sexta-feira, 15 de abril de 2011

A USP e suas muitas greves.

Este ano é número impar. Logo, haverá greve geral dos setores da USP.

A brincadeira para tratar de forma humorada uma situação crônica na usp guarda vários sentidos.
Ela é feita por quem está envolvido nos movimentos de greve, e por quem não aguenta mais e/ou não entende os motivos da greve.

Primeiro de tudo: há um excesso no mecanismo de greve que a desgasta como forma legítima de reinvidicação, ainda, óbvio, que o seja. Antes de haver greve, é necessário que haja um grande esforço de atos para impedir que ela precise ser usada, porque o tamanho do prejuízo financeiro, pessoal e de vez em quando até moral que ela traz para os estudantes, professores e pessoas ligadas à Universidade não é para brincadeira.

Os movimentos sociais centrais envolvidos têm um pouco de dificuldade de entender isso. Como greves de muitos anos trouxeram conquistas importantes, creem que ela é o meio mais eficiente. Portanto, os movimentos acabam tendo preguiça de inovar. E, por consequência, preguiça de convencer. Ficam em seus campos fechados, com as convicções dos seus ideais e de suas informações, esquecem que antes de apresentar proposta, reinvidicações e críticas aos sistemas e mecanismos da USP, precisam informar, dialogar de forma pacífica e não simplesmente forçar os outros a aceitarem suas ideias.
Isolam-se, fazem-se de heróis solitários entre eles, porque muitas das lutas geram conquistas para quem "não está nem aí" pro que está acontecendo. Parte dessas pessoas "nem aí" não é simpática a palavras de ordem impostas e a atitudes que soam apenas agressivas a quem não sabe exatamente o que está acontecendo. Mas não significa que não são sensibilizáveis a causas. Ainda mais na FFLCH, onde estou devidamente introduzida, a abertura para solidariedade e para critica é grande. Porém, quando bem apresentada.
Antes de chegar a greve, deve chegar a mobilização (que às vezes torna a greve desnecessária, em atos e protestos de peso), para chegar à mobilização é preciso convencer, para convencer, é preciso informar.

A fórmula é básica e conhecida. Vez ou outra chacoteada, vez ou outra defendida.

Mas existe uma certa complicação de conceito no que diz respeito a "informar". O melhor do informar é professoral. São dados, fatos, evitando juízos, permitindo - sem pressão - o questionamento.
É muito comum os movimentos acharem que estão informando quando chegam em salas com os discursos do tipo "a Reitoria, de forma opressora, perseguiu n alunos por conta de tais protestos durante as férias... etc.. mecanismos de opressão... a ditadura da USP... sistema de mercantilização do ensino...". E o que os alunos sabem na sala é que no meio dos tais protesto houveram "atos de vandalismo". E ficam com isso, ignoram qualquer possível informação apreensível em meio a palavras de ordem.

Isso não é informar. Não é aproximar. É criar um buraco.

Há um buraco, de ambos os lados, aberto pelas pás do preconceito. Essas pás são geradas por uma trava quando um enxerga o outro e já logo pensa: "iiiih... lá vem". Sem saber do que se tratam aqueles termos, sem se abrir pra ignorância alheia, sem permitir que se entenda o que tem por trás do discurso de cada um.
O que se faz na maioria das relações entre os movimentos e as pessoas à parte dele não é informação. É descomunicação.
O movimento assusta, não se expressa direito, impõe e radicaliza.
As pessoas à parte dificilmente se interessam, são irritadas com a maneira como as coisas funcionam nos mecanismos representativos (muito fechados a "panelas" ideológicas e falta de praticidade), alienam-se e se tornam passivas aos problemas.

É incrível como vez ou outra aparece alguém que entrou no movimento, diz que não se interessava antes porque achava radical, com muito envolvimento partidário e sua politicagem (um fato, que não anula nada de nada nos problemas criticados, só irrita pelo jeito como funcionam), mas depois que entendeu as reinvidicações, acaba agindo da mesma forma que antes a afastava. Fica a sensação de que eles acham mesmo que o problema está só em quem não se envolve. E não é. Se é o movimento que está querendo convencer, ele deve fazer BEM a sua parte.
Repare: não é uma questão de quem carrega a razão, mas de enxergar qual a profilaxia possível para evitar a patologia crônica do buraco comunicativo.


Agora...

Especialmente em relação a Universidade e políticas públicas, os movimentos não inventam coisas das cinzas do cemitério do ultrapassado, apesar de algumas vezes os termos de alguns grupos remeta a isso (E alguns desses grupos tragam pautas aleatórias que causam estranhamento e não têm sentido objetivo e, portanto, não são levadas a sério e dispersam energias mobilizadoras. Aka: apoio à luta Palestina).
Não teria força nem entre eles críticas à Universidade e a políticas estaduais sem nenhum tipo de fundamento. Não existem moinhos de vento coletivo, muito menos que surgem para professores conhecidamente sensatos e alunos que por muito tempo não se envolviam com os movimentos.

As greves crônicas são resultado de problemas crônicos.

Vemos nos debates recentes a fragilidade e os podres do sistema de terceirização de serviços que cerca a USP. A declaração de falência da União, empresa que fazia a limpeza na FFLCH e outras 10 (14, 17?) instituições da USP, é repleta de situações que são constantes nesse sistema. A começar que já houve falência de terceirizadas. E que uma dessas empresas que já faliram é do mesmo dono da União. E que praticamente todas empresas terceirizadas que trabalham na USP, segundo as informações que rondam os debates, estão ligadas a gente com poder na USP - sendo o próprio "poderoso", um conhecido ou parente. Outra: diz que o repasse da USP para empresa era cerca de 2200 por cabeça de funcionário. Os funcionários recebiam um salário mínimo. Trabalhando em péssimas condições, com produtos ruins, sem vale-transporte, tendo de lidar com falta de luvas e outros utensílios, a ponto de às vezes trazerem de casa.
No caso da União, a Reitoria fez 70% do repasse no mês em que a empresa deveria pagar seus funcionários e não o fez. Essa informação em geral é conhecida e faz com que muita gente não entenda porque o movimento pega no pé da Reitoria. E eis algumas informações circulares que respondem a isso: a União já estava com problemas financeiros e jurídicos quando a Reitoria fez o repasse, e portanto sabia que esse dinheiro ficaria preso na Justiça, e a União não receberia. A Reitoria também pôs em um artigo no contrato de recisão com a União assinado em fevereiro que se comprometia a pagar o último salário dos funcionários. Além disso, a Reitoria, como órgão máximo da USP, é a ponte mais direta entre a mobilização para esses funcionários e uma pressão política no Judiciário.
Fora que, inevitavelmente, todo esse caso que ocorre agora, além de já ter acontecido, pode muito bem a voltar a acontecer, devido a forma como funciona a terceirização dentro da Universidade. Isso faz com que o debate sobre a terceirização se revitalize, e saia das cobertas dos milhões de problemas de má administração e privatização que ocorre dentro da USP e outras universidades - mais além, outras instituições - públicas do país.
A terceirização, segundo os métodos atuais, tem um problema crônico de jogos de interesses - é uma forma de roubar dinheiro público usando desculpa de prestação de serviço (precário demais para o dinheiro que se paga e ainda por cima explorador trabalhista). É um serviço que funciona numa lógica mecânica, acabando por desumanizar seus trabalhadores.
E é daí que vem a palavra de ordem de que existe escravidão na USP: gente sem receber, e que estava recebendo muito pouco para o trabalho que faz, além de condições precárias de trabalho e omissão de direitos trabalhista constitucionais. Existe escravidão na USP.

Se a terceirização é o que está mais em voga nos debates, isso não apaga nos movimentos sociais de que ele é mais um de muitos problemas.

Na FFLCH em particular, os prédios estão cheios de problema de infra-estrutura. Há 3 semanas, uma sala na Letras foi interditada por risco de desabamento. É, pois é.
Em 2009, o prédio da História e da Geografia tinha um problema grave no teto que fazia com que muitas salas tivessem goteiras. Para não falar na sala que tinha uma verdadeira cachoeira, cujo lago que formou virou competição de barquinho de papel como forma de protesto. Ou mesmo na chuva torrencial que transformou as rampas de acesso em tobogã em 2007. Depois da greve que teve em 2009, o processo para obras se acelerou. Está finalizado. Sem goteiras.
Hoje não chove nas salas. Mas isso não resolve o superlotamento de salas, a falta de cursos para as disciplinas (e sala para os cursos) e de professores... Ou o fato de que é frequente faltar sabão nos banheiros, de que as paredes das salas estão feias com reformas mal-feitas e de que os professores não recebem o aumento adequado, ou seja, segundo a inflação há mais de 20 anos.

Existem muitas situações (das quais não sou profundamente informada, mas conheço e vejo os efeitos - mesmo porque, eles não estão super escondidos) que apontam para um projeto mercadológico do conhecimento, que acompanham um processo de privatização da USP. Não haverá um leilão, uma ata do governo ou qualquer coisa declarando privatização da USP. Ela é gradual e silenciosa. Feita através de pequenas medidas que inserem empresas privadas no comando econômico e político (entenda por decisório) de certos cursos e que geram um lento abandono (e, portanto, um posterior fechamento) pela perda de excelência por conta do abandono de professores e escassa verba para projetos e grupos de estudo e falta de (ou inferior em relação a outros lugares) condições adequadas para produção em outros cursos.

Esse manejo tem funcionado. As pessoas atribuem a má administração a condição de instituição pública e tomam a privatização como uma forma de salvar. Não se percebe a existência de um sucateamento, no caso de cursos por abandono, que é intencional, porque não tem como não ser intencional - desinteresse e má administração só vem quando não se tem intenção de melhorias, vontade política manda muito em energia produtiva. Toma-se o sucateamento como um fracasso do próprio curso e/ou instituição, ou mesmo culpa-se o estado da conservação em seus usuários. Não negando o lugar-comum que todos devem fazer a sua parte, a precariedade e antiguidade de equipamentos, ferramentas e objetos denunciam sem pudor o abandono administrativo.

Isso porque estou falando daquilo que está mais presente no meu cotidiano e do que sei mais. Existem inúmeras lutas ao longo desses 20 anos que impediram algumas manobras desse processo privatizador.

O Sintusp carrega um jornal que tem o seu histórico de lutas. Quinta-feira passada, dia 14 de abril, estavam na rampa da História/Geografia a Prof. Marlene Suano e o funcionário demetido e sindicalista Claudionor Brandão a discutir sobre esses problemas. A prof. Marlene falava das posturas adotadas pelo movimentos em lutas justas e recomendava ao Brandão uma mudança em sua atitude para que ele fosse de fato ouvido, já que ele possuía muita informação sobre os problemas da Universidade e o histórico de lutas do Sintusp ao longo de mais de 20 anos. Enfim, ela falava, com a eloquência e sagacidade que lhe é inerente e conhecimento de causa, de algo que sempre circula entre os corredores, em vozes que não são reacionárias em si, mas tem uma raiva da maneira como se conduz as políticas entre DCE, Sintusp e, mais raramente, na ADUSP (Associação dos docentes), e como isso afastava especialmente alunos. Ela falava com a perspectiva que eu tinha também, mas, óbvio, muito mais articulada, informada e com propriedade. No fim, dizia: era preciso mudar abordagem, porque as lutas são justas e urgentes, mas precisam de gente convencida a se mobilizar. Convencer, lógico, não significa que fará todos estarem lá nas ações, mas sustenta apoios e aumenta a massa de quem se predispõe a agir. Além, claro, de não dar brecha para o menosprezo a essas lutas e não dar armas para os opositores atacarem e conquistarem apoio da sociedade.


Para quem conhece o Brandão, sabe que a Marlene estava falando com a grande fonte geradora das posturas mais agressivas de protestos que são adotadas pelo Sintusp. Barricadas, palavras de ordens aos gritos, naquele estilo sindicalista iniciado na década de 70, quebra-quebra, ateação de fogo em coisas... Coisas desse tipo deram brecha pra demissão do cara. Não foi à toa, independente de haver processos que foram forjados e dessas atitudes se tratarem de ato político. Nessas, ele foi acusado de crimes contra a liberdade individual, ameaça, lesão corporal, injúria, constrangimento ilegal... Aconteceram, e deram pretexto para demitir alguém que é incômodo.
Minutos depois dessa conversa, o Brandão foi falar na plenária convocada para os alunos do vespetino decidirem sobre a paralização de apoio aos funcionários terceirizados sem salário, e ele falou como lhe foi recomendado: informativo, sereno.
As pessoas que o estavam ouvindo ali eram pessoas que ficaram pra plenária e não foram pra casa, portanto, pessoas já em si mais interessadas e pacientes, quando não do movimento, então ele podia ter falado do jeito que quisesse. Mas a postura que ele adotou será útil para a palestra sobre história de lutas na Usp que foi projetada naquela conversa Brandão-Marlene-alunos que os estavam ouvindo. E, talvez, quem sabe, para as formas de luta do Sintusp esse ano.


No fundo, é preciso perceber que quem faz greve na USP está muito longe de ser vagabundo ou mero baderneiro. O número de pessoas que estão lá só pra "brincar" acho que nem se conta nos dedos de uma mão, e também não duram muito tempo inseridos no movimento. Muitos dos que quebram coisas etc interpretam essa atitude como forma de chamar atenção. E quando os debates são intensificados depois dessas ações, eles têm pra si de que estão certos em pensar dessa maneira.
Eles não têm clareza que na verdade eles afastam quem eles gostariam que estivessem junto com eles. Ou se tem, não estão interessados em transformar isso numa mobilização de todos. O que não faz sentido nenhum. Não acho que é o caso.
Além disso, quando há paralização, greve etc, nossos calendários são ajustados para reposição. E perdemos as férias de julho. É verdade que tem professor que não repõem, ou repõe porcamente, mas os alunos não contam com isso. Quem vota na greve, está votando pela causa, não para ter o seu cronograma todo desregulado, sem saber se terá férias ou não, correndo o risco de ter seu rendimento comprometido e pagando caro pra comer nos dias de greve.
Quem fica em casa geralmente não votou na greve. Está aborrecido porque não se sente representado e vai ser prejudicado. Diz que quer estudar e fica fazendo seus trabalhos em casa, sem ir pra mobilização. Que é esvaziada. Afinal, eles não foram convencidos nem das causas da greve, quanto mais se predispor a estar em atos em que se fazem manifestações das quais eles discordam. E se há alguma pequena parcela que gosta de greve pra fazer nada, geralmente ela nem vai votar, porque não tem paciência de aguentar as mais de 3 horas de assembleia com discursos difusos, pouco práticos ou repetitivos que geralmente precede essa decisão.

As greves, portanto, não se tratam de uma várzea.

Elas são fruto de graves problemas da USP que são abafados ou distorcidos, e de falta de habilidade dos movimentos sociais que tomam consciência desses problemas e lutam contra estes em agregar, aproximar, inovar e repensar suas condutas.
Parece que a simples represália a sua ações é diretamente ligada a um discurso reacionário e/ou um posicionamento ignorante. Em sua maioria, é sim. Mas isso não tira o fato de que não se faz algo por parte deles para fazer ser diferente.
Enquanto os movimentos não se refazem, com iniciativas mais criativas, discursos mais informativos e mobilização mais original, ele só vai conseguindo reter algumas das ações predatórias contra a Universidade. As greves se banalizam, perdem força de apoio, não são ouvidas em sua essência de causas. Reitoria, governo e empresas privadas vão se esgueirando aos poucos, sufocando os incômodos, desfazendo-os com desculpas, conquistando apoio com lógica mercadológica, desumanizando o conhecimento. E assim estamos indo. Aos poucos.




P.S.: Quando falo aqui em "movimentos", falo dele como um bloco. Tem gente que está lá que não se radicaliza, que não concorda com tudo, que não participa de ações que não apoiam. Mas não são maioria, nem tem força de liderança. Portanto, "movimentos" é o bloco que faz a imagem dos movimentos sociais.


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Aqui tem um entrevista da semana passada com o Brandão.
Sim, é do PCO etc, mas a entrevista está muito informativa e pouco simples pregação:





domingo, 2 de maio de 2010

Ensaio sobre o Ser

Sim, é uma vibe "ser ou não ser". Na verdade, é um pouco mais específico. É questionar o que significa "ser", antes de se perguntar o que se é e o que não se é.
O que vocês pensam sobre "ser", o verbo? O predicativo, não o intransitivo.

Quando se fala em atribuições, elas vêm da onde? Quando nós dizemos que alguém "é" alguma coisa, estamos nos baseando no quê? O que acontece/ o que significa quando quem "é" deixa de ser o que se espera? Ou melhor, quando nossas expectivas são quebradas porque alguém não age como você espera que ele seja?

Ah-há!

Primeiro ponto de tudo: humano lidando com humano.
Tudo não passa de correlações criadas por nós. Para a natureza, nós simplesmente existimos. Nós seríamos como a grama: cresce quando quer, o quanto quer, por onde quer, sem rédeas, sem cortador-de-grama. Ser, na natureza, é simplesmente existir. Seguir o fluxo. Sem noção de tempo-espaço, mas vivendo só dele.
Mas isso é muita confusão para a racionalidade humana. Existe uma necessidade humana de classificar, sistematizar, definir. Nós fazemos isso para não nos confundirmos, não nos perdemos, não ficarmos loucos. Para "ser", você se baseia naquilo que é mais frequente na pessoa. Exemplificando: se fulano é estudioso, significa que ele costuma ter uma disciplina de estudo. Mas não significa que ele sempre vai a seguir. Não significa que ele não terá preguiça de estudar, e deixará de estudar alguma vez por causa disso.
Basicamente, classificar o outro está intrissicamente ligado a frequência com que esse outro faz ou pensa alguma coisa. Este é o "ser" sob as perspectivas sociais.
Nós mesmos nos sujeitamos a ela. A gente se define dessa maneira também. Somos nós mesmos nos vendo como terceiros.

Já devem ter ouvido falar que nós somos várias pessoas: como cada outro nos vê, como nós mesmos nos vemos e o que realmente somos.

No caso, estou me atendo a refletir sobre o tal de "o que realmente somos".
A gente se enxerga de uma maneira e mesmo nós somos incoerentes com o que pensamos sobre nós mesmos, seja mentalmente, seja agindo.

Fazemos besteiras; nos arrependemos; nem percebemos que o que fizemos é diferente do que pensamos, ou melhor, incoerente com que pensamos; magoamos os outros por quebrar suas perspectivas com relação a nós (e que nós mesmos ajudamos a construir) por algum momento; sentimos coisas de vez em quando que não costumamos sentir, e, portanto, falamos como se não sentissemos; pensamos, nem que seja por instantes, coisas que refutamos com vigor quando racionalizamos de maneira mais trabalhada (e é essa que nos guiamos e, por consequência, expomos socialmente); achamos que temos capacidades que de vez em quando falham, mas mesmo assim a gente diz que tem (e os outros acham que a gente sempre tem, ou esperam por isso); de vez em quando nos sentimos atingidos por coisas que normalmente não nos atingiriam; muitas vezes o que pensamos não é posto em ação por nós mesmos, mas nos entendemos como o que pensamos, e não o que agimos (afinal, dá-se a justificativa da "oportunidade", ou, em geral, falta de percepção sobre nossas ações); criticamos e nos sentimos incomodados com coisas das quais a gente diz que não gosta, mas faz também...

Tanta coisa! A incoerência persegue-nos. Persegue-nos não simplesmente porque somos "errados". Persegue-nos porque a gente inventou definições para nos entendermos entre nós, em sociendade, e não vivermos no nosso próprio mundinho, em que só você mesmo entende/compreende o que você faz (e olhe lá!).
O problema, talvez, está em se prender a essas definições. Para entender o outro, e a você mesmo, não se pode guiar apenas pela trilha dessas definições. Há varios ramos interligados, como a floresta selvagem que a natureza deixa fluir. Às vezes, o que os outros entendem por incoerência, não é incoerência para nós, mas uma sobreposição de contextos, raciocínios, sensações e prioridades, racionalizadas ou momentâneas. Às vezes a gente sabe bem o que fez. Alguns não conseguem lidar bem depois, se arrependem. Outros conseguem se compreender, aceitar o que foi feito e, dependendo, buscar lidar de outra forma no futuro (uma conquista não tão fácil).

Por isso, não é difícil perceber o porquê das pessoas se desentederem tanto. Se há tanta incoerência e sutileza num ser só, que dirá procurar algo harmonioso em tantas pessoas juntas. Se um grupo de 5 já são 5 complexidades que de vez em quando se desentendem... MEU DEUS! 6,5 bilhões é uma loucura!!! Dois já são capazes de nervos em ebulição.

Não é uma questão de nos conformamos com as nossas incoerências e as dos outros. Mas as entender. E, no caso de nós com nós mesmos, procurar identificá-las e as evitar ou as repensar.
De qualquer maneira, o ponto central é ter consciência de que somos o que vivemos. Se a gente buscar viver sempre melhor e de maneira mais equilibrada, buscar ser aquilo que nós entendemos como correto ou/e bom, então entender que ser de uma maneira classificada é só uma construção humana.
Nada de se auto-destruir ou destruir o outro porque você/ele foi "diferente" do que se espera. Nós, porque, sabendo/ tendo ciência do que nos aconteceu, é sempre uma oportunidade para se entender e seguir em frente. Os outros, porque nós não sabemos tudo que está dentro do contexto deles - as coisas que aconteceram, suas emoções, que tipo de raciocínio é priorizado naquele momento -, então o que nos resta é tentar compreender, e aproveitar para enxergar com mais clareza quem eles são - o mais próximo do fluxo natural de existência.
Em geral, decepções e irritações acabam se mostrando bem menores do que realmente são toda vez que se busca a compreensão.
Sempre bom ter clareza de entendimentos cruciais sobre o humano para poder praticar compreensão com mais facilidade.


É, nada como um dia de praia sozinha e uma tpm exigindo que você reveja a maneira como você enxerga algumas coisas.

sábado, 26 de dezembro de 2009

A coragem de uma decisão

Mandei, por sms, a uma amiga, comparsa-mor de lógicas, numa época recente de caos galáctico batalhando com a frieza da serenidade e do controle de si:

"O maior desafio de uma decisão é saber não ter medo das consequências, causem elas arrependimentos ou não. Porque uma decisão bem ponderada sabe o peso dos valores, e isso é o que dá coragem".

A época, que ainda se faz sentir entre nós, as duas passavam por coisas que esta minha reflexão se encaixava perfeitamente. Ela me acompanhava já a um bom tempo, mas essa forma sucinta foi retirada ao final de um mini-surto de frustração.

Frustração básica de pouco tempo para muito o que fazer.

Só que desta vez o pouco tempo só era pouco por opções que fiz, conscientes, mas que juntas geraram desorganização. A desorganização foi uma consequência, a pseudo-neura e a frustração também. Elas eram resultado da opção que fiz nesse semestre de dar mais atenção aos amigos e a família e de arcar com todas adversidades que vinham de um projeto comandado por mim.
Eram coisas que tinham um valor para mim, e que geraram frutos, os quais ainda colho (e ainda cultivo a horta).
No momento em que cheguei a essa sentença, vi tudo mais claro. Meu nervosismo passou, e continuei a fazer o que tinha e o que dava para fazer, como sempre fiz nessas situações.

Não adianta ficar olhando para trás, resmungando do que não fez. Ainda mais se o que não foi feito ficou desse jeito porque você fez outra coisa. Não se trata de criar desculpas, mas ter consciência exata do que foi feito. É simplesmente ter agido com reflexão.

Antes de tomar uma decisão, pensa-se nas possibilidades. No que vai acontecer se se fizer algo, e se não se fizer. Saber o que vai acontecer, e saber o que dará para ser feito. Saber para quê você fará, e se isso é o melhor. Saber o quê, para você, significa "melhor". Saber as medidas de cada peso. Ter certeza dos valores que você dá a elas.

É um jogo complexo. Não é tão simples quanto falar. Mas uma vez que se torna uma decisão, se bem feita, qualquer coisa que bata nela reconcheteará, porque você terá um argumento. Não tem como não ter coragem de tomar uma decisão se você estiver armada de argumentos.


O ruim é quando dá preguiça de explicar aos outros tudo o que você pensou. Mas Mahatma Gandhi nos acompanha. Paciência!!

Quanto à minha amiga, ela está aprendendo ainda...

*Rio + sol + água + samba*

1- O que está ouvindo: Samba-enredo de 2010 da Unidos da Tijuca ;D
2- Último filme no cinema: Julie & Julia - Meryl Streep, uma delícia.
3- Livro que está lendo: A tragédia do Líbano - Domingo del Pino
4- O que fará hoje a noite: Ensaio de bateria da Unidos da Tijuca! Yeah Yeaaaaaah!
5- Reflexão do dia: "Refletir sobre si é uma obra de Igreja"

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Ligações entre a confusão no Irã e em Honduras

Atualizando os que estão em outro mundo:

Após as eleições presidenciais deste ano no Irã, que teve suspeitas de fraude nas urnas (o argumento mais grave, na minha opinião, é o de que é o resultado foi dado duas horas depois de fecharem as urnas. Detalhe: urnas com votos de papel de todo o país, que tem cerca de 70 mi de pessoas -a votação pra prefeito de São Paulo no ano passado, com urna eletrônica, demorou quase 4 horas para ser contada), milhares de iranianos - jovens e velhos, homens e mulheres - saíram às ruas pedindo que os resultados fossem revistos. Foram duramente repreendidos pela polícia de Mahmoud Ahmadinejad, presidente supostamente reeleito, o que gerou muitos conflitos e mortes de manifestantes, mas não conseguiu acabar com o movimento.
Aliás, o movimento havia dado uma diminuída (pelos menos na cobertura dos jornais) nas últimas semanas, mas ontem teve uma grande passeata em homenagem as vitimas, havendo conflito com a polícia novamente.

Em Honduras, num imbróglio ainda meio mal explicado, o presidente eleito pela população, Manuel Zelaya, recebeu um golpe por opositores com o apoio do Exército e da Suprema Corte, após ele tentar fazer um consulta nacional sobre a mudança na Constituição. Essa consulta era considerada ilegal segunda a Constituição do país, e Zelaya recebeu uma ação judicial para que não a realizasse. Ele insistiu no assunto, e foi deposto por descumprir ordem judicial.
Ele foi exilado e até agora está tentando entrar no país por meio da fronteira com a Nicarágua. Sinceramente, ele está fazendo o maior show com isso (entrar no país em um caminhão dirigido por ele, com centenas de seguidores e jornalistas junto), e atropelando meios mais adequados de se resolver a questão (como um acordo que os EUA já se disponibilizou a mediar, e que ele aceitou, por sinal).
De uma maneira ou de outra, Zelaya aparentemente tem apoio da maioria da população hondurenha, que se manifesta com o presidente eleito por eles, ou faz suas próprias passeatas na capital Tugucigalpa, e de praticamente toda a comunidade internacional, que não reconhece o governo golpista.


Acho que é meio óbvio o que há de comum entre os dois.
Populações exercendo e lutando pelo seu direito a democracia, mesmo que estas sejam frágeis nos países em que se encontram.

Por motivos bastante subjetivos, o que está acontecendo no Irã me emociona mais do que em Honduras.
A população não se calar diante de um governo opressor, em uma cultura que já por si só contem comportamentos considerados ocidentalmente como conservadores e submissos (devido a maioria xiita dos muçulmanos do país), é um indicador de coragem e transformação que pode estar surgindo no Irã.
Ahmadinejah é um cara bem populista, tem sua base eleitoral nos pobres, e é um político de muita lábia. Seu discurso varia segundo a platéia. Para a comunidade internacional, ele faz uso de palavras próprias de vítima injustiçada, especialmente no que diz respeito ao seu programa nuclear. Internamente, ele bate em todos que se opõem as suas idéias, mas isso não costumava ser um grande problema para ele.
Agora que esse bater está afetando muito diretamente a população (de uma maneira bastante ultrajante, afinal a fraude é bem óbvia) e que até o aiotolá (maior autoridade do país, líder religioso instituído pela Revolução Iraniana), que apoia o presidente, chegou a dizer que talvez fosse melhor rever a contagem da eleição, Ahmadinejah ou aprende a aceitar os apelos da populção, ou no seu próximo escorregão insultante acabará sendo tirado da presidência pela população.
É claro que esta é uma opinião otimista minha. Governos tiranos devem ser retirados com a vontade da população. Sempre há aquela ajuda na surdina (ou na cara dura) de outros países, mas quem faz as coisas acontecerem é a população. É assim que transformações sólidas acontecem, porque se torna algo do qual a população se orgulha, e a lembrança da luta é algo que perdura e se tenta preservar.
Bem diferente da palhaçada que aconteceu no Iraque. Que só foi merda atrás de merda.
Democracias, especialmente no Oriente Médio, tem de ser algo almejado pela a própria população, com pensamentos e modelos vindos dos próprios árabes (claro que, por ser um modelo político bem ocidental, haverá influência. Mas que seja só de idéias, aceitas e bem recebidas pelos árabes). Pode ser muito lento, mas é um processo necessário. Caso contrário, uma intervenção direta de outros países se torna algo que gera ódio e rejeição a essas ideias, sem que elas tenham a oportunidade de serem realmente bem discutidas, sem que elas possam entrar na mente da maioria da população.
O Irã finge que tem democracia. Se diz uma república islâmica. Mas lá, como em todo lugar que a democracia é frágil, manda o poder e as influências. Ainda mais porque essa coisa de aiatolá é uma enganação que faz os muçulmanos se sentirem intimidados a se opor, com medo de estarem desrespeitando a religião.
Mas não é ruim sonhar com um dia em que O Corão receberá a interpretação individual de cada um, e então governos como Irã não poderão abusar da religião para controlar a população. E essa população não permitirá ser governada sem que se considere de maneira consistente a sua vontade.


Sobre Honduras, confesso, não sei muito de sua história. Mas certamente um lugar em pleno século XXI que tem seu presidente deposto por uma desculpa esfarrapada como a que foi dada pelos golpistas não tem uma democracia forte. A própria ação judicial já é absurda. Que Constituição é essa que não permite a voz da população?
Mas, em termo judiciais, ok o presidente ser repreendido... Mas ser deposto é um exagero oportunista.
Só que esse golpe não vai longe. A não ser que sejam reveladas informações muito sórdidas sobre o Zelaya ou o próprio cometa um grande erro que indigne a comunidade internacional (não acho isso totalmente impossível, a julgar pelas atitudes impulsivas e meio wanna-be-herói que ele vem tendo), os golpistas não conseguirão governar.
Honduras iria receber sanções comerciais e a coisa ia ficar bem difícil (e quem sofre mais é a população - que possivelmente se revoltaria ainda mais). Também existiria a possibilidade de uma intervenção da ONU - e se isto acontecesse, ia virar uma situação caótica (Eu esperaria que fosse MUITO melhor planejada do que o que eles fizeram no Haiti... Mas tenho minhas dúvidas).
Em Honduras, uma intervenção internacional é menos grave do que no Irã, já que não se pode por culpa em culturas ou mentalidades. Não tem como o governo hondurenho contra-atacar com uma campanha de insultos ao ocidente e sua incompreensão com relação a uma religião em específica. É um outro contexto.
Não dá para usar a desculpa que os interpostos comerciais são uma repreensão ideológica, como ocorre no Irã. A população sabe bem que seria uma repreensão a um governo que não foi eleito por eles. É uma situação insustentável para o governo golpista.
Eles vão cair.


É meio difícil para mim, como brasileira, ficar falando que esses lugares não tem "democracia forte", sabendo que um americano ou um suíço diriam o mesmo sobre o Brasil.
É claro que são níveis diferentes, e o Brasil, mesmo que mancando, está sim avançando em termos de democracia.
Sim, nós temos de conviver com políticos que não ligam para a opinião pública e ver a maioria que se elege não passar de uma corja endinheirada e influente. Mas, de toda a maneira, é a população que elege. Muito mal, mas é ela.
Mas um americano e um suíço achariam engraçado, quando não patético, que a democracia no Brasil se resuma a eleições do executivo e do legislativo, com poucas consultas populacionais. Lá eles elegem até o juiz principal da cidade. A Suiça consulta a população até para saber se eles aceitam que aviões do Exército utilizem certa área do espaço aéreo. Quase a metade dos estados norte-americanos fizeram um plebiscito junto com as eleições do ano passado para saber se a população aceita o casamento gay.
Pena que os brasileiros andam cada vez mais indiferentes, e mesmo que a mídia fique pressionando para que o Congresso Nacional, no mínimo, envergonhe-se das coisas que acontecem por lá, poucos acham mais importante protestar do que ver seu programa na tv aos domingos.

Que tal se inspirar um poucos nos iranianos e nos hondurenhos?
(ressalvas para as gravidades dos problemas, mas por que não se contagiar?)

Um PS para meus amigos que farão vestibular este ano:

- Estudem a importância geopolítica do Irã e a Revolução Iraniana

Vídeos do Irã:

- Sinta o tamanho das manifestações.
- Confusão com os ataques policiais (note o perfil do iraniano que postou esse vídeo)
- Protesto de ontem no cemitério em que pessoas foram rezar por quem morreu no movimento

Só uma coisa que achei muito curiosa e estava no post de um dos canais desses iranianos protestantes:

"Amercian high school teacher's responce on recent events in Iran that has been posted to one of Persian blogs:

I teach at a NYC high school, and recently one student stood up to our very intimidating principal, (something that almost never happens). When he did not get permission for what he intended another student said Lets go Iranian on him. By that he meant organize a protest. And so now they IRAN anything they want to change. So it has become a verb now and to Iran the situation is to stand up to authority, well at least here in this corner of the universe. And it is a huge bonus for me because I cannot usually get them to even pay attention to another part of the world.

Point being, even these students who get very small amounts of news equate Iranian with bravery and I completely agree, and wish I had that kind of intestinal fortitude.
You have our greatest admiration and respect!"

Tradução:
A resposta de uma professora da high school [equivalente ao Ensino Médio] americana diante dos recentes eventos no Irã que foi postada em blog persa [os Iranianos tem decendência persa, para os que faltaram nessa aula de História, e muitas vezes se utilizam dela para se denominar]:

Eu ensino em uma high school de Nova York e recentemente um(a) estudante contra o(a) muito intimidante diretor(a) (algo que quase nunca acontece). Quando ele/a não conseguiu permissão para o que queria, outro (a) estudante disse "Vamos iraniar nele(a)"!. Ele/a quis dizer organizar um protesto. E agora eles "iraniam" coisas que eles querem mudar. Isso virou um verbo agora e iraniar uma situação é levantar-se contra a autoridade, bom, ao menos nesse canto do universo. E é um grande ganho para mim, porque eu não consiguia nem ao menos fazê-los prestar atenção em outra parte do mundo [NT: ela/e quis dizer que a situação no Irã fez seus alunos prestarem atenção em outros lugares além daqueles comuns a eles]

A dado ponto que até alunos veem poucas notícias entendem Iran como sinônimo de bravura e eu concordo completamente, e queria ter esse tipo de persitência intestinal [traduzi literalmente essa expressão, mas no Brasil se diria, provavelmente, "ter esse estômago". Mas a americana é mais precisa]

*Chocolate quente italiano é pastoso*
1 - O que está ouvindo? Prologue (The book of Secrets) - Loreena Mckennit
2- Último filme no cinema? Inimigos Públicos - Apesar da crítica boa, vale mais pelo Jonnhy Depp e a Marion Cottilard do que pelo diretor.
3 - Última grande leitura (tirando as de trabalhos universitáios): 17 mangás de Fullmetal Alchemist em uma semana.
4 - Último delírio: Achar que podia fazer em 6h o que levei 11h para fazer.
5- Reflexão do Dia: Influencie pelo exemplo, não pela força.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Entre limite e fraqueza.

Eu não vi "Onde os fracos não têm vez" ainda, mas acredito que os "fracos" do filme, têm a fraqueza a que me refiro (ou não, já que é um faroeste. Mas é um bom inicio de post, então vou continuar nessa linha).
Pessoas que deixam de fazer algo sem tentar; pessoas que não suportam as dores de um percurso árduo, mesmo sabendo que o fim terá bons resultados; pessoas que têm medo de seguir por algo que desconhecem e por isso desistem/nem tentam; pessoas que não se mantem firmes em uma posição, por mais que saibam que ela é melhor para todos, porque elas irão se desgastar ou, mesmo pior, irão dar muito de si e possivelmente não receberão algo que considerem equivalente ao esforço.
Esse tipo de fraqueza faz parte do ser humano. Faz parte, talvez, do seu instinto de sobrevivência. O risco e o esforço vão contra um estado natural de "conforto mental".

Felizmente, pessoas percebem que "conforto mental" não é sinônimo de felicidade, de plenitude, ou de amor a si e aos outros. O conforto mental é cômodo, mas inútil.
Um conforto mental serve para pequenos momentos em que o cérebro precisa de descanso. Viver neste estado o tempo todo, sinceramente, é declarar sua própria morte. Que utilidade tem um humano que não se preocupa, que não tenta melhorar, que não tenta alcançar algo?
Simplesmente viver não nos diferencia dos outros animais. Nos tornam muito menores do que eles, dependendo do caso.

Se superar e tentar superar os outros devia estar encrustrado em nossas mentes como algo óbvio a se fazer, por mais que ás vezes a vontade impulsiva seja contra, por achar difícil/complicado demais. Não que realmente vamos alcançar essa superação, nem que realmente precisemos de tudo isso, mas a simples tentativa traz lições e novas perspectivas. Focar naquilo que é o melhor, e não naquilo que você se acha capaz de ser sempre acaba levando para outras fronteiras.

Quanto a passar por poucas e boas por um objetivo...
Esse talvez seja o quesito mais difícil. É a sensação que me fica quando me vejo oscilar muito e vejo amigos/colegas jogarem a toalha. Não me recordo de algo que eu tenha oscilado e jogado a toalha, ainda que tenha oscilado intensamente e que os meus projetos mais ambiciosos ainda estejam em andamento. Me orgulho, sim, e não tem porque não. Mas por me encontrar numa situação desse tipo, não consigo aceitar muito que as pessoas joguem a toalha quando estão numa situação muito mais fácil que a minha. Tendo consciência que não sou mais do que ninguém, fico tentando achar os porquês.

É de criação? Tem a ver com a trajetória de vida, com certeza. Admirar pessoas que são muito severas com você e/ou com elas mesmas certamente contribui. É uma admiração que veio com a percepção ou é biológica?
É uma questão de maturidade? Tenho minhas dúvidas. Antes de tudo, o que é maturidade? Não é a maioria dos adultos que são adeptos do esforço e do risco para alcançar algo. Ainda que todos tenham passado por situações que necessitaram disso.

Não dá para saber.
E eu vou me questionando se o tipo de dedicação que eu dou para as coisas que quero é o certo a se fazer ou se é uma completa ignorância dos meus limites que no futuro eu sentirei.
E me respondo, cheia de contrapontos, que os limites são quando nada mais pode ser feito e ultrapassam as leis da física (tipo precisar de mais de 24h por dia). Só que o uma resposta dessas, até hoje, pouquíssimas vezes me impediu de continuar com certos planos.

Será que eu sou muito criativa ou esses meus conhecidos é que estão precisando de uma injeção de perseverança?

Ah, a perseverança... Leva para lugares que a preguiça não pode nem imaginar!


*"Pq eu estudei em colégio de freira"*

1- O que está ouvindo? Iron Swallow - Jonny Greenwood
2- Último filme no cinema? Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Falem o que quiser, aprendi a gostar das adaptações, e, ainda que não seja perfeito, esse é o melhor filme da série!
3- Último filme na tv? O matador, de Pedro Almodovar. Rio muito com Almodovar... xD e... OMG! Antonio Bandeiras mto novo! o.o
4- Último filme no pc? A Encruzilhada, para estudos de Blues. WTH aquela "luta" de guitarras?! Fiquei em choque!
5- Reflexão do dia: Ninguém cresce sem se enfiar em dores e dar um pouco de si.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Que diferença faz a maioridade?

Tudo bem que eu já abordei esse assunto indiretamente em vários posts, mas eu estou com vontade de escrever, e esse foi o primeiro assunto que me veio na cabeça.

A resposta, a de sempre no meu mundo da relativização, é que depende de quem você é. Depende dos seus pais, depende dos seus amigos, depende do seu país, depende do que te aconteceu antes dos 18 (ou 21, ou 16...).
No meu caso, 18 anos foi só uma carteirinha entre os adultos para que eles dissessem certas coisas. Meus dois primeiros dias de 18 anos foram uma comédia pastelão. Imagine: Eu faço aniversário no natal, e geralmente a ceia é aqui em casa (naquele ano, foi). Portanto, muitos dos meus familiares vem para cá comemorar conosco. Imagine todos esses familiares falando frases clichês "Agora já pode beber!"(1), "Cuidado para não ir presa!"(2), "Agora é adulta!"(3).

1- É, isso aí! Vou tomar todas! Já que me mantive em total e completo recato como todos os adolescentes...
2 - Poxa! Agora sim posso cometer um infração! Yupi!
3- É, sou mesmo... Pago minhas contas, tenho minha casa, não devo dar satisfação para ninguém...

A minha irmã e suas amigas foram as piores. Falaram não só essas coisas, como também abriram recomendações sobre sexo, como eu devo lhe dar com as drogas na faculdade etc...
Brinquei com os meus amigos nessa época que minha família criou o "mundo mágico dos 18 anos".
Mas ela criou. Porque ele, na real, não existe. Ao menos para mim.

18 anos é como os quinze, os dezesseis... Provavelmente os vinte também. Tem coisas interessantes, é verdade: você compra bebida sem vergonha, você - se tiver condições - pode aprender a dirigir... você... ham... acho que só isso. Ah, você é obrigado a votar, se não fez isso por livre e espontanea vontade aos 16 como eu. E você passa na faculdade, se você fez as coisas direito.
Poucos resistem até os 18 para tocar os lábios no álcool. Eu na cadeia só por um azar ou uma perseguição política (?). FATO. Acho (e todos sempre souberam disso) drogas patético e dá dinheiro para o tráfico, portanto... NEVER.

Adulta? O que é... adulta? *Lagarta da Alice no país das maravilhas*

Subjetividade, para começo de conversa.
Adulto para mim paga as suas contas. Adulto para mim tem seu próprio teto (alugado ou não). Adulto só diz aonde vai quando quer. Adulto (deveria ter) tem senso crítico, mas não rígido (e chato/blasé, diga-se de passagem). Adulto (deveria) controla emoção.
Mas adulto pode (deve) gostar de Disney. Adulto pode pular jogando video game. Adulto tem direito de gostar de animação. Adulto tem todo o direito de fazer piadas patéticas. Adulto pode achar legal festa a fantasia. Adulto pode gostar de Kinder Ovo.


Que diferença faz a maioridade?
Muito pouca. Não é sinônimo de ser adulto, com certeza. Ser adulto é bem, bem mais lento.


P.S.: Às vezes eu creio que a maioria das coisas que escrevo são para pessoas mais novas que eu. Será mesmo?




*Reptar - Yes, Rugrets*
1 - O que está ouvindo? Beat it - Michael Jackson
2- Ultimo filme em dvd? Aladdin - ziguilhonésima vez, para fazer roteiro de peça infantil -> NAC nas creches da Ação Social.
3 - Último filme na tv? Harry Potter e a Ordem da Fênix - rs... adooooro...
4 - Última maluquice? - Atrazar todos os trabalhos em prol do "Bodas de Sangue" do NAC.
5 - Reflexão do Dia - Saiba o que é, antes de querer ser.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A greve na USP em 2009

Como aluna da USP, eu tenho duas coisas a comentar nesse blog:

1- Sinto por não ter postado durante meses, eu tenho até um post incompleto aqui nos rascunhos, mas me faltou tempo. Ou melhor, fui incomodada pelo o velho pensamento dos cdfs "enquanto eu estou 'perdendo' tempo neste post, eu poderia estar escrevendo aquele trabalho".

2- Quem não está viajando na lua, está a par da greve na USP, ao menos depois do confronto da última terça-feira. É quase meu dever, pelo o papel que eu estabeleci para esse blog e por ser aluna do departamento mais mobilizado da greve, comentar sobre ela.

Então, vamos desenvolver o segundo comentário hoje.

A ideia de greve está circulando desde abril entre os funcionários. Eles foram adiando as votações por conta dos feriados daquele mês, mas parecia meio inevitável. Por quê?
Na pauta dos funcionários, há uma revolta pela demissão de um dos líderes sindicais, um tal de Claudinor Brandão . Há uma confusão também porque o estado fez um concurso há uns dois, três anos atrás que não foi regularizado. Os funcionários (nas 3 universidades estaduais) que foram contratados nesse concurso iam ser demitidos, ao invés de serem regularizados. São entre 2 e 5 mil pessoas, não me lembro direito. E há a velha luta que, entra greve, sai greve, nunca se resolve: o salário nunca está de acordo com o que deveria. Esses eram os principais pontos naquele momento.

Dessas pautas, eu acho completamente duvidosa a primeira. O Brandão, até onde me foi informado, já nem estava mais trabalhando como funcionário propriamente dito, ele estava só ativo no sindicato. Ele estava sendo pago pelo governo para ficar gritando (minha opinião tendenciosa). Os funcionários acham que o motivo da demissão dele foi puramente político, uma vez que ele foi um dos lideres dos funcionários na greve de 2007 e outros tipos de incômodos "políticos".
Porém, há uma lado negro do Brandão nessa história: ele está sendo acusado de assédio sexual em uns 4 processos judiciais, vindos de meninas diferentes, que são estudantes da USP. Além disso (e por isso - e mais algumas coisas que naõ são discutidas e, portanto, eu não sei), como funcionário publico, ele sofreu um processo administrativo e burocrático que não passa só pela opinião da "autoritária" reitoria, mas por uma comissão formada por professores, funcionários e alunos, segundo uma professora me disse.
Logo, ao meu ver, defender o Brandão não é "defender as lideranças sindicais" de uma "perseguição política", como disse uma colega num debate do meu departamento, mas um ato emocional e, como de praxe, cego. Ele, acredito eu, não é flor que se cheire. E independe de haver um pedaço de "alívio político" da reitoria nessa decisão, ela não foi tomada sozinha e nem sem outros (bons) argumentos.

Enfim, nossos caros funcionários - por idealismo e, quase como consequência, por uma falta de visão pragmática - declararam greve no dia 5 de maio, uma terça-feira, fazendo os serviços que aliviam muito mais os alunos mais carentes do que qualquer outro pararem de funcionar: bandejão (restaurante universitário que custa quase 2 reias um prato muito nutritivo), ônibus circular (de graça), biblioteca, pró-aluno (sala de computador que não paga nada)...

Na minha humilde opinião, greve é um instrumento de reinvidicação que deve ser usado absolutamente em última instância. Greve é a resolução tomada quando todas as outras alternativas já foram praticadas. Ela afeta a vida das pessoas de uma maneira enorme: atrapalham planos, atrasam os estudos, deixam as pesquisas mais capengas (sem biblioteca), altera a dieta de quem precisa do bandejão...

Tentar uma reunião com a reitoria eles fizeram, fazer manifestações dentro da USP também. Mas eu não vi passeata fora da USP, não vi uma divulgação, escrita por eles, dos problemas que eles estavam tendo em nenhum pedaço midiático, não vi nenhum tipo de insistência nem mesmo dentro da USP. Eles não fizeram grandes tentativas de mobilização. Gritaram às portas da FFLCH e afins, como se isso, em pleno século XXI e 20 anos após a queda do Muro de Berlim, fizesse realmente uma grande diferença na opinião dos outros. Não rolou nem panfleto (apartidário)! Foi no boca-boca e na convocação para comparecer a debates.
Quanta ingenuidade! Meus míseros 19 anos de vida foram o suficiente para eu sacar que, definitivamente, não se deve esperar que "Maomé vá a montanha, mas que a montanha vá a Maomé". É quase patético ouvir que 700 funcionários, dos cerca de 60000, estavam na assembleia. E esses 700 declararam greve.
Ao invés de conquistar e mobilizar antes da greve, eles tentam depois, quando todos já estão com raiva dos "politicamente ativos" e, pior, sob piquetes (ou em casa assistindo Datena). Claro, não se pode esperar mais do que a metade se mobilizando. Nos EUA, onde o voto é facultativo, o normal (quando não há "Obamas" concorrendo) é uns 44% da população que pode votar comparecer às urnas. Mas 700??? Há algo errado! E o mais fácil identificar é: falha de mobilização.

Esse pessoal "politicamente ativo" costuma dizer que os outros que não comparecem são "individualistas", "alienados" e/ou até "reaças" (reacionários - "direitões"). Dizem que é um reflexo dos nossos tempos. Será que o problema está mesmo no envolvimento político das pessoas?
Mesmo que parte da culpa seja isso, e eu não nego (ainda que eu ache que não é um nível tão abaixo do que o de outros tempos), está lhes faltando perceber que os tons das mobilizações políticas líderes já não estão mais afinados com os da maioria. Não há "inimigo comum", como nos tempos da ditadura. Por conta disso, não há só uma voz nesse coreto. Mas uma voz é meio que imposta.
Essa voz imposta incomoda e, em muitos casos (e não adianta eles negarem, eu já vi, vi muitas vezes e não sou a única), ela é intolerante. Ela vaia quem fala diferente e interrompe os argumentos dos ideias diversas com gracinhas ou mesmo com discursos. Esse tipo de coisa afasta quem faz um esforcinho para acompanhar os debates políticos. Outro problema é o dos discursos partidários. Tem muita gente lá envolvida com partido e essas pessoas são, em geral, vozes muito ativas. E chatas, extremamente chatas. E eles quase sempre levam um debate que supostamente deveria discutir os problemas internos da usp para discussões governamentais duvidosas. Para adicionar à lista, há algo que está intrísseco aos dois itens anteriores, e, creio, é o mais problemático: na hora de convocar/convencer os outros de que se precisa ir aos debates, os "mobilizadores" não trazem só os problemas, mas as suas opiniões sobre os problemas. À exemplo: ao invés de dizer "estamos tentando há semanas um diálogo com a reitora, mas ela está adiando e não dá resposta", eles dizem "ela não conversa com a gente, numa posição claramente autoritária e opressora... blablabla".
Será que essa é a melhor abordagem? Essas falas soam ultrapassadas para a imensa maioria das pessoas. Elas ouvem uma coisa dessas e acionam o botãozinho no cérebro para "discurso esquerdista iludido e quixotesco". Não estou defedendo que isso é o certo a se fazer, eu acho que não se pode ignorar o que os outros têm a nos dizer (mesmo que seja de uma maneira muito chata. As vezes dá para extrair algo interessante), mas, se são eles que querem atrair os outros, se são eles que querem "abrir os olhos" dos outros, então são eles que têm de mudar primeiro, dar o primeiro passo.
Eu tenho certeza que se um lado se abre para mudanças, o outro também, nesse caso.

Obviamente que essa questão dos "politicamente ativos" e das mobilizações não é única dos funcionários. No movimento estudantil e na associação dos professores também acontecem coisas parecidas. Mas até o dia 1 de junho, eles não estavam tendo muito acordo entre si sobre a pertinência de uma greve.
Para os estudantes, apoiar as reinvidicações do funcionários já era uma pauta. Havia já também a questão da Univesp ( o programa de ensino a distância), a reforma na estatuinte (há uma enorme polêmica porque os professores têm 75% das cadeiras no Conselho Universitário, contra 15% dos funcionários e 10% dos alunos - é assim há anos, mas isso não é normal em grandes universidades. E para quem não sabe, o Conselho Univeristário é grupo que toma as decisões administrativas e políticas da USP. Pense em "vereadores". Além disso, quer-se que a eleição para reitor seja feita diretamente, e não pela escolha do Conselho) e, no caso do depto. da História, os problemas crônicos de infra-estrutura (muito aluno, poucos cursos disponíveis - queriam mais salas e mais professores - ainda que uma professora minha sugira que se discuta melhor isso, porque a solução pode estar num rigor maior para que os professores -que também são pesquisadores e tem uns direitos aí de não dar aula por não-sei-quanto tempo - não deixem de dar aula e também na abertura das salas pela manhã).

Os professores, por sua vez, tiveram seu plano de carreira alterado sem consulta, sem debate. O plano de carreira define pisos salariais e categoriza os professores entre eles. O novo plano de carreira pulverizava mais ainda a categoria e dificultava absurdamente o professor a conquistar méritos (o "topo" da categoria, nós fizemos as contas com uma professora, só poderia ser alcançado quando o prefessor tivesse, em média, 62 anos: ou seja, quando estivesse prestes a se aposentar). Além disso, o seu salário devia acompanhar os aumentos na arrecadação do ICMS, isso não acontece há 4 anos, como se não bastasse a redução de 40% no poder de compra deles com relação a 1988.

Acontece que, a partir do momento que a reitora usou uma ação judicial para chamar a polícia, as coisas esquentaram. O argumento da louca é que ela está defendendo o patrimônio público e que uma das funções dela é prezar pela ordem na universidade. Não sem razão ela diz isso, porque no dia 25 de maio, durante uma manifestação na frente da reitoria, alunos e funcionários invadiram a reitoria por algumas horas, quebrando portas e persianas. Além disso, piquete que impede os outros de irem aonde bem entendem, ainda mais um espaço publico, como as bibiliotecas, é contra a lei (e eu acho que tem de continuar a ser contra lei).
Eu imagino que por traz desses "bons" argumentos, está também uma vontade de não ter que ficar ouvindo as reinvidicações dos manifestantes. Não por maldade, uma teoria maléfica de que ela quer oprimir, mas por falta de paciência mesmo, por uma inabilidade política de extrair de discursos inflamados opiniões a se pensar, ideias a se questionar e soluções a se debater.
Inegável, porém, é perceber o quanto essa mulher não pode ser chamada de sábia. O que ela tinha na cabeça ao achar que PM no meio de uma discussão política é uma boa ideia? Por que ela não abriu mão da sua impaciência de ouvir as reinvidicações, já que ela preza pelo patrimônio publico e quer manter a ordem? Não vai haver quebra-quebra se não houver "motivo" para isso. Enfim, por que não dialogar ao invés de chamar a polícia? Por que não abrir o debate?

Os alunos (mobilizados) da História se irritaram com a presença da polícia e foram os primeiros a declarar greve, junto com os da Educação. Logo depois, a FFLCH já estava em greve. E, na quinta-feira, dia 4, os professores fizeram uma assembleia e declararam greve também.
Temos um problema aqui: desde quando é motivo para greve a presença da polícia?
Eles dizem: a polícia não entrava na USP desde de 69. E fazem comparações de conjucturas, intencionando uma volta da repressão aos movimentos sociais.
Eu digo: isso é motivo o suficiente para uma grande passeata, para muito barulho, mas não para uma greve.

A pauta mais forte da greve, e a que mais mobiliza por enquanto, é a que pede a retirada da polícia. E quando isso acontecer? O que será do movimento? Será que o resto é forte o suficiente para que uma greve mobilize?
Até a Politécnica fez uma assembleia que declarou repúdio a ação da polícia na terça-feira, dia 9. Não se sabe que lado incendiou o conflito entre os estudantes e a PM. Mas, independente disso, houve uma prova de um dos maiores porquês (e o que mais me preocupava) a polícia não podia estar ali no campus: a polícia é absolutamente despreparada (no sentido que ela não é bem treinada para esse tipo de ação) para lidar com manifestações políticas, é, em sua natureza, ao menos a brasileira, truculenta e formada, em geral, por homens de pouca educação. Um gesto agressivo, uma ofensa, uma brincadeira imbecil vinda de um manifestante é já se poderia prever que a polícia reagiria de maneira desproporcional.
E assim foi: estudantes xingando, batendo com livros, atirando pedras e flores (tem gente que achou legal, tem gente que achou retrô essa coisa das flores. De qualquer maneira, era obviamente inofensivo), enquanto os policiais atiravam tresloucadamente balas de borracha e bombas de efeito moral.

Foi tão desproporcional que, ao fechar o cerco dos estudantes no prédio da História e da Geografia, os policiais continuaram atirando balas e bombas, sem querer saber quem era manifestante, quem era professor, quem só estava passando por ali... Continuaram atirando até quando os professores pediam para conversar, mesmo na chefe do meu departamento, a professora Marina de Mello e Souza.

Dói ver aquele idiota do Datena mandando os estudantes estudarem, chamando-os de vagabundos e afins. Ainda mais aqueles que estavam na mobilização. Eles podem ser uns chatos, movidos pela emoção e caras com certa dificuldade de tolerarem quem pensa diferente deles; mas eles (ou a imensa maioria deles) acreditam que estão fazendo aquilo por uma USP melhor, mais democrática, mais correta, e, movidos pelo sentimento de perseguição política, mais livre.
Talvez alguns dos que estão adorando ficar em casa sem ter aula e nem querem saber da mobilização e de política, pudessem ser chamados de "vagabundos", mas mesmo assim há de se questionar.

Eu acho que piquete é a maior idiotice, ele só ajuda a afastar as pessoas e as deixar com raiva. Impedir que os outros tenham aula é ridículo, além de ser uma violência. O convecimento vem das conversas, e as possibilidades de estabalecer uma conversa têm de ser exploradas a mil e não só esperar o comparecimento às assembleias. A própria ideia de greve no final do semestre é absurda.
Muitos dizem, agora, que greve mobiliza sim, porque com ela muitas pessoas que não iam nas assembleias e debates estão indo. Completa ilusão. Quantos a mais será que eles teriam conquistado se tivessem feito mais atos, mais passeatas, enviado mais e-mails, parado as pessoas nos corredores?
Estão indo aqueles que por si só estão interessados na política da univerisdade (e que querem defender suas ideias, inclusive as que são contrárias a greve e certas pautas). Muitos outros poderiam ter sido convencidos. È mais fácil convencer (de que há problemas na universidade que devem ser discutidos) do que se pensa, porque os problemas da USP são feitos, em sua maioria, pelos erros da reitoria e do governo. Basta apresentar esses erros, nem precisa dar sua opinião sobre eles, que eles já atraíriam e indignariam muita gente.

Incomoda-me frases do tipo "a usp está em greve de novo?", "são sempre os alunos das ciências humanas...", ditas com um certo desprezo. Se a ideia de greve está certa ou não é uma coisa, mas se há greve e se são alunos das ciências humanas (ainda que não seja a maioria dos alunos que se mobilizam/ concordam) os que mais apoiam, tem seus motivos. Se há greve, a usp está com problemas. Se são os alunos de ciências humanas, é porque eles são os que mais se interessam em discutir esses problemas.
A FFLCH é a faculdade com maior número de alunos de toda a USP, uns 12 mil, entre 65 mil alunos, quase um quinto. Em compensação, seu orçamento não leva nem 5% do total da USP. Sim, os nossos cursos, em termos de custos, são mais baratos do que um curso de engenharia mecânica ou medicina, por exemplo. Mas por ser uma faculdade com gente demais (embora não só por isso), a nossa biblioteca devia ter os padrões de uma biblioteca americana: livros em várias línguas, vários exemplares... é triste saber que uma biblioteca tão defasada quanto a nossa é considera a melhor biblioteca de ciências humanas do Brasil. Além disso, todos, TODOS os prédios precisam de reforma. Tem tanta coisa... Vou deixar essa discussão para outro dia.

O importante é entender que, sendo correta ou não essa greve, tendo o apoio ou não da maioria, ela expõe problemas (que podiam ser expostos de outras maneiras)...
Ela tem motivos para ter sido declarada. Alguns nobres, outros nem tanto. Outros que despertam discussões e dividem muito os manifestantes e, portanto, não devem ser entendidos como um bloco único, muito menos devem ser distorcidos.
Jamais, pelo amor de Deus, acreditem quando alguém disser que os alunos são contra o curso a distância da Univesp porque o tal do curso possibilita que mais gente tenha acesso a universidade, como fez o editorial da Folha no sábado passado. É um absurdo, uma distorção grotesca, uma ofensa a quem costuma fazer parte dos movimentos sociais.
Nós não temos infra-estrutura para suportar os cursos a distância, e eles não foram discutidos com a "comunidade uspiana". Particularmente, eu não sou totalmente contra a Univesp, mas eu acho que algumas coisas precisam ser resolvidas antes e, principalmente, a univesp não pode ser entendida como solução para a falta de vagas, como o governo está fazendo, mas como uma alternativa para quem precisa desse tipo de curso, porém, não pode/quer pagar por ele. E mais: precisam ser discutidos os tipos de cursos que podem ser dados à distância, as possibilidades e soluções para não deixar a formação defasada. Será, que neste momento, o governo deveria criar a Univesp que, para ser feita de um jeito decente, exige muita grana? Será que não é melhor, por enquanto, se focar nos problemas de infra-estrutura que já existem, como o Crusp, que não suporta todos os alunos de baixa renda que precisam de moradia?

Pois é, as entranhas das USP são bem caóticas. Os números de 1º lugar no ranking de universidades brasileiras e maior número de publicações científicas podem enganar, mas enquanto houver problemas crônicos como ela tem e essa falta de esperteza e sabedoria política, ela jamais poderá sonhar em ficar perto de Harvard, Yale ou Cambridge...


Para ficar mais a par da greve sem ficar se baseando nos jornais/noticiários (ainda que aqui tenha coisas que eu discordo veemente... Ao menos dá um outro lado):
- Blog da greve



*Café e bolo de fubá*
1- O que está ouvindo? Ball and Chain - versão Etta James
2- Último filme no cinema? Anjos e Demônios.
3- Ultimo filme em dvd? O Falcão Maltês (sim, daquela coleção da Folha)
4- Maior novidadede aleatória desde a ultima postagem: estou fazendo o musical Into the Woods na Cultura Inglesa e eu sou a madrasta da Cinderela. =D
5- Reflexão do dia: "Parece que não há tolerância nas discussões políticas. Se falta tolerância, o diálogo é uma farsa democrática. Um impasse nunca se resolve, pois não se está realmente disposto a um consenso". (uma adaptação do que eu disse em e-mail numa discussão com a minha profª de Antiga I)