está aos seus serviços, e ele acabou se voltando para críticas à Russia.
Não prestar atenção te faz uma grande marionete da mídia.
Ainda sobre necessidades, jornal permite que o acúmulo de informação se torne uma arma de crédito e qualidade para sua argumentação em muitos assuntos, não necessariamente ligados a reportagem direta do jornal. Citar algo do presente traz familiarização. Falar do acelerador de particulas para falar de coisas assustadoras que a ciência faz, ou dos Nardoni na hora de falar em limites da exposição de crianças a assuntos cabeludos que saem na mídia, fica muito mais interessante.
Tem muitas vantagens, estou com preguiça de inumerar todas porque não era essa a intenção do post.
Ao mesmo tempo que ler jornal é importante, deve-se tomar muito cuidado com o que se lê.
Jornal foi feito por gente que tem sua própria mente, e quando não está sob sua mente, está sob a mente dos dirigentes do jornal.
Cada palavra escolhida tem uma intenção, cada construção de frase pretende te passar algo. E nem sempre (quase nunca) busca-se uma imparcialidade no que é dito.
Eu nem de longe sou partidária da Marta Suplicy, mas outro dia, na capa da Folha, eles colocaram uma machete parecida com essa: "Metrô deixa de ser promessa para Marta". E depois, na página onde tinha a noticia inteira, eles explicam melhor: A extensão do metrô não é algo garantido porque depende do governo do estado. Para quem não sabe, isso é óbvio. O metrô está sobre controle do estado de São Paulo, o máximo que o prefeito da capital pode fazer é pressão para que seus projetos sejam aceitos. O jornal se aproveitou que ela esclareceu isso e fez com que a declaração dela parecesse uma incompetência. Sujo? Muito sujo.
Mas quem é um bom leitor da Folha sabe que eles não gostam nem um pouquinho do PT, e não medem parcialidade para falar deles. Você percebe pelos destaques a algumas coisas e até mesmo o tom com que são escritas as reportagens. Eles têm todos os motivos para não gostar do PT, mas, como jornal respeitado, a Folha é um meio de comunicação que deveria prezar pelo justo. Tem sujeira, pode, DEVE falar. Mas fale de TODAS as sujeitas.
Quem lê só a capa fica com uma impressão errada do que está acontecendo. E esse ao menos é um meio fácil de encontrar manipulação, pior quando sua única fonte de informação sobre o assunto é o jornal. É muito difícil saber o que é verdade e o que está distorcido. Às vezes você só pode contar com a sua memória (ou com a dos seus familiares e amigos, se for algo que você não sabe). Ou a partir para informações adicionais na internet, que é a coisa mais anárquica e livre que já se pôde inventar. Você encontra mídia independente (geralmente são todas de esquerda e inexpressivas, muito alternativas, mas ao menos são outros pontos de vistas que você pode fundir com o que você leu na mídia de massa e encontrar uma média própria sobre o assunto), blogs (oi!), vídeos, sites sobre o assunto...
Dificilmente você encontrará algo imparcial, mas ver os vários lados permite que você tenha sua própria opinião. E permite que você seja bem mais informado.
Eu sei bem que é muito dificil você se interessar tanto por um assunto a ponto de ler muito a mais sobre ele.
Mas a grande recomendação é que seja lá o que você ler, não tome como verdade, desconfie. Até mesmo o que parece tão certo pode ter uma informação escondida que muda todo o ponto de vista sobre o assunto.
Tome cuidado não só com os textos, mas com as fotos. A Folha adora fazer isso. As fotos querem passar uma mensagem. Às vezes são engraçadinhas, artísticas, assustadoras. Outras vezes são puramente manipuladoras. Políticos fazendo cara de safados, cansados de um discurso que devia ser importante, rindo numa noticia que deveria ser triste... Esse tipo de coisa. Para não me ater só à política, muçulmanos com caras furiosas segurando armas. Sempre. A não ser quando é para falar de morte, quando as fotos entristecedoras. Mães jogadas, chorando a morte de seus filhos. Crianças ensanguentadas, sem braço, perdidas.
A exposição a uma noção repetida, uma informação, ou várias informações que contem uma mesma noção, é o melhor jeito de cair na rede mídia. O que você pensa sobre o Oriente Médio? Ou da Russia? Ou do nosso governo?
O quanto isso tem a ver com o que você lê? O quanto isso tem a ver com a verdade?
É muito difícil escapar da rede. E nem sempre a rede está errada. Mas eu aposto minha perna que ela nunca estará 100% certa. Ela está sempre cheia de interesses. Alguns apenas do jornal, outras de governos, ou de empresas. Resta-nos a difícil tarefa de filtrar. Não acredite em tudo o que lê.
*EEEEEEE*
1. Último filme no cinema? Ao entardecer, com a Meryl Streep e sua filha no elenco. Lindo filme. Drama feminino, talvez, apesar de o tema principal ser razões da vida. No mesmo dia eu vi o documentário Mistérios do Samba, conduzido pela Marisa Monte, sobre a velha guarda da Portela. Cativante, para quem gosta de samba de raiz.
2. Último filme em DvD? Orgulho e Preconceito, com a Keira Knightly. Outro lindo filme (palmas para a trilha sonora! E o elenco masculino também... XD), mais drama feminino ainda, porque esse é puro amor. Não que homens não possam gostar, mas é uma tendência...
3. Que livro está lendo? Milhares para trabalhos trabalhosos, mas um em particular apenas para aprofundamento: A Manilha e o Libambo - Alberto Costa e Silva, africanista.
4. Último vídeo no Youtube? O McCain na Ellen, falando sobre casamento gay. Admiro a coerência e coragem dele de manter suas posições num ambiente que é hostil a elas, mas que são posições ultrapassadas, isso são. Acabei vendo esse porque vi a entrevista do Obama com ela (esse é um pedaço dela, não acho inteira em um vídeo só), muito mais divertida, de fato.
5. Reflexão do Dia: Estamos todo dia sujeitos às opiniões dos outros. Ouça, leia e faça a sua própria. É um favor a você mesmo. Tenha em mente que nada é simples.
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sábado, 27 de setembro de 2008
A farsa da intelectualidade
Vamos deixar algumas coisas clara:
A minha mãe foi uma criança muito nerd e relativamente solitária. Não que ela não tivesse amigos, mas ela gostava de passar o tempo sozinha lendo. De preferência, coisas que criança não lê, como mitologia grega, História (sim, por conta própria) e Shakespeare, embora tivesse os Monteiro Lobatos da vida (que hoje também já não é muito usual... O que o diga os livros ilustrados da Disney - Nada contra, eu amava!).
Não bastasse isso, toda a família dela, irmãos e mãe, tinha engajamento político e acompanhava as coisas que aconteciam com o país e com o mundo, numa época, como os que não a viram sabem pelas aulas de História (supõe-se), muito dura, ainda mais para os encantados com as esperanças do mundo do socialismo.
A associação, espero, já é óbvia. Não querendo me aproveitar de teorias deterministas, devo dizer que a influência da minha mãe sobre a carga cultural que minha irmã e eu possuímos é evidente. Talvez tenhamos tido sorte na probabilidade genética, ou algumas coisas na nossa vida ajudaram a gente acabar absorvendo um pouco do que a nossa mãe tentou nos educar.
Desse ponto de vista, passo então a contar minha mini historinha, que logo vocês entenderão que não passa de uma auto-defesa ( e fortalecimento) para o que tenho a dizer hoje.
Como toda mãe que anseia para que seu filho leia e tem informação dos procedimentos pedagógicos, minha mãe tinha o hábito de ler na nossa frente, comprar livrinhos coloridos para nós e, ao menos para mim (acabo de perceber que nunca perguntei isso para minha irmã, já que ela é mais velha), ela teve algumas oportunidade de ler os contos dos Grimms (leu mais coisas, mas os Grimms são marcantes na minha infância) quando eu era pequena.
A estratégia funcionou,e a partir dos meus oito anos, eu tentava ler coisas com menos figuras. Com 10, minha mãe viu que eu me empolguei muito com O mágico de Oz que peguei no colégio, que não tinha nenhuma figura, e resolveu me dar um livro que havia saído a um pouco mais de um mês no país e o cara na livraria disse que fazia sucesso na Inglaterra e que, apesar de infanto-juvenil, ele leu e gostou. O meu primeiro livro sem figuras dado pela minha mãe foi um tal de Harry Potter e a Pedra Filosofal, em 2000. Para quem estava começando a se acostumar com livros de 200 páginas sem figura, quatro dias de leitura foi bem rápido (créditos à J.K. Rowling).
Minha relação com a leitura, que já estava crescendo, ficou meio doentia. Não sei quantos livros li aos meus dez anos, mas passaram de 10 com certeza. Quando eu tinha 13, então, que estava passando por uma fase difícil, a leitura foi válvula de escape. Sei lá eu quantos foram.
Ok. Entendeu que li bastante. E nessa tal "fase difícil" eu cacei clássicos, tipo A Megera Domada, A Utopia e Viagem ao centro da Terra. Eu tinha na cabeça uma coisa idiota alimentada pela sociedade que clássicos significam coisa inteligente, ou algo parecido com isso. Sinônimo de qualidade. O problema não está em crer nisso, o problema está na hiper valorização disso.
Segura esse ponto que eu volto a ele depois.
Outro ponto da minha criação relevante para o tema de hoje também tem a ver com leitura. Mas de jornal. Meus pais liam/leêm jornal com muita vontade, e nós assinamos a Folha de São Paulo há mais de uma década. Com meus oito aninhos, eu lia os quadrinhos e o caderno das crianças que saía aos sábados. Mas era um passo para se interessar por jornal. Aliás, algo curioso: eu sabia do tal Harry Potter antes da minha mãe me dar porque a Folhinha tinha feito uma reportagem um mês antes falando do lançamento. Assim como meus interesses foram se 'sofisticando', as partes que eu lia do jornal também. Aos 10 eu lia a capa, o caderno cultural e a Folhinha, claro. Não muito depois eu já estava lendo o caderno de política e internacional.
Esse interesse "sofisticado" veio das conversas de casa. Meus pais não exitavam em falar de política e de explicá-la para nós. Além do mais, minha irmã e eu somos boas observadoras e ouvintes. A gente aprendeu também ouvindo e olhando as reações dos nossos pais. E eu, particularmente, como minha irmã tem quase 8 anos a mais que eu, tive influência consciente dela, que aparentemente sentia prazer em me manter informada ou de expor as opiniões dela (coisa de jornalista? ou é de família mesmo?).
Certo, que mais que falta?
Acho que coisas de personalidade. Não vou contar historinhas, isso já está muito grande. Tenha em mente então que eu era uma aluna muito melhor do que eu sou agora, tinha uma considerável memória (que hoje me dá vontade de chorar em pensar o quanto ela deteriorou), gosto de coisas bizarras e abstratas, sou adepta dos "cults", gosto de coisas nas entrelinhas, gosto de metáforas, gosto do simples que significa algo... Mas passei por um processo que começou há quase 3 anos e que nesse ano atingiu um ponto alto: eu detesto o menosprezo pelo o que é divertido e leve, o que simplesmente é e não tem nenhuma pretensão, pelo que é popular, tem sucesso e não está dentro do meio intelectual.
Pronto, cheguei.
Obviamente que essa explosão da raiva pelo desprezo a essas coisas vem do ambiente que agora eu me encontro. Tem coisa mais hipertônica de intelectuais do que a FFLCH (Faculdade de Filosfia, Letras e Ciências Humanas, na USP)? São mais de 12000 criaturas em, se você dividir as ciências sociais, 7 cursos!
Gente falando complicado algo que é simples; gente tentando politizar algo que não tem nenhuma pretensão de ser politizado; gente quase montando altar para pensadores que são considerados importantes, tentando fazer com que algo só seja válido se a base for neles; gente achando que só usar expressões técnicas tem valor de raciocínio; gente blasé, que diz gostar de coisas 'subversivas', abstratas, com 'mensagens profundas' e dos clássicos como se só eles fossem arte de verdade ou os únicos que trouxessem algo para nossas vidas.
Sério, meus primeiros meses com esse tipo de gente, essecialmente arrogante, foi irritante. Não são os 12000 que são assim, claro, mas a porcentagem irreal faz bem o seu trabalho. Numa comparação que talvez eu obtenha empatia, e que eu gostaria de dizer que não é uma questão de preconceito, já que não é pessoal, e sim de gosto, o modo de alguns intelectuais, ou projeto de intelectuais, falarem, 'inacessível' (eu acompanhava, mas queimava uns neorônios mesmo assim. Fico imaginando alguém com menos bagagem do que eu, que tive oportunidades e sorte, ouvindo algumas coisas) é tão ou mais irritante do que a moleza da fala e a ignorância do português de alguém da favela.
Fora isso, todos os atos, para eles, tem que ter um significado, uma segunda intenção. De preferência, algo interesseiro e corrupto, porque aparentemente para eles a alma é feita só disso. Estou exagerando, claro. Mas é só para deixar minha raiva enfática.
Agora, vamos pretenciosamente desmoronar o ideário desses 'intelectuais'.
Primeiro de tudo, somos humanos. E como humanos, erramos, acertamos, blablabla... Mas, principalmente aqui, tudo que se sabe, tudo que se interpreta, por ter vindo de humanos, por mais qualificados que eles estejam, está sujeito a uma revisão. E assim como algo que foi dito antes deve ser re-examinado, algo que é dito agora, por alguém inicialmente "insignificante", pode ser genial.
Vou me aproveitar das minhas aulas e dos debates que rodam nelas, se me permitem. Se Marx disse alguma coisa, não é regra. Várias vezes ele já foi contrariado, mas ainda há muito gente que põe um pedestal no cara. Não é uma questão de menosprezar o que ele diz, ninguém deve ser menosprezado quando tem uma opinião interessante (é mais difícil não menosprezar opiniões que não tem novidade nem polêmica nenhuma, não concorda? Em qualquer lugar, não me refiro só aos pomposos debates acadêmicos), é só uma questão de atualizar e de ter mente própria. As coisas que são ditas pelos intelectuais e divididas deviam ser usadas para se refletir e você criar seus argumentos, não para você usar o que eles dizem como argumento, como um fato empírico. Como eu peguei Marx para Judas, vamos usá-lo: ele teve a infeliz, mas de acordo com a sua contemporanidade, idéia de chamar os sistemas coloniais ibéricos de "feudais". Eurocentrismo puro, já que as relações de servo e senhor feudal são bem diferentes das relações do escravo com o senhor de engenho. Há quem diga que elas são meio-feudais, só porque a propriedade da terra é que consiste as relações de poder. Rola debates. Eu penso que quem defende é só para não enfraquecer mais o Marx, porque estamos no século XXI e já passou a época de usar termologias antigas para descrever coisas diferentes, por mais que elas tenham algum tipo de relação. Enfim, sem debates historigráficos...
Aqui nós temos outra temática dos erros das ciências humanas 'ocidentais': enquadrar a humanidade em padrões. Tudo bem que sem "classificações" tudo fica muito complicado e confuso de estudar, mas assumir uma posição de fórmulas que devem encaixar em tudo, e aplicá-las como se realmente encaixassem, é um erro muito comum da intelectualidade. Afinal, cadê a humanidade da bagaça? Cadê o livre-arbítrio? Cadê as sensações diferentes? Elas não precisam ser descritas, senão seria um caos. Mas as considerar é imprescindível na hora de julgar.
Um ponto que levantei lá em cima: a hiper valorização dos clássicos e dos renomados, e dos abstratos, dos cults, dos minoritários, dos politizados, das artes com suposta "mensagem profunda" etc... Quando se fala de clássicos, temos obras que ganharam importância, relevância e possuem qualidade dentro de seus meios. Conhecer clássicos é muito valorizado, te dá status, como se só isso fosse suficiente. A questão não é "não leiam/vejam clássicos" a questão é "por que você leu/viu o clássico e por que é importante para VOCÊ?". Putz, aí que pega. Que valor tem em ler, por exemplo, um clássico se ele não significou nada para você? A culpa não é do clássico e às vezes também não é sua. "Às vezes" porque se um clássico é um clássico, tem um motivo, e saber o motivo e entendê-lo muitas vezes faz com que você acabe gostando. Ou seja, não tenha preguiça. Se você não teve preguiça e foi uma questão de gosto, falta de empatia, o que for... Acontece. Eu não gostei de Utopia, apesar que eu achei interessante (não significa que acho certo) a forma governada por filosófos e os grandes sábios da sociedade. Mas em Utopia, como um livro de sua época, posiciona a mulher como objeto, como ser inferior, e tem escravos. Foi o suficiente para eu ficar insatisfeita com a leitura. Fora os inúmeros furos... Enfim.
O que tenho a dizer é que clássicos não são deuses. Eles têm furos, eles não agradam todo mundo, eles não são 100% geniais... Mas parece que é muito mais fácil para um intelectual (ou pseudo-intelectual) não gostar de algo que seja assim e que não é um clássico, do que identificar deslizes ou não achar tão demais um clássico pelo seu motivo de consagração.
Intelectual tem aversão ao que é popular ou ao que é mais divertido do que qualquer outra pretensão. Não que eles não saibam se divertir a seu jeito (cerveja... rs...), mas quando se trata de arte e/ou entrenimento, sim, é bem assim. O que é popular sempre vira, na cabeça deles, apenas um apreveitador, um instrumento do 'capitalismo selvagem', louco para comer e agarrar dinheiro. Perde qualquer tipo de valor. Só o lucro que a coisa obteve por ser popular entra na lista de considerações do pseudo-intelectual. Quero dizer, é óbvio que o que fica popular é explorado em sua forma de arrencadador de capital, mas e o resto?
E, também, qual é o problema de algo ser divertido, e apenas isso?
Existem inúmeras artes, muito expressivamente nas plásticas, que algo é feito só para divertir. Algo de cabeça para baixo pode ter o intuito de apenas querer colocar algo para baixo, porque é devertido, não porque "significa a estrutura corrompida, que é a mesma coisa, mas tornasse outra visualmente com um simples gesto". Se o intelectual não despreza o divertido, ele procura dar uma mensagem inexistente a ela.
Já vi muito distorções acontecerem, tentando intelectualizar algo despretencioso. Tem um episódio muito marcante para mim que aconteceu no começo do ano, na minha faculdade.
Grupos estavam apresentando seus trabalhos de vídeo do ano passado. E um desses grupos fez um vídeo sobre a descoberta do nome real do avô de um dos integrantes. A busca passou por entrevistas com os familiares, a descobeta do envolvimento militar do avô etc... Aí veio um desses pesudo intelectuais, no debate sobre os vídeos, falar o quão foi interessante essa tentativa do vídeo de mostrar um "conflito social" envolta do nome, essa mostra do sufocamento militar (detalhe: o envolvimento militar foi abordado por poucos segundos) e umas outras baboseiras ... Aí o "líder" do grupo virou: "Na verdade, eu só quis mostrar as diferentes versões para o nome do meu avô".
Eu ri muito internamente.
Eu considero essas auto-restrições de gosto e pensamento da intelectualidade são um dos grandes problemas dela se relacionar com a sociedade. Ao mesmo tempo que ela gostaria que seu conhecimento fosse extendido à sociedade (pelo menos em discurso), ela gosta de se isolar. Ela não tem tato para fazer uma média entre suas reflexões e debates e coisas que interessam à sociedade de massa.
Como ela espera ser levada a sério alimentando esteriótopos?
Por que ela insiste em dar a natureza e ao comum um significado que eles muitas vezes não têm? Por que não simplesmente ser?
Para quê fingir que inteligência é racionalidade, literatura e 'profundidade' (ou o que eles julgam ser cada uma das três)?
*Yupie*
1. O que está ouvindo? Like a Prayer - Madonna =D
2. Último filme no cinema? Nem por cima do meu cadáver. Muito divertido.
Mas eu devo dizer que nesse meio-tempo eu vi Ensaio sobre a Cegueira, que entrou no top dos meus filmes favoritos. Fernando Meirelles é demais! Tem dois filmes dele nessa lista agora (O Jardineiro Fiel também está).
3. Último filme na TV? Simplesmente Amor. Sim, eu nunca tinha visto. Gostei, apesar de não ter visto os primeiros 30 min.
4. Último filme em DVD? Ed Wood, do Tim Burton. Esperava um pouco mais, mas eu gostei. Esteja preparado para exageros intencionais, numa tentativa inspirada nos próprios filmes do Ed Wood. Fiquei com vontade de vê-los, por sinal. Deve ser ótimo para rir =D
5. Reflexão do Dia: Ponto de vistas mudam! Uau! ;-D
A minha mãe foi uma criança muito nerd e relativamente solitária. Não que ela não tivesse amigos, mas ela gostava de passar o tempo sozinha lendo. De preferência, coisas que criança não lê, como mitologia grega, História (sim, por conta própria) e Shakespeare, embora tivesse os Monteiro Lobatos da vida (que hoje também já não é muito usual... O que o diga os livros ilustrados da Disney - Nada contra, eu amava!).
Não bastasse isso, toda a família dela, irmãos e mãe, tinha engajamento político e acompanhava as coisas que aconteciam com o país e com o mundo, numa época, como os que não a viram sabem pelas aulas de História (supõe-se), muito dura, ainda mais para os encantados com as esperanças do mundo do socialismo.
A associação, espero, já é óbvia. Não querendo me aproveitar de teorias deterministas, devo dizer que a influência da minha mãe sobre a carga cultural que minha irmã e eu possuímos é evidente. Talvez tenhamos tido sorte na probabilidade genética, ou algumas coisas na nossa vida ajudaram a gente acabar absorvendo um pouco do que a nossa mãe tentou nos educar.
Desse ponto de vista, passo então a contar minha mini historinha, que logo vocês entenderão que não passa de uma auto-defesa ( e fortalecimento) para o que tenho a dizer hoje.
Como toda mãe que anseia para que seu filho leia e tem informação dos procedimentos pedagógicos, minha mãe tinha o hábito de ler na nossa frente, comprar livrinhos coloridos para nós e, ao menos para mim (acabo de perceber que nunca perguntei isso para minha irmã, já que ela é mais velha), ela teve algumas oportunidade de ler os contos dos Grimms (leu mais coisas, mas os Grimms são marcantes na minha infância) quando eu era pequena.
A estratégia funcionou,e a partir dos meus oito anos, eu tentava ler coisas com menos figuras. Com 10, minha mãe viu que eu me empolguei muito com O mágico de Oz que peguei no colégio, que não tinha nenhuma figura, e resolveu me dar um livro que havia saído a um pouco mais de um mês no país e o cara na livraria disse que fazia sucesso na Inglaterra e que, apesar de infanto-juvenil, ele leu e gostou. O meu primeiro livro sem figuras dado pela minha mãe foi um tal de Harry Potter e a Pedra Filosofal, em 2000. Para quem estava começando a se acostumar com livros de 200 páginas sem figura, quatro dias de leitura foi bem rápido (créditos à J.K. Rowling).
Minha relação com a leitura, que já estava crescendo, ficou meio doentia. Não sei quantos livros li aos meus dez anos, mas passaram de 10 com certeza. Quando eu tinha 13, então, que estava passando por uma fase difícil, a leitura foi válvula de escape. Sei lá eu quantos foram.
Ok. Entendeu que li bastante. E nessa tal "fase difícil" eu cacei clássicos, tipo A Megera Domada, A Utopia e Viagem ao centro da Terra. Eu tinha na cabeça uma coisa idiota alimentada pela sociedade que clássicos significam coisa inteligente, ou algo parecido com isso. Sinônimo de qualidade. O problema não está em crer nisso, o problema está na hiper valorização disso.
Segura esse ponto que eu volto a ele depois.
Outro ponto da minha criação relevante para o tema de hoje também tem a ver com leitura. Mas de jornal. Meus pais liam/leêm jornal com muita vontade, e nós assinamos a Folha de São Paulo há mais de uma década. Com meus oito aninhos, eu lia os quadrinhos e o caderno das crianças que saía aos sábados. Mas era um passo para se interessar por jornal. Aliás, algo curioso: eu sabia do tal Harry Potter antes da minha mãe me dar porque a Folhinha tinha feito uma reportagem um mês antes falando do lançamento. Assim como meus interesses foram se 'sofisticando', as partes que eu lia do jornal também. Aos 10 eu lia a capa, o caderno cultural e a Folhinha, claro. Não muito depois eu já estava lendo o caderno de política e internacional.
Esse interesse "sofisticado" veio das conversas de casa. Meus pais não exitavam em falar de política e de explicá-la para nós. Além do mais, minha irmã e eu somos boas observadoras e ouvintes. A gente aprendeu também ouvindo e olhando as reações dos nossos pais. E eu, particularmente, como minha irmã tem quase 8 anos a mais que eu, tive influência consciente dela, que aparentemente sentia prazer em me manter informada ou de expor as opiniões dela (coisa de jornalista? ou é de família mesmo?).
Certo, que mais que falta?
Acho que coisas de personalidade. Não vou contar historinhas, isso já está muito grande. Tenha em mente então que eu era uma aluna muito melhor do que eu sou agora, tinha uma considerável memória (que hoje me dá vontade de chorar em pensar o quanto ela deteriorou), gosto de coisas bizarras e abstratas, sou adepta dos "cults", gosto de coisas nas entrelinhas, gosto de metáforas, gosto do simples que significa algo... Mas passei por um processo que começou há quase 3 anos e que nesse ano atingiu um ponto alto: eu detesto o menosprezo pelo o que é divertido e leve, o que simplesmente é e não tem nenhuma pretensão, pelo que é popular, tem sucesso e não está dentro do meio intelectual.
Pronto, cheguei.
Obviamente que essa explosão da raiva pelo desprezo a essas coisas vem do ambiente que agora eu me encontro. Tem coisa mais hipertônica de intelectuais do que a FFLCH (Faculdade de Filosfia, Letras e Ciências Humanas, na USP)? São mais de 12000 criaturas em, se você dividir as ciências sociais, 7 cursos!
Gente falando complicado algo que é simples; gente tentando politizar algo que não tem nenhuma pretensão de ser politizado; gente quase montando altar para pensadores que são considerados importantes, tentando fazer com que algo só seja válido se a base for neles; gente achando que só usar expressões técnicas tem valor de raciocínio; gente blasé, que diz gostar de coisas 'subversivas', abstratas, com 'mensagens profundas' e dos clássicos como se só eles fossem arte de verdade ou os únicos que trouxessem algo para nossas vidas.
Sério, meus primeiros meses com esse tipo de gente, essecialmente arrogante, foi irritante. Não são os 12000 que são assim, claro, mas a porcentagem irreal faz bem o seu trabalho. Numa comparação que talvez eu obtenha empatia, e que eu gostaria de dizer que não é uma questão de preconceito, já que não é pessoal, e sim de gosto, o modo de alguns intelectuais, ou projeto de intelectuais, falarem, 'inacessível' (eu acompanhava, mas queimava uns neorônios mesmo assim. Fico imaginando alguém com menos bagagem do que eu, que tive oportunidades e sorte, ouvindo algumas coisas) é tão ou mais irritante do que a moleza da fala e a ignorância do português de alguém da favela.
Fora isso, todos os atos, para eles, tem que ter um significado, uma segunda intenção. De preferência, algo interesseiro e corrupto, porque aparentemente para eles a alma é feita só disso. Estou exagerando, claro. Mas é só para deixar minha raiva enfática.
Agora, vamos pretenciosamente desmoronar o ideário desses 'intelectuais'.
Primeiro de tudo, somos humanos. E como humanos, erramos, acertamos, blablabla... Mas, principalmente aqui, tudo que se sabe, tudo que se interpreta, por ter vindo de humanos, por mais qualificados que eles estejam, está sujeito a uma revisão. E assim como algo que foi dito antes deve ser re-examinado, algo que é dito agora, por alguém inicialmente "insignificante", pode ser genial.
Vou me aproveitar das minhas aulas e dos debates que rodam nelas, se me permitem. Se Marx disse alguma coisa, não é regra. Várias vezes ele já foi contrariado, mas ainda há muito gente que põe um pedestal no cara. Não é uma questão de menosprezar o que ele diz, ninguém deve ser menosprezado quando tem uma opinião interessante (é mais difícil não menosprezar opiniões que não tem novidade nem polêmica nenhuma, não concorda? Em qualquer lugar, não me refiro só aos pomposos debates acadêmicos), é só uma questão de atualizar e de ter mente própria. As coisas que são ditas pelos intelectuais e divididas deviam ser usadas para se refletir e você criar seus argumentos, não para você usar o que eles dizem como argumento, como um fato empírico. Como eu peguei Marx para Judas, vamos usá-lo: ele teve a infeliz, mas de acordo com a sua contemporanidade, idéia de chamar os sistemas coloniais ibéricos de "feudais". Eurocentrismo puro, já que as relações de servo e senhor feudal são bem diferentes das relações do escravo com o senhor de engenho. Há quem diga que elas são meio-feudais, só porque a propriedade da terra é que consiste as relações de poder. Rola debates. Eu penso que quem defende é só para não enfraquecer mais o Marx, porque estamos no século XXI e já passou a época de usar termologias antigas para descrever coisas diferentes, por mais que elas tenham algum tipo de relação. Enfim, sem debates historigráficos...
Aqui nós temos outra temática dos erros das ciências humanas 'ocidentais': enquadrar a humanidade em padrões. Tudo bem que sem "classificações" tudo fica muito complicado e confuso de estudar, mas assumir uma posição de fórmulas que devem encaixar em tudo, e aplicá-las como se realmente encaixassem, é um erro muito comum da intelectualidade. Afinal, cadê a humanidade da bagaça? Cadê o livre-arbítrio? Cadê as sensações diferentes? Elas não precisam ser descritas, senão seria um caos. Mas as considerar é imprescindível na hora de julgar.
Um ponto que levantei lá em cima: a hiper valorização dos clássicos e dos renomados, e dos abstratos, dos cults, dos minoritários, dos politizados, das artes com suposta "mensagem profunda" etc... Quando se fala de clássicos, temos obras que ganharam importância, relevância e possuem qualidade dentro de seus meios. Conhecer clássicos é muito valorizado, te dá status, como se só isso fosse suficiente. A questão não é "não leiam/vejam clássicos" a questão é "por que você leu/viu o clássico e por que é importante para VOCÊ?". Putz, aí que pega. Que valor tem em ler, por exemplo, um clássico se ele não significou nada para você? A culpa não é do clássico e às vezes também não é sua. "Às vezes" porque se um clássico é um clássico, tem um motivo, e saber o motivo e entendê-lo muitas vezes faz com que você acabe gostando. Ou seja, não tenha preguiça. Se você não teve preguiça e foi uma questão de gosto, falta de empatia, o que for... Acontece. Eu não gostei de Utopia, apesar que eu achei interessante (não significa que acho certo) a forma governada por filosófos e os grandes sábios da sociedade. Mas em Utopia, como um livro de sua época, posiciona a mulher como objeto, como ser inferior, e tem escravos. Foi o suficiente para eu ficar insatisfeita com a leitura. Fora os inúmeros furos... Enfim.
O que tenho a dizer é que clássicos não são deuses. Eles têm furos, eles não agradam todo mundo, eles não são 100% geniais... Mas parece que é muito mais fácil para um intelectual (ou pseudo-intelectual) não gostar de algo que seja assim e que não é um clássico, do que identificar deslizes ou não achar tão demais um clássico pelo seu motivo de consagração.
Intelectual tem aversão ao que é popular ou ao que é mais divertido do que qualquer outra pretensão. Não que eles não saibam se divertir a seu jeito (cerveja... rs...), mas quando se trata de arte e/ou entrenimento, sim, é bem assim. O que é popular sempre vira, na cabeça deles, apenas um apreveitador, um instrumento do 'capitalismo selvagem', louco para comer e agarrar dinheiro. Perde qualquer tipo de valor. Só o lucro que a coisa obteve por ser popular entra na lista de considerações do pseudo-intelectual. Quero dizer, é óbvio que o que fica popular é explorado em sua forma de arrencadador de capital, mas e o resto?
E, também, qual é o problema de algo ser divertido, e apenas isso?
Existem inúmeras artes, muito expressivamente nas plásticas, que algo é feito só para divertir. Algo de cabeça para baixo pode ter o intuito de apenas querer colocar algo para baixo, porque é devertido, não porque "significa a estrutura corrompida, que é a mesma coisa, mas tornasse outra visualmente com um simples gesto". Se o intelectual não despreza o divertido, ele procura dar uma mensagem inexistente a ela.
Já vi muito distorções acontecerem, tentando intelectualizar algo despretencioso. Tem um episódio muito marcante para mim que aconteceu no começo do ano, na minha faculdade.
Grupos estavam apresentando seus trabalhos de vídeo do ano passado. E um desses grupos fez um vídeo sobre a descoberta do nome real do avô de um dos integrantes. A busca passou por entrevistas com os familiares, a descobeta do envolvimento militar do avô etc... Aí veio um desses pesudo intelectuais, no debate sobre os vídeos, falar o quão foi interessante essa tentativa do vídeo de mostrar um "conflito social" envolta do nome, essa mostra do sufocamento militar (detalhe: o envolvimento militar foi abordado por poucos segundos) e umas outras baboseiras ... Aí o "líder" do grupo virou: "Na verdade, eu só quis mostrar as diferentes versões para o nome do meu avô".
Eu ri muito internamente.
Eu considero essas auto-restrições de gosto e pensamento da intelectualidade são um dos grandes problemas dela se relacionar com a sociedade. Ao mesmo tempo que ela gostaria que seu conhecimento fosse extendido à sociedade (pelo menos em discurso), ela gosta de se isolar. Ela não tem tato para fazer uma média entre suas reflexões e debates e coisas que interessam à sociedade de massa.
Como ela espera ser levada a sério alimentando esteriótopos?
Por que ela insiste em dar a natureza e ao comum um significado que eles muitas vezes não têm? Por que não simplesmente ser?
Para quê fingir que inteligência é racionalidade, literatura e 'profundidade' (ou o que eles julgam ser cada uma das três)?
*Yupie*
1. O que está ouvindo? Like a Prayer - Madonna =D
2. Último filme no cinema? Nem por cima do meu cadáver. Muito divertido.
Mas eu devo dizer que nesse meio-tempo eu vi Ensaio sobre a Cegueira, que entrou no top dos meus filmes favoritos. Fernando Meirelles é demais! Tem dois filmes dele nessa lista agora (O Jardineiro Fiel também está).
3. Último filme na TV? Simplesmente Amor. Sim, eu nunca tinha visto. Gostei, apesar de não ter visto os primeiros 30 min.
4. Último filme em DVD? Ed Wood, do Tim Burton. Esperava um pouco mais, mas eu gostei. Esteja preparado para exageros intencionais, numa tentativa inspirada nos próprios filmes do Ed Wood. Fiquei com vontade de vê-los, por sinal. Deve ser ótimo para rir =D
5. Reflexão do Dia: Ponto de vistas mudam! Uau! ;-D
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